Entenda como o reator RBMK de Chernobyl transformava calor em eletricidade por meio de canais, água, vapor, turbinas, controle e sistemas auxiliares.

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O reator RBMK de Chernobyl era uma instalação de geração de grande porte que transformava calor em vapor, movimento mecânico e energia elétrica. Seu funcionamento dependia da integração entre o núcleo, a circulação de água, os separadores de vapor, as turbinas, os geradores, os sistemas auxiliares e a supervisão operacional.

O grafite mantinha a função de moderação, enquanto a água removia calor e também influenciava o comportamento do núcleo. A potência era regulada por barras de controle, sistemas automáticos, vazão de refrigerante, alimentação de água, carga das turbinas e acompanhamento contínuo de variáveis nucleares, térmicas, hidráulicas e elétricas.

Cada unidade RBMK-1000 tinha potência térmica próxima de 3.200 MWt e produzia aproximadamente 1.000 MWe. O Reator 4 alimentava dois conjuntos turbina-gerador. Assim, o RBMK não era apenas um reator: era uma cadeia integrada que começava no combustível e terminava na rede elétrica.

Este artigo acompanha essa cadeia funcional. O objetivo é explicar como o RBMK deveria operar, quais sistemas mantinham o processo estável e por que sua operação dependia de integração entre processo, automação, energia, telecomunicações e pessoas. A decomposição física detalhada ficará no artigo Arquitetura do RBMK: componentes, circuitos e sistemas do Reator 4.

Como uma usina nuclear transforma calor em eletricidade?

Uma usina nuclear é uma usina térmica. A fonte de calor está no núcleo, mas a eletricidade é produzida por uma cadeia semelhante à de outras centrais térmicas: calor, vapor, turbina e gerador.

  1. o combustível libera calor no núcleo;
  2. a água remove esse calor ao percorrer os canais;
  3. parte da água se transforma em vapor;
  4. os separadores retiram o vapor da mistura;
  5. o vapor movimenta as turbinas;
  6. as turbinas acionam os geradores;
  7. o vapor é condensado e retorna ao circuito;
  8. a eletricidade alimenta a própria usina e segue para a rede.

A energia não se convertia diretamente em eletricidade. Ela passava por uma sequência de transformações: energia nuclear em calor, calor em energia do vapor, vapor em movimento mecânico e movimento em energia elétrica.

O desempenho dependia do equilíbrio entre todas as etapas. Aumentar a geração de calor sem aumentar a remoção de calor criava desequilíbrio; alterar a vazão, a pressão ou a retirada de vapor também modificava o estado do processo.

Essa cadeia conecta o RBMK a outros empreendimentos de geração. Tecnologias diferentes continuam dependendo de sistemas auxiliares, proteção, transformação, conexão à rede, telecomunicações, supervisão e equipes capazes de operar a instalação.

Energia crítica precisa ser tratada como arquitetura, não como equipamento isolado.

Geração, serviços auxiliares, alimentação de emergência, proteção, autonomia e recuperação precisam ser dimensionados em conjunto para manter funções essenciais disponíveis.

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O que é fissão nuclear?

A fissão nuclear é a divisão de um núcleo atômico pesado em núcleos menores. Em reatores nucleares de potência, o elemento mais importante para esse processo é o urânio-235, um isótopo do urânio capaz de sustentar uma reação em cadeia.

Quando um nêutron atinge o núcleo de um átomo de urânio-235, esse núcleo pode se tornar instável e se dividir. Ao se dividir, ele libera:

  • energia em forma de calor;
  • produtos de fissão;
  • radiação;
  • novos nêutrons.

Esses novos nêutrons podem atingir outros núcleos de urânio-235, gerando novas fissões. É assim que se forma uma reação em cadeia.

O objetivo de um reator nuclear não é simplesmente iniciar essa reação. É mantê-la controlada. Se a reação diminui demais, a potência cai. Se cresce demais, o sistema precisa absorver nêutrons, reduzir reatividade ou restabelecer condições seguras de operação.

Em outras palavras: um reator nuclear é uma instalação projetada para controlar a população de nêutrons no núcleo. A potência do reator depende diretamente desse equilíbrio.

De onde vêm os primeiros nêutrons?

Uma dúvida comum é: se a fissão depende de nêutrons, de onde vêm os primeiros nêutrons que iniciam a reação?

A resposta envolve algumas fontes naturais e operacionais. Mesmo antes de um reator estar em potência, existem nêutrons surgindo em pequena quantidade por processos físicos naturais, como fissões espontâneas raras em certos núcleos pesados e reações associadas ao próprio material nuclear. Em partidas e operações controladas, também podem ser usadas fontes de nêutrons para garantir uma medição adequada e um comportamento previsível nos instrumentos do reator.

Esses nêutrons iniciais não são o que torna o reator potente. Eles apenas permitem que a reação comece a ser detectada e controlada. O que sustenta o processo é a reação em cadeia: cada fissão libera novos nêutrons, que podem causar novas fissões, aumentando ou mantendo a potência conforme o equilíbrio do núcleo.

Por isso, a pergunta central em um reator não é apenas “como a reação começa?”, mas “como ela é controlada depois que começa?”. A resposta envolve combustível, moderador, refrigerante, barras de controle, geometria do núcleo, temperatura, vazão, pressão, sistemas de proteção e operação.

Urânio natural, enriquecimento e combustível nuclear

O urânio encontrado na natureza não é composto apenas por um tipo de átomo. Ele contém principalmente urânio-238 e uma pequena fração de urânio-235. O urânio-235 é o isótopo mais importante para a fissão em reatores térmicos, porque pode sustentar uma reação em cadeia de forma mais eficiente.

O problema é que, no urânio natural, a proporção de urânio-235 é baixa. Por isso, muitos reatores utilizam urânio enriquecido em baixo teor, ou seja, urânio processado para aumentar a fração de urânio-235 até um nível adequado para uso como combustível nuclear civil.

De forma geral, o ciclo do combustível passa por etapas como:

  1. mineração do minério de urânio;
  2. beneficiamento e produção de concentrado de urânio;
  3. conversão química para uma forma adequada ao enriquecimento;
  4. enriquecimento, que aumenta a proporção de urânio-235;
  5. fabricação do combustível, normalmente em pastilhas cerâmicas de dióxido de urânio;
  6. montagem dessas pastilhas em elementos ou canais de combustível, conforme o tipo de reator.

O enriquecimento não significa tornar o urânio “mais explosivo” no sentido comum da palavra. Em usinas nucleares civis, ele significa ajustar a composição isotópica do combustível para que a reação em cadeia possa ser sustentada e controlada dentro do projeto do reator.

No caso do RBMK, o combustível era parte de uma arquitetura maior, que envolvia canais individuais, grafite, água de resfriamento, vapor, barras de controle e sistemas de operação. O combustível sozinho não explica o comportamento do reator. O comportamento surge da interação entre todos esses elementos.

O que significa RBMK-1000?

RBMK é a transliteração da expressão russa para reator de grande potência por canais. O número 1000 identifica a classe de potência elétrica da unidade.

Em vez de concentrar todo o núcleo em um único vaso de pressão, o projeto distribuía combustível e água por muitos canais verticais que atravessavam uma grande estrutura de grafite. Essa solução permitia construir unidades de elevada potência com capacidades industriais disponíveis na União Soviética.

A arquitetura também permitia reabastecimento durante a operação. Em contrapartida, criava uma instalação extensa, com grande quantidade de canais, tubulações, válvulas, sensores e interfaces operacionais.

O comportamento global resultava da combinação de milhares de condições locais. Uma potência média aparentemente estável não descrevia, sozinha, como cada região do núcleo estava se comportando.

Como o combustível era organizado?

O combustível era montado em conjuntos instalados nos canais verticais. A energia liberada aquecia o revestimento e era transferida à água que circulava ao redor.

Produzir calor não era o único desafio. O sistema precisava distribuir a potência de forma controlável, remover continuamente o calor, evitar regiões excessivamente carregadas e preservar condições adequadas para atuação dos sistemas de controle e proteção.

A distribuição por canais permitia ajustar vazões locais e acompanhar regiões diferentes. Ao mesmo tempo, cada canal introduzia conexões, instrumentos, válvulas e limites próprios. O núcleo funcionava como uma rede de elementos interdependentes, não como um único ponto térmico.

Qual era a função do grafite?

O grafite atuava como moderador. Sua função era reduzir a energia dos nêutrons e ajudar a manter as condições necessárias à reação controlada.

Grandes blocos de grafite formavam a estrutura ao redor dos canais. Uma mistura gasosa circulava entre os blocos para auxiliar a transferência de calor e limitar a oxidação.

O grafite permanecia no núcleo independentemente da quantidade de água presente nos canais. Essa separação entre moderador e refrigerante diferenciava o RBMK de projetos em que a mesma água exerce as duas funções.

Qual era a função da água?

A água removia o calor produzido no combustível e transportava essa energia até os separadores. Durante a passagem pelos canais, parte dela se transformava em vapor.

A água também influenciava o comportamento do núcleo. Mudanças na densidade e na quantidade de vapor alteravam a absorção de nêutrons. Essa interação é aprofundada no capítulo sobre coeficiente de vazio positivo.

No funcionamento normal, o processo precisava manter coerência entre potência, vazão, pressão, temperatura de entrada, quantidade de vapor e retirada de energia pelas turbinas.

Como funcionavam os canais de pressão?

O núcleo era atravessado por canais verticais com aproximadamente sete metros de região ativa. Cada canal recebia conjuntos combustíveis e permitia a passagem do refrigerante.

A água entrava pela parte inferior, absorvia calor e começava a formar vapor durante a subida. Na saída havia uma mistura de água e vapor conduzida por tubulações individuais aos separadores.

A vazão precisava ser ajustada à potência local. Canais com condições diferentes exigiam remoção de calor compatível. Por isso, potência, vazão, pressão e formação de vapor não podiam ser avaliadas isoladamente.

Como ocorria o reabastecimento durante a operação?

Uma máquina própria podia conectar-se a um canal e substituir conjuntos combustíveis sem desligar toda a unidade. O recurso aumentava disponibilidade e permitia administrar gradualmente o uso do combustível.

Essa vantagem exigia controle de configuração, identificação dos canais, histórico de combustível, registro de intervenções e documentação atualizada. Disponibilidade operacional e governança técnica eram inseparáveis.

Como a água circulava pelo RBMK?

O RBMK-1000 possuía dois circuitos principais de refrigeração, cada um atendendo aproximadamente metade do núcleo. Bombas principais movimentavam a água por coletores de distribuição e pelos canais.

Em operação normal, bombas mantinham a circulação e havia capacidade de reserva para substituir um equipamento indisponível. A água saía das bombas, passava por cabeçalhos e era distribuída aos canais individuais.

Depois de remover calor, a mistura retornava aos separadores. A água não convertida em vapor era misturada à água de alimentação proveniente dos condensadores e voltava à sucção das bombas.

Vazão, temperatura de entrada, pressão, nível dos separadores e quantidade de vapor precisavam permanecer coerentes com a potência. Em partidas e reduções de carga, a configuração das bombas e válvulas era ajustada para preservar margens térmicas e hidráulicas.

O que era o sub-resfriamento da água de entrada?

Sub-resfriamento é a margem entre a temperatura real da água e a temperatura de ebulição correspondente à pressão do sistema. Com margem adequada, a água começava a formar vapor somente depois de percorrer parte do canal.

Essa condição influenciava a estabilidade térmica, o comportamento das bombas e a distribuição de vapor. Uma água muito próxima da ebulição reduzia a margem operacional e podia tornar o processo mais sensível a alterações de vazão.

Como funcionavam os separadores de vapor?

Cada circuito possuía grandes separadores horizontais. A mistura vinda dos canais chegava a esses equipamentos, onde o vapor era separado da água.

O vapor seguia para as turbinas; a água permanecia no circuito de recirculação. Nível, pressão, vazão de alimentação e produção de vapor precisavam ser controlados em conjunto.

Uma mudança na carga da turbina alterava o consumo de vapor e repercutia no processo do reator. O circuito nuclear e o conjunto turbina-gerador não eram sistemas independentes.

O RBMK utilizava um ciclo direto: o vapor produzido nos canais alimentava as turbinas sem um gerador de vapor intermediário.

Como turbinas e geradores produziam eletricidade?

O vapor separado era distribuído para duas turbinas associadas à unidade. A expansão movimentava os rotores, acoplados a geradores elétricos.

Depois das turbinas, o vapor era resfriado nos condensadores e retornava ao estado líquido. Bombas conduziam a água de volta ao processo.

Parte da eletricidade alimentava as próprias cargas da central: bombas, ventilação, instrumentação, válvulas, iluminação, controle e sistemas auxiliares. O restante seguia para os transformadores e para a rede.

Qual é a diferença entre MWt e MWe?

MWt representa potência térmica produzida no núcleo. MWe representa potência elétrica entregue pelos geradores. O RBMK-1000 produzia cerca de 3.200 MWt para gerar aproximadamente 1.000 MWe.

A diferença corresponde às limitações termodinâmicas e às perdas do ciclo. Uma parte do calor precisava ser rejeitada no sistema de resfriamento.

Processo, energia e automação precisam compartilhar a mesma visão operacional.

Sistemas SCADA transformam medições distribuídas em telas, tendências, alarmes e eventos que permitem acompanhar o estado da instalação e suas margens.

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Como a potência do RBMK era controlada?

O controle combinava barras absorvedoras, reguladores automáticos, instrumentos distribuídos e acompanhamento dos operadores. O objetivo era manter a produção de calor compatível com a circulação de água, a formação de vapor e a carga das turbinas.

Como o núcleo era muito grande, não bastava observar um único valor total. A distribuição espacial também precisava permanecer dentro das condições analisadas.

O que era a margem operacional de reatividade?

A margem operacional de reatividade, ou ORM, era um indicador relacionado à configuração das barras e à capacidade de controle do núcleo. Sua importância era maior do que a apresentação disponível na sala de controle sugeria.

O tema é aprofundado em ORM no RBMK: por que a baixa margem era perigosa.

Por que as barras tinham deslocadores de grafite?

Os deslocadores faziam parte da concepção das barras e influenciavam o comportamento do sistema em determinadas configurações. O artigo por que as hastes de controle do RBMK tinham grafite apresenta essa característica em profundidade.

O que a instrumentação e a sala de controle precisavam mostrar?

A sala de controle reunia informações de potência, posição das barras, pressão, temperatura, vazão, níveis, estado das bombas, condição das turbinas, alimentação elétrica e sistemas de proteção.

Uma potência total aparentemente estável não garantia que todas as regiões do núcleo estivessem se comportando da mesma maneira. Em baixa potência, algumas limitações de medição e apresentação tornavam a interpretação ainda mais difícil.

O computador de processo auxiliava cálculos e registros, mas nem todas as grandezas importantes eram apresentadas com atualização, prioridade e clareza suficientes. Ter muitos sinais não significa possuir consciência situacional.

Alarmes e eventos precisam ser compreendidos no contexto do processo.

Sistemas digitais de supervisão, sincronismo de tempo e sequência de eventos ajudam a organizar tendências, ocorrências e estados operacionais em uma visão coerente.

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Como era a operação normal do RBMK?

Em regime estável, geração de calor, circulação de água, formação de vapor, consumo das turbinas e alimentação de água permaneciam equilibrados. Os reguladores ajustavam o processo e os operadores acompanhavam margens, tendências e distribuição espacial.

As bombas mantinham a circulação; os separadores estabilizavam a entrega de vapor; os condensadores devolviam água ao ciclo; e os sistemas elétricos alimentavam as cargas necessárias à própria geração.

A unidade também dependia de manutenção, calibração, química da água, proteção radiológica, controle de configuração, testes periódicos e comunicação entre turnos. A operação normal era resultado de uma organização, não apenas de equipamentos funcionando.

Partida, redução de potência e desligamento

Nas transições, as mudanças eram acompanhadas por etapas e por diferentes faixas de instrumentação. Mesmo depois do desligamento, o calor residual mantinha a necessidade de circulação, alimentação elétrica e monitoramento.

Mudanças de potência também alteravam o estado do combustível, a distribuição do fluxo e a presença de xenônio. Por isso, uma transição não podia ser tratada apenas como redução da carga elétrica.

Os artigos sobre a queda de potência do Reator 4 e o envenenamento por xenônio aprofundam a condição específica da noite do acidente.

Condições normais e degradadas precisam ser comprovadas por testes.

Comissionamento verifica interfaces, alarmes, fontes de energia, comunicações, respostas previstas, recuperação e critérios de aceite antes da operação definitiva.

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Quais sistemas auxiliares mantinham a unidade operável?

Bombas, instrumentação, válvulas, iluminação, ventilação, comunicação e proteção dependiam de energia elétrica. A unidade utilizava alimentação da própria geração, conexão com a rede e fontes de emergência para cargas essenciais.

Também eram necessários sistemas de água, ar, proteção contra incêndio, comunicação, detecção, controle de acesso, oficinas, armazenamento e suporte à operação. Em instalações críticas, a disponibilidade do processo principal é limitada pelo conjunto de sistemas auxiliares que o sustenta.

A integração dessas disciplinas exigia documentação, identificação de interfaces, sincronismo de informações e canais de comunicação adequados para operação, manutenção e resposta a ocorrências.

Supervisão confiável depende de comunicação confiável.

Redes, sincronismo, telemetria, voz e imagem operacional precisam ser projetados com critérios de disponibilidade, segurança, documentação e recuperação.

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Como proteção e confinamento deveriam limitar desvios?

O primeiro nível de resposta era o controle automático, que buscava recuperar o equilíbrio do processo. Alarmes, ações operacionais e proteções formavam camadas adicionais.

Uma proteção eficaz precisa atuar antes que o processo ultrapasse a capacidade física dos sistemas. Também deve permanecer disponível, ser verificável e possuir critérios claros para indisponibilidades temporárias.

O RBMK possuía espaços de confinamento local e estruturas de blindagem, mas não uma contenção integral equivalente à adotada em muitos outros reatores de potência. Essa diferença influenciava a capacidade de limitar consequências em cenários extremos.

Quais eram as vantagens e limitações do funcionamento do RBMK?

O RBMK reunia características que atendiam aos objetivos industriais soviéticos, mas que também aumentavam a complexidade do sistema.

Vantagens operacionais e industriais

  • elevada potência por unidade;
  • construção baseada em canais individuais;
  • reabastecimento durante a operação;
  • uso de componentes compatíveis com a capacidade industrial disponível;
  • possibilidade de acompanhar e ajustar regiões diferentes do núcleo;
  • expansão por unidades de grande porte conectadas ao sistema elétrico.

Limitações e dependências

  • grande quantidade de canais, tubulações, válvulas e instrumentos;
  • forte interação entre água, vapor e comportamento do núcleo;
  • distribuição espacial complexa;
  • necessidade de controle rigoroso da configuração;
  • dependência de sistemas auxiliares e de informação confiável;
  • confinamento localizado em vez de uma contenção integral;
  • características importantes que não eram apresentadas aos operadores com clareza suficiente.

Essas limitações não significam que o reator permanecia continuamente instável. Dentro das condições previstas, unidades RBMK operaram por longos períodos. O risco aumentava quando características físicas pouco tolerantes se combinavam com estados mal compreendidos, informações insuficientes e barreiras inadequadas.

Como o RBMK se diferenciava de outros reatores?

Em reatores de água pressurizada, o circuito do reator transfere calor para um circuito secundário, que produz o vapor utilizado pela turbina. Em reatores de água fervente, o vapor é produzido no próprio vaso e segue diretamente para a turbina.

O RBMK também utilizava ciclo direto, mas distribuía o processo por canais de pressão atravessando uma estrutura de grafite. Essa combinação de grafite como moderador, água como refrigerante e canais individuais era sua característica mais marcante.

A diferença não era apenas geométrica. Ela alterava a forma de construir, abastecer, instrumentar, controlar, manter e proteger a unidade. O artigo Arquitetura do RBMK: componentes, circuitos e sistemas do Reator 4 fará essa decomposição física em maior profundidade.

O que o RBMK ensina para a engenharia de sistemas críticos?

O sistema precisa ser explicável

Operadores precisam compreender não apenas o procedimento, mas a razão dos limites. Uma grandeza importante não deve permanecer escondida em cálculo demorado, tela periférica ou documentação pouco acessível.

As interfaces fazem parte do projeto

Núcleo, circulação, turbina, gerador, rede elétrica, alimentação auxiliar, automação e telecomunicações formavam uma única arquitetura funcional. Uma alteração em uma disciplina podia modificar premissas de várias outras.

Proteções precisam considerar erros previsíveis

O desempenho seguro não pode depender de interpretação perfeita em todas as situações. Limites relevantes devem ser claros, monitorados e incorporados às barreiras técnicas sempre que possível.

Informação precisa se transformar em consciência situacional

Muitos sensores não resolvem o problema quando alarmes, tendências e estados não são organizados de forma coerente. Supervisão, registro temporal e contexto são partes da engenharia, não apenas da interface gráfica.

Revisão independente precisa acompanhar o ciclo de vida

Escolhas de projeto, alterações, experiências operacionais e sinais de fragilidade precisam ser avaliados por instâncias capazes de questionar premissas e exigir correções. A Engenharia do Proprietário e a Auditoria Técnica representam essa camada independente em empreendimentos atuais.

Operação segura depende de documentação viva

Diagramas, matrizes de causa e efeito, listas de sinais, procedimentos, registros de intervenção e documentos conforme construído precisam refletir a instalação real. Quando projeto e operação deixam de compartilhar a mesma fonte de informação, a organização perde capacidade de avaliar o estado do ativo.

Como continuar a jornada sobre Chernobyl

O capítulo anterior apresenta Chernobyl antes de 1986: usina, Pripyat e projeto soviético.

O próximo passo da sequência é entender por que a potência do Reator 4 caiu de aproximadamente 500 para 30 MWt. Antes disso, o leitor que deseja decompor fisicamente a instalação pode acessar a arquitetura e os componentes do RBMK.

O mapa completo da série está no HUB Chernobyl: o que aconteceu e por que o Reator 4 explodiu.

Referências técnicas

[1] INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY. The Chernobyl Accident: Updating of INSAG-1 — INSAG-7. Vienna, 1992.

[2] U.S. NUCLEAR REGULATORY COMMISSION. Report on the Accident at the Chernobyl Nuclear Power Station — NUREG-1250. Washington, 1987.

[3] MUELLNER, Nikolaus. Three Decades after Chernobyl: Technical or Human Causes? 2019.

[4] WORLD NUCLEAR ASSOCIATION. RBMK Reactors — Appendix to Nuclear Power Reactors. Atualizado em 2026.

[5] INTERNATIONAL NUCLEAR SAFETY ADVISORY GROUP. Safety Culture — INSAG-4. Vienna, 1991.

[6] SHTEYNBERG, N. Report by a Commission to the USSR State Committee. Anexo I do INSAG-7. 1991.

[7] ABAGYAN, A. et al. Causes and Circumstances of the Accident at Unit 4 and Measures to Improve RBMK Safety. Anexo II do INSAG-7. 1991.

Perguntas frequentes
O que significa RBMK?

RBMK é a sigla russa para reator de grande potência com canais. Era um reator moderado por grafite e refrigerado por água leve em ebulição.

Como o RBMK gerava eletricidade?

A fissão aquecia a água nos canais de combustível. Parte da água virava vapor, seguia para separadores e alimentava turbinas acopladas a geradores elétricos.

Qual era a função do grafite no RBMK?

O grafite atuava como moderador, desacelerando nêutrons e aumentando a probabilidade de novas fissões no combustível.

Qual era a função da água no reator?

A água removia calor dos canais, produzia o vapor utilizado pelas turbinas e também absorvia parte dos nêutrons.

Por que o RBMK usava canais individuais de combustível?

Os canais permitiam circular refrigerante por conjuntos individuais e reabastecer combustível durante a operação, sem desligar toda a unidade.

Como a potência era controlada?

A potência era controlada por hastes absorvedoras, sistemas automáticos, instrumentação e ajustes de vazão, sempre dependentes do estado neutrônico e térmico-hidráulico do núcleo.

Por que as bombas de circulação eram críticas?

Elas mantinham a vazão pelos canais, removiam calor e influenciavam pressão, temperatura e formação de vapor, conectando o sistema elétrico à estabilidade do núcleo.

Por que o funcionamento do RBMK é importante para entender Chernobyl?

Porque a separação entre grafite moderador e água refrigerante, o grande núcleo de canais e os sistemas de controle determinavam como vapor, hastes e margens operacionais interagiam.

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