Entenda o que é não conformidade em Engenharia, como classificar, conter, definir disposição, corrigir, analisar causa raiz, implementar ação corretiva e fechar com evidência.
Confira!
Não conformidade é o não atendimento a um requisito. Em Engenharia, esse requisito pode estar em norma, projeto, especificação técnica, contrato, procedimento, datasheet aprovado, critério de teste, legislação ou outra referência válida do empreendimento. A não conformidade não é, portanto, uma percepção genérica de que “algo está errado”: ela precisa ser relacionada a uma exigência identificável e sustentada por evidência objetiva.
Gerenciar não conformidades de forma madura significa detectar o desvio, controlar seu efeito, avaliar impacto, definir uma disposição tecnicamente autorizada, executar correções, analisar causas quando necessário e verificar se o problema foi efetivamente resolvido. O objetivo não é produzir relatórios em quantidade, mas impedir que desvios avancem, reapareçam ou sejam incorporados silenciosamente ao ativo final.
O que é uma não conformidade
A ISO 9000 organiza a linguagem de gestão da qualidade e estabelece a relação entre requisitos, conformidade e não conformidade. Na aplicação prática em Engenharia, existe não conformidade quando uma condição observada não atende ao que foi requerido.
A lógica é simples:
requisito definido + evidência objetiva + desvio comprovado = não conformidade.
Essa estrutura é importante porque protege todas as partes contra registros vagos. “Instalação ruim” não é uma descrição adequada. “Condutor instalado com seção diferente da especificada no desenho executivo aprovado Rev. 03” é uma constatação tecnicamente verificável.
O que pode ser um requisito
Requisitos não vêm de uma única fonte. Em um empreendimento, podem surgir de:
- normas técnicas;
- legislação e regulamentos;
- desenhos e memoriais aprovados;
- especificações técnicas;
- contratos e anexos;
- requisitos do Owner;
- datasheets aprovados;
- planos de inspeção e testes;
- procedimentos de execução;
- critérios de FAT e SAT;
- condições de licenciamento;
- manuais de fabricante quando incorporados ao escopo;
- decisões formais registradas em RFI, change request ou aprovação técnica.
Quanto mais fraca a gestão de requisitos, mais difícil será distinguir uma verdadeira não conformidade de uma divergência interpretativa.
Não conformidade, pendência, defeito e observação não são a mesma coisa
Uma RNC sem requisito identificado vira discussão de opinião. Em auditorias de obras com backlog elevado, o primeiro passo é separar pendência, desvio, mudança e não conformidade para recuperar a governança do aceite.
Um dos maiores problemas na gestão da qualidade é colocar ocorrências diferentes na mesma lista. Isso destrói a capacidade de priorização.
| Registro | Característica principal | Exemplo |
| Não conformidade | requisito não atendido | equipamento diferente do especificado |
| Pendência | trabalho ou entrega ainda não concluída | etiqueta ainda não instalada |
| Defeito | condição inadequada do produto ou serviço | componente danificado ou montagem defeituosa |
| Observação | condição que merece atenção, sem comprovação imediata de NC | padrão de execução inconsistente a investigar |
| RFI | necessidade de informação ou esclarecimento | dúvida sobre detalhe de projeto |
| Punch item | item remanescente identificado em inspeção de conclusão | ajuste, correção ou complemento antes do aceite |
| Mudança | alteração formal do baseline | substituição aprovada de solução técnica |
Uma pendência pode evoluir para não conformidade se o prazo, marco ou requisito de entrega for descumprido. Uma RFI não deve ser usada para encobrir uma execução divergente já realizada. Uma mudança aprovada não deve permanecer registrada como NC se a alteração passou a integrar formalmente o baseline.
Desvio, concessão e uso como está
Em projetos e contratos, a terminologia pode variar. Expressões como deviation, concession, waiver ou “aceite como está” precisam ser definidas no procedimento do empreendimento.
O princípio é que uma condição não conforme não pode se tornar conforme apenas porque alguém deseja manter a execução. É necessário avaliar tecnicamente o impacto e, quando o contrato permitir, formalizar uma disposição autorizada.
Possíveis disposições incluem:
- retrabalhar para atender ao requisito original;
- reparar;
- substituir;
- reclassificar, quando tecnicamente aplicável;
- aceitar sob concessão formal;
- rejeitar e remover;
- utilizar para finalidade diferente, quando autorizado.
Aceitar uma condição sob concessão não significa que ela nunca foi uma não conformidade. Significa que a parte com autoridade avaliou o desvio e aceitou sua permanência sob condições definidas.
Como identificar uma não conformidade corretamente
A qualidade do registro determina a qualidade da decisão posterior. Uma boa identificação deve responder:
- qual requisito foi violado;
- qual condição foi encontrada;
- onde e quando foi encontrada;
- qual é a evidência;
- quais itens ou sistemas podem estar afetados;
- se existe risco imediato;
- se o processo precisa ser interrompido.
Evidência objetiva
Evidência pode incluir fotografia, medição, registro de teste, documento, versão de software, etiqueta de equipamento, número de série, relatório de inspeção ou outra informação rastreável.
A fotografia sozinha nem sempre é suficiente. Ela precisa ser relacionada ao item, local, data e requisito. Em sistemas digitais, screenshots e logs também precisam preservar contexto e versão.
Contenção: controlar o efeito antes de discutir a causa
Quando uma NC possui potencial de propagação, a primeira necessidade pode ser conter o problema. Contenção não é correção definitiva; é uma ação imediata para evitar ampliação do impacto.
Exemplos:
- bloquear lote suspeito;
- interromper montagem repetitiva;
- segregar materiais;
- impedir energização;
- suspender liberação para próxima fase;
- identificar equipamentos afetados;
- congelar uma revisão documental incorreta;
- desabilitar temporariamente configuração de software problemática.
A contenção é especialmente importante quando o mesmo processo pode estar reproduzindo o desvio em diversos pontos.
Classificação por criticidade
Nem toda NC tem o mesmo impacto. Um sistema maduro define critérios de criticidade coerentes com o empreendimento.
| Classe ilustrativa | Característica | Resposta típica |
| Baixa | sem impacto relevante em segurança ou desempenho | correção local e verificação |
| Média | impacto funcional ou documental controlável | análise técnica e plano de correção |
| Alta | afeta requisito crítico, interface ou confiabilidade | contenção, análise formal e aprovação |
| Crítica | risco de segurança, missão crítica ou inviabilidade de aceite | paralisação/liberação bloqueada e escalonamento |
A classificação deve considerar consequência, extensão, detectabilidade, reversibilidade, impacto em interfaces e possibilidade de a falha estar repetida em outros locais.
Não conformidade sistêmica x pontual
Uma NC pontual pode resultar de uma falha isolada. Uma NC sistêmica revela problema no processo que pode produzir recorrências.
Exemplo pontual: um único cabo identificado incorretamente por erro manual isolado.
Exemplo sistêmico: centenas de cabos identificados com convenção errada porque a equipe utilizou um padrão de nomenclatura desatualizado.
A diferença é decisiva. Corrigir apenas o item visível no segundo caso mantém a causa ativa.
Correção, ação corretiva e ação preventiva
Correção trata a não conformidade detectada. Ação corretiva busca eliminar a causa para impedir recorrência. A lógica preventiva, na estrutura atual dos sistemas de gestão, aparece fortemente associada à abordagem de riscos e oportunidades e à prevenção incorporada ao planejamento.
| Ação | Pergunta | Exemplo |
| Contenção | como impedir que o problema se espalhe agora? | bloquear instalação do lote |
| Correção | como restaurar a conformidade deste item? | substituir componente incorreto |
| Análise de causa | por que isso ocorreu? | identificar falha na especificação ou conferência |
| Ação corretiva | como impedir recorrência da causa? | alterar processo de aprovação e inspeção |
| Verificação de eficácia | a ação realmente funcionou? | acompanhar entregas posteriores sem repetição |
Confundir correção com ação corretiva é uma das causas mais comuns de reincidência.
Quando fazer análise de causa raiz
Nem toda NC exige uma investigação extensa. O esforço deve ser proporcional ao risco e à recorrência.
Análise mais profunda tende a ser necessária quando:
- o desvio é crítico;
- existe reincidência;
- a causa não é evidente;
- múltiplos itens podem estar afetados;
- a falha atravessa interfaces;
- houve impacto de segurança;
- houve rejeição do cliente;
- o custo de recorrência é alto;
- a organização precisa demonstrar ação corretiva formal.
Métodos de análise de causa
5 Porquês
Útil para problemas relativamente lineares. O risco é parar cedo demais em respostas como “erro do operador”. A análise precisa chegar a uma causa sobre a qual seja possível atuar.
Ishikawa
Ajuda a organizar causas potenciais em categorias como método, mão de obra, material, máquina, medição e meio ambiente. Em Engenharia, pode ser adaptado para projeto, informação, interface, gestão, ferramentas e fornecedor.
Árvore de falhas e análise causal
Para eventos complexos, uma abordagem lógica de combinação de causas pode ser mais adequada. Sistemas críticos frequentemente falham por interação entre fatores, não por uma única causa.
FMEA como prevenção de recorrência
Uma NC relevante pode alimentar FMEA/FMECA e melhorar controles futuros. A experiência de campo passa a influenciar projeto, critérios de inspeção e testes.
Erros comuns na análise de causa
Culpar a pessoa
“Falha do instalador” raramente é uma causa completa. É preciso perguntar por que o erro não foi prevenido ou detectado: treinamento, documentação, supervisão, interface, procedimento, ferramenta, requisito ou planejamento.
Confundir efeito com causa
“Equipamento parou” é efeito. “Configuração incorreta” pode ser causa intermediária. A investigação deve entender por que a configuração incorreta chegou à operação.
Escolher causa para fechar rápido
Uma causa conveniente, mas não sustentada por evidência, produz ações ineficazes.
Disposição técnica da não conformidade
A disposição é a decisão sobre o que fazer com o item não conforme. Ela precisa de autoridade definida.
Quem executou a obra pode propor uma solução, mas nem sempre possui autoridade para aceitar a alteração em nome do contratante. Em Owner’s Engineering, essa separação é particularmente importante.
Uma disposição deve considerar:
- requisito original;
- impacto técnico;
- segurança;
- desempenho;
- vida útil;
- garantia;
- manutenção;
- interfaces;
- normas;
- documentação;
- custo e prazo;
- autoridade contratual.
Retrabalho x reparo
Retrabalho busca levar o item novamente à condição especificada. Reparo pode restaurar função ou condição aceitável sem necessariamente reproduzir integralmente a configuração original. A terminologia e a autorização devem seguir o sistema de qualidade e o contrato.
Em itens críticos, reparos podem exigir engenharia específica, procedimento aprovado, inspeção adicional e novos testes.
Não conformidade em projeto
NC não ocorre apenas no campo. Um documento de engenharia também pode ser não conforme.
Exemplos:
- cálculo incompatível com requisito normativo;
- desenho sem interface necessária;
- especificação divergente do contrato;
- lista de materiais inconsistente com projeto;
- documentação emitida em revisão incorreta;
- parâmetro de projeto fora do critério aprovado.
Detectar NC em projeto antes da compra ou obra costuma evitar custos muito maiores.
Não conformidade em procurement
Compras podem introduzir desvios quando propostas comerciais substituem silenciosamente requisitos técnicos.
Exemplos:
- modelo ofertado diferente do aprovado;
- certificado faltante;
- componente com classe inferior;
- item entregue sem acessório obrigatório;
- fabricante alternativo sem aprovação;
- lote sem rastreabilidade.
A gestão deve conectar pedido de compra, especificação, submittal, inspeção de recebimento e documentação.
Não conformidade em fabricação
Na fabricação, NCs podem envolver material, dimensões, processo, soldagem, acabamento, testes, configuração ou documentação.
Quando o item é crítico, o Owner pode exigir notificação antes de o fabricante executar reparo ou desvio. Isso evita que uma condição relevante seja alterada sem possibilidade de avaliação independente.
Não conformidade em obras e montagem
Em campo, é comum encontrar desvios de:
- posição;
- material;
- dimensão;
- identificação;
- acabamento;
- torque;
- roteamento;
- aterramento;
- interfaces;
- proteção mecânica;
- execução fora de revisão válida;
- documentação incompleta.
O desafio é evitar que a equipe normalize pequenas divergências até formar um passivo de qualidade.
Não conformidade em sistemas digitais e automação
NCs também podem ocorrer em configuração lógica:
- firmware não aprovado;
- regra de firewall divergente;
- endereço IP fora do plano;
- parâmetro de proteção incorreto;
- lógica PLC diferente da baseline;
- licença inadequada;
- integração não testada;
- perfil de usuário com privilégio indevido.
Esses desvios exigem evidências digitais e controle de configuração, não apenas fotografias.
Não conformidade em testes e comissionamento
Um teste reprovado é uma evidência importante, mas o registro precisa identificar o requisito e a condição de teste. Repetir o teste após um ajuste sem documentar a falha inicial pode apagar informação valiosa sobre o comportamento do sistema.
Quando existe reprovação, deve-se avaliar se outros testes ou sistemas foram afetados e se a correção exige regressão ou reteste ampliado.
Relação entre NC e punch list
Punch list é uma ferramenta de conclusão. Pode conter pendências, ajustes e não conformidades. O problema surge quando NCs críticas são rebaixadas a punch items genéricos apenas para permitir avanço de marco.
A governança deve estabelecer o que pode permanecer aberto em cada gate. Alguns itens podem ser aceitos como pendência pós-entrega; outros bloqueiam energização, operação ou aceite.
RFI não substitui RNC
Uma RFI serve para pedir esclarecimento. Se a execução já divergiu do requisito, abrir uma RFI depois do fato não elimina a NC.
O caminho correto pode envolver RNC, avaliação de engenharia e, se necessário, processo de mudança ou concessão.
Mudança aprovada x não conformidade
Quando existe uma mudança formalmente aprovada antes da execução, o novo requisito passa a integrar o baseline. Executar conforme a mudança aprovada não é NC.
O risco está na alteração informal: “foi combinado em campo” sem registro, análise de impacto ou aprovação da autoridade correta.
Como definir prazo para tratamento
Prazos devem refletir risco e marco do empreendimento. Uma NC crítica pode exigir ação imediata; uma NC documental pode ter prazo associado ao handover.
É útil controlar:
- data de abertura;
- prazo de contenção;
- prazo de proposta de disposição;
- prazo de execução;
- prazo de verificação;
- idade total;
- impacto em marcos.
A idade média de RNCs pode ser um indicador relevante, mas precisa ser segmentada por criticidade.
Backlog de não conformidades
Quando RNCs, RFIs e punch items ficam em planilhas desconectadas, o Owner perde visão de dependências, prazos e evidências. Um fluxo único permite relacionar ocorrência, responsável, documento e decisão técnica.
Veja a solução de Gestão de Pendências, RFIs e Não Conformidades
Um backlog crescente pode sinalizar falta de capacidade de correção, baixa qualidade do fornecedor, gargalo de aprovação ou processo de fechamento excessivamente burocrático.
A análise deve observar estoque e fluxo:
- RNCs abertas no período;
- RNCs fechadas;
- saldo acumulado;
- tempo de ciclo;
- reincidência;
- distribuição por disciplina;
- distribuição por fornecedor;
- criticidade;
- causas predominantes.
Indicadores úteis
| Indicador | Uso |
| taxa de reincidência | verificar eficácia de ações corretivas |
| tempo médio de fechamento | medir capacidade de resolução |
| RNCs por fornecedor | identificar concentração de problemas |
| RNCs por fase | localizar onde o sistema falha |
| custo de retrabalho | quantificar impacto econômico |
| percentual crítico | acompanhar risco do backlog |
| RNCs reabertas | identificar fechamentos frágeis |
| idade máxima | identificar passivos esquecidos |
Quantidade absoluta de RNCs isoladamente não mede qualidade. Um projeto que registra problemas de forma transparente pode apresentar mais RNCs que outro que simplesmente não documenta desvios.
Verificação da correção
Fechar uma NC exige evidência de que a disposição foi executada e de que o requisito aplicável foi atendido ou formalmente substituído por decisão autorizada.
A verificação pode incluir:
- reinspeção;
- novo teste;
- revisão documental;
- evidência fotográfica;
- análise de engenharia;
- confirmação de rastreabilidade;
- validação de configuração.
A mesma pessoa que executou a correção não deveria, em situações críticas, ser a única responsável por verificar o resultado.
Verificação de eficácia da ação corretiva
Ação corretiva precisa ser acompanhada depois de implementada. Se a causa era falha no processo de aprovação, por exemplo, a eficácia pode ser verificada observando se novas entregas passam pelo fluxo correto e se a recorrência desaparece.
Fechar ação corretiva imediatamente após emitir um novo procedimento não prova eficácia.
Reabertura de não conformidade
RNC fechada pode precisar ser reaberta quando:
- a correção não resolveu o problema;
- o desvio reapareceu;
- nova evidência altera a avaliação;
- o item foi fechado sem documentação suficiente;
- a concessão não foi cumprida;
- testes posteriores mostram impacto adicional.
Um sistema que proíbe reabertura para preservar indicadores favorece ocultação de problemas.
Não conformidades e auditorias
Auditorias podem identificar NCs de sistema, processo ou cumprimento de requisitos. A ISO 19011:2026 fornece diretrizes para auditorias de sistemas de gestão, incluindo planejamento, condução e competência.
Auditoria, porém, não substitui inspeção de obra. A primeira avalia o sistema e evidências de processo; a segunda verifica condições específicas de execução e produto.
Como evitar a cultura de esconder não conformidades
Um sistema de qualidade falha quando abrir RNC é tratado como punição pessoal. Isso incentiva correções informais, perda de rastreabilidade e surpresa no final do projeto.
A gestão deve diferenciar responsabilidade técnica de culpabilização. O propósito do registro é proteger o empreendimento e gerar aprendizado.
Ao mesmo tempo, transparência não significa ausência de accountability. Reincidências, negligência e descumprimentos precisam ser tratados conforme contrato e governança.
Quem pode abrir e quem pode fechar uma NC
O procedimento deve definir papéis. Em alguns projetos, fiscalização, QA/QC, engenharia, comissionamento e Owner podem abrir registros. A contratada responde e propõe disposição. A autoridade de fechamento pode variar conforme disciplina e criticidade.
O ponto crítico é evitar conflito de interesse e fechamento unilateral por quem é responsável pela execução.
Matriz RACI para o processo de NC
| Etapa | Contratada | QA/QC | Engenharia | Owner/Fiscalização |
| detectar e registrar | R | R | C | A/C |
| conter | R | C | C | I/A conforme risco |
| propor disposição | R | C | C | I |
| aprovar desvio | C | C | R/C | A |
| executar correção | R | C | I | I |
| verificar | C | R | C | A/C |
| fechar | I | R/C | C | A conforme regra |
A matriz é ilustrativa; cada contrato precisa definir sua própria governança.
Como estruturar um bom processo de não conformidade
Um processo robusto deve conter:
- critérios claros do que é NC;
- classificação de criticidade;
- formulário ou sistema padronizado;
- vínculo com requisito e evidência;
- controle de contenção;
- workflow de disposição e aprovação;
- prazos;
- análise de causa quando aplicável;
- ações corretivas;
- verificação e eficácia;
- indicadores;
- integração com documentos e handover.
O que não fazer
- abrir NC sem citar requisito;
- registrar opinião sem evidência;
- corrigir antes de documentar quando a rastreabilidade é necessária;
- usar RFI para mascarar desvio executado;
- aceitar “como está” sem autoridade;
- fechar com fotografia sem demonstrar atendimento ao critério;
- exigir causa raiz para todo item trivial;
- não analisar causa em reincidências críticas;
- deixar RNC aberta sem impacto em gates;
- apagar histórico após correção.
Como a Owner’s Engineering usa as não conformidades
Para o Owner, a base de NCs é uma fonte de inteligência do empreendimento. Ela mostra onde fornecedores estão falhando, quais disciplinas concentram risco, quais requisitos são mal compreendidos e onde os controles precisam ser reforçados.
A análise pode orientar inspeção adicional, auditoria, alteração de ITP, revisão de especificação, retenção contratual, priorização de comissionamento e negociação de aceite.
Quando contratar auditoria ou apoio técnico
Apoio especializado pode ser necessário quando o backlog cresce sem resolução, quando existe disputa técnica sobre requisitos, quando há reincidência, quando o empreendimento se aproxima do aceite com documentação fraca ou quando o Owner precisa de avaliação independente.
Uma auditoria técnica pode separar sintomas de causas e construir um plano de recuperação. A fiscalização técnica pode acompanhar execução, correções e evidências. A gestão de pendências e NCs organiza o fluxo até o fechamento.
Considerações finais
Não conformidade é uma ferramenta de governança técnica. O registro só gera valor quando liga requisito, evidência, impacto, decisão, correção e fechamento de forma rastreável.
Em Engenharia, tratar NCs cedo reduz retrabalho, evita que desvios sejam incorporados a etapas posteriores e melhora a qualidade do handover. O objetivo final não é chegar a “zero RNCs abertas” por pressão administrativa, mas assegurar que os requisitos do empreendimento estejam atendidos ou que qualquer desvio remanescente tenha sido conscientemente avaliado e autorizado.
Na fiscalização, corrigir o defeito não encerra automaticamente a questão: é preciso verificar a correção e preservar evidência para medição, aceite e handover.
Referências técnicas
[1] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR ISO 9001:2015 — Sistemas de gestão da qualidade — Requisitos. Rio de Janeiro: ABNT, 2015.
[2] INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 9000:2026 — Quality management — Fundamentals and vocabulary. Genebra: ISO, 2026. Disponível em: https://www.iso.org/standard/9000
[3] INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 9001:2015 — Quality management systems — Requirements. Genebra: ISO, 2015. Disponível em: https://www.iso.org/standard/62085.html
[4] INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 19011:2026 — Guidelines for auditing management systems. Genebra: ISO, 2026. Disponível em: https://www.iso.org/standard/19011
[5] INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 10005:2018 — Quality management — Guidelines for quality plans. Genebra: ISO, 2018. Disponível em: https://www.iso.org/standard/70398.html
[6] PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. A Guide to the Project Management Body of Knowledge — PMBOK Guide. 8. ed. Newtown Square: PMI, 2025.
Perguntas frequentes
É o não atendimento a um requisito aplicável. Em Engenharia, o requisito pode vir de norma, contrato, projeto, especificação, procedimento, datasheet aprovado ou critério de teste.
Não conformidade pressupõe um requisito não atendido. Pendência indica algo ainda não concluído ou entregue. Uma pendência pode se tornar uma NC se houver descumprimento de requisito ou marco aplicável.
Não. Correção resolve a condição não conforme identificada. Ação corretiva atua sobre a causa para reduzir ou eliminar a possibilidade de recorrência.
Não. O esforço deve ser proporcional à criticidade, recorrência e risco. NCs críticas, sistêmicas ou reincidentes normalmente justificam análise mais aprofundada.
Pode existir disposição por concessão quando o contrato e a autoridade técnica permitirem, após avaliação de impacto. O registro continua demonstrando que houve desvio em relação ao requisito original.
O procedimento do empreendimento deve definir a autoridade. Em situações críticas, é recomendável que o fechamento não seja unilateral pela mesma parte responsável pela execução da correção.
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Conteúdos principais sobre o tema
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- Controle de Qualidade (QC): o que é, como funciona e aplicação na Engenharia
- Garantia da Qualidade (QA): o que é, como funciona e aplicação na Engenharia
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