Entenda o que é peak shaving, como BESS reduz picos de demanda, como dimensionar potência e energia, quais dados analisar e quando a estratégia pode gerar economia ou liberar capacidade.
Confira!
Peak shaving é a estratégia de reduzir os maiores picos de demanda elétrica de uma instalação por meio de controle de carga, armazenamento de energia ou combinação de ambos. Quando aplicado com BESS, a bateria descarrega durante os intervalos em que a demanda do site ultrapassaria um limite definido, reduzindo a potência vista no ponto de medição. Em outros períodos, o sistema recarrega a bateria de forma planejada para recuperar o estado de carga sem criar um novo pico.
A estratégia pode ser usada para reduzir demanda medida, evitar ultrapassagem da demanda contratada, limitar a potência exigida de transformadores e alimentadores, liberar capacidade para novas cargas ou combinar objetivos energéticos com geração fotovoltaica. Porém, o resultado depende da forma do pico, não apenas do valor máximo. Um pico de 1 MW durante cinco minutos exige uma solução diferente de um excesso de 1 MW mantido por três horas.
Por isso, peak shaving é um problema de potência + energia + tempo + controle. O BESS precisa ter potência suficiente para cortar a diferença entre a carga e o limite desejado, energia utilizável suficiente para sustentar esse corte durante a janela crítica, SOC disponível no momento correto e uma lógica de controle capaz de antecipar ou reagir ao pico. Dimensionar apenas por kW ou apenas por kWh tende a produzir sistemas inadequados.
Peak shaving, demand management e load shifting não são a mesma coisa
Os termos aparecem juntos, mas representam estratégias diferentes. Peak shaving atua sobre os maiores picos de potência. Demand management é um conceito mais amplo, que inclui controle de cargas, contratos, resposta da demanda e outras ações para gerenciar potência. Load shifting desloca energia de um período para outro, normalmente carregando o BESS em horários de menor custo ou maior disponibilidade e descarregando em horários de maior custo ou demanda.
Um sistema pode executar peak shaving sem deslocar grande quantidade de energia. Se o pico é curto, poucos minutos de descarga podem ser suficientes. Em outro caso, o peak shaving pode exigir horas de descarga e se aproximar de uma estratégia de load shifting.
A diferença é relevante porque o dimensionamento muda. Para cortar um pico curto, potência do PCS pode ser o requisito dominante. Para deslocar uma janela de consumo longa, capacidade energética utilizável passa a dominar.
O HUB de Transição Energética posiciona o BESS dentro da transformação da infraestrutura elétrica. O artigo de Electrical Readiness trata da capacidade da instalação para receber novos recursos. Neste artigo, o foco é específico: como usar armazenamento e controle para reduzir picos de demanda de forma tecnicamente verificável.
Por que picos de demanda importam em consumidores do Grupo A
No Brasil, unidades consumidoras do Grupo A são faturadas por energia e demanda de potência segundo regras e modalidades tarifárias definidas pela ANEEL. A Resolução Normativa nº 1.000/2021 estabelece que, para os demais usuários do Grupo A, a demanda faturada considera o maior valor entre a demanda medida no ciclo e a demanda contratada, observadas as regras aplicáveis.
A mesma resolução prevê cobrança por ultrapassagem quando a demanda medida de consumo excede em mais de 5% a demanda contratada. Isso significa que picos não controlados podem ter impacto econômico mesmo que ocorram durante intervalos relativamente curtos, desde que afetem a demanda medida utilizada no faturamento.
Nas modalidades horárias, a estrutura também depende do enquadramento tarifário. A modalidade horária azul possui tarifas diferenciadas de demanda e energia por postos; a verde possui uma tarifa de demanda e tarifas de energia distintas por horário. Portanto, a economia possível com peak shaving precisa ser calculada sobre a tarifa real, o contrato real e o histórico real da unidade, não com valores genéricos.
O conteúdo Sua empresa está pagando pela demanda elétrica correta? aprofunda a análise de contratação de demanda. Peak shaving pode ser uma ferramenta operacional dentro dessa discussão, mas não substitui o dimensionamento correto da demanda contratada.
O primeiro dado é a curva de carga
Antes de dimensionar bateria, descubra qual pico realmente custa ou limita a operação. Curva de carga, demanda contratada, processo produtivo e capacidade da instalação definem se o problema deve ser tratado por BESS, gestão de carga, ajuste contratual ou reforço elétrico.
Antes de dimensionar qualquer BESS, é necessário conhecer a série temporal de potência da instalação. Uma fatura mensal mostra valores agregados e a demanda máxima, mas não revela adequadamente a forma, duração e recorrência dos picos.
O estudo deve utilizar dados intervalares com resolução compatível com o objetivo. Quanto mais curto e irregular o pico, mais importante é trabalhar com granularidade suficiente para identificar sua estrutura. Dados de medidores internos também podem ser necessários para localizar quais processos criam o evento.
A curva precisa responder:
- qual é a demanda base da instalação;
- qual é o pico máximo;
- quantas vezes picos ocorrem;
- em quais horários e dias;
- quanto tempo permanecem acima do limite;
- quais processos coincidem com o evento;
- se há sazonalidade;
- se o perfil muda por turno, produção ou clima;
- se novas cargas alterarão a curva futura.
Sem essa análise, um sistema pode ser dimensionado para um pico histórico raro que nunca mais ocorrerá ou, ao contrário, ignorar uma condição repetitiva que dominará os ciclos da bateria.
Definir o setpoint de demanda
Peak shaving opera contra um limite ou setpoint. Esse valor pode ser associado à demanda contratada, à capacidade de um transformador, à potência disponível no ponto de conexão ou a uma meta econômica.
O setpoint não deve ser escolhido arbitrariamente. Se for muito baixo, o BESS precisará descarregar durante longos períodos e poderá consumir mais ciclos e energia do que o necessário. Se for muito alto, o sistema pouco reduzirá a demanda.
Uma estratégia prática é testar múltiplos limites e calcular, para cada um, a potência máxima e a energia necessária em cada evento. Essa curva permite visualizar como o tamanho do BESS cresce à medida que o objetivo de corte se torna mais agressivo.
O resultado costuma ser não linear. Reduzir os primeiros 100 kW de um pico muito agudo pode exigir pouca energia; tentar reduzir mais 100 kW pode alongar bastante a janela de descarga.
Como calcular a potência necessária para peak shaving
Em um instante qualquer, a potência requerida do BESS para manter a demanda abaixo do limite pode ser aproximada por:
P_BESS(t) = max[0, P_carga(t) − P_limite]
Se a carga atinge 1.800 kW e o objetivo é limitar a demanda a 1.500 kW, o BESS precisa entregar aproximadamente 300 kW naquele instante, desconsiderando margens e perdas.
O dimensionamento de potência deve considerar o maior valor requerido ao longo dos cenários, mas também margens operacionais, eficiência, derating por temperatura, SOC, degradação, disponibilidade de módulos e potência reativa quando o PCS precisa fornecer funções adicionais.
A potência do PCS não pode ser confundida com energia da bateria. Um BESS de 500 kW / 2.000 kWh pode sustentar nominalmente 500 kW por aproximadamente quatro horas antes de considerar limites e perdas. Um sistema de 1.000 kW / 1.000 kWh tem o dobro da potência, mas aproximadamente uma hora de duração nominal na potência máxima.
Essa relação é aprofundada em BESS: como dimensionar potência, energia e duração, que trata separadamente MW, MWh, SOC, eficiência, degradação e capacidade garantida.
Como calcular a energia necessária
A energia requerida é a integral da potência de corte ao longo do evento. Em forma discreta, pode ser estimada pela soma:
E_req ≈ Σ P_BESS,i × Δt
Se o sistema precisa fornecer 300 kW durante uma hora, a energia de saída é aproximadamente 300 kWh. Se o mesmo pico dura apenas 15 minutos, são cerca de 75 kWh.
Picos reais raramente são retangulares. A potência pode subir e descer ao longo do evento. Por isso, o cálculo deve usar a série temporal e integrar somente a parcela acima do setpoint.
Depois, é necessário corrigir para energia utilizável, eficiência, reserva de SOC, envelhecimento e margens. A bateria não deve ser dimensionada apenas pela energia líquida calculada no pico.
Duração do pico determina o tipo de BESS necessário
Dois sites com a mesma demanda máxima podem exigir sistemas muito diferentes.
| Perfil | Exemplo | Consequência para o BESS |
| Pico agudo | grande aumento por poucos minutos | potência elevada, pouca energia |
| Pico moderado | excesso por 30–60 min | equilíbrio entre MW e MWh |
| Plateau longo | demanda elevada por várias horas | energia passa a dominar |
| Vários picos por dia | eventos repetidos | exige recarga entre eventos e mais ciclos |
| Pico imprevisível | ocorrência aleatória | maior reserva de SOC e controle rápido |
Essa classificação ajuda a decidir se BESS é a ferramenta adequada. Para um pico longo criado por processo permanente, pode ser mais econômico redimensionar infraestrutura ou gerenciar a própria carga. Para picos breves e caros, armazenamento pode ser mais atraente.
SOC: a bateria precisa estar disponível quando o pico chegar
Ter energia nominal instalada não garante energia disponível. O BESS precisa entrar no evento com SOC suficiente para sustentar o corte.
Se o sistema executa outras aplicações — arbitragem, autoconsumo fotovoltaico, backup ou serviços de rede — essas estratégias competem pela mesma capacidade. Um EMS pode descarregar a bateria antes do pico e deixar o sistema sem reserva para peak shaving.
Por isso, a política de SOC deve definir uma faixa reservada para a aplicação prioritária. Pode haver SOC mínimo operacional, SOC-alvo antes da janela crítica e regras para recarga antecipada.
Em cargas previsíveis, o EMS pode programar a preparação da bateria. Em picos aleatórios, é necessário manter reserva maior durante todo o período de risco.
Recarga pode criar um novo pico
Depois do evento, o BESS precisa recuperar energia. Se a recarga for feita sem controle, ela própria pode elevar a demanda e anular parte do benefício.
A lógica deve observar a carga do site e limitar a potência de carga para permanecer abaixo do setpoint. Em alguns casos, isso alonga o tempo de recuperação. Se outro pico ocorrer antes da recarga completa, o SOC pode ser insuficiente.
A análise deve simular o ciclo completo: carga → evento → descarga → recuperação → próximo evento. Dimensionar apenas o primeiro pico é insuficiente quando há vários eventos por dia.
A integração com geração fotovoltaica pode ajudar. Excedentes solares podem carregar o BESS sem aumentar a importação da rede, desde que perfil e capacidade coincidam.
Peak shaving com geração fotovoltaica
Fotovoltaico reduz a potência importada durante períodos de geração, mas seu efeito sobre o pico depende da coincidência temporal. Se o pico industrial ocorre ao meio-dia, a geração pode contribuir diretamente. Se ocorre no início da noite, o sistema solar isolado não reduz essa demanda.
BESS permite deslocar parte da energia solar no tempo. Contudo, a estratégia deve decidir se a bateria será carregada com excedente fotovoltaico, com a rede ou com ambos, e como preservar SOC para a janela de pico.
O conteúdo sobre energia solar industrial e prontidão elétrica trata a integração à instalação. Em peak shaving, a pergunta adicional é: quanto da geração solar realmente coincide ou pode ser deslocada para reduzir a demanda medida?
Peak shaving como alternativa a reforço de infraestrutura
Peak shaving pode liberar capacidade, mas não transforma uma infraestrutura permanentemente insuficiente em adequada. Estudos de carregamento, curto-circuito, proteção e contingência devem confirmar se armazenamento pode postergar CAPEX com segurança.
Em algumas instalações, o objetivo não é tarifário. A rede interna pode estar próxima de um limite de transformador, alimentador ou ponto de conexão. BESS pode reduzir a potência importada em determinados picos e liberar margem para expansão.
Essa estratégia é conhecida em alguns contextos como non-wires alternative ou deferimento de investimento de rede. Porém, ela só funciona se o problema for temporário e previsível. Se a carga base crescer acima da capacidade, a bateria teria que descarregar continuamente e se tornaria inadequada como substituto do reforço.
O Electrical Readiness deve distinguir capacidade estrutural de picos temporários. Em alguns casos, BESS adia um CAPEX; em outros, apenas mascara uma infraestrutura permanentemente insuficiente.
Transformadores e limites térmicos
Transformadores toleram perfis de carga dentro de limites térmicos específicos. Um pico curto pode não produzir o mesmo efeito que carga elevada contínua. Portanto, usar BESS para reduzir picos pode ajudar a controlar temperatura e carregamento, mas a análise precisa considerar modelo térmico, ambiente, ventilação, harmônicas e contingências.
Não é correto assumir que todo transformador carregado acima de determinada porcentagem precisa de BESS. O objetivo deve ser definido a partir de capacidade real e vida útil esperada.
Se a expansão exige capacidade firme maior, o Projeto de Subestação de Média Tensão e Cabine Primária pode ser mais apropriado do que utilizar armazenamento como compensação permanente.
O EMS é determinante no desempenho do peak shaving
PCS e EMS precisam ser dimensionados como um sistema de controle de potência. Medição, tempo de resposta, envelope P-Q, SOC e limites do BMS determinam se o setpoint de demanda será realmente mantido.
Peak shaving exige controle quase em tempo real. O EMS monitora a potência no ponto de medição e ajusta o setpoint do PCS para impedir que a demanda ultrapasse o limite.
Uma lógica puramente reativa pode responder depois que a carga já subiu. Dependendo da janela de medição e da dinâmica do processo, isso pode ser suficiente ou tardio. Estratégias preditivas usam histórico, programação de produção, clima ou estados de máquinas para antecipar eventos.
O EMS também precisa coordenar limites do BMS, SOC, potência disponível, recarga, geração local e outras aplicações. Se o BESS participa de múltiplos serviços, prioridades precisam estar explícitas.
A arquitetura BESS detalha essa divisão entre BMS, PCS e EMS.
Controle de cargas pode reduzir o tamanho da bateria
Antes de dimensionar um BESS, vale identificar cargas flexíveis que podem ser deslocadas ou sequenciadas. Bombas, chillers, compressores, carregadores, resistências, processos por batelada e outras cargas podem permitir algum grau de controle.
Se 200 kW de carga puderem ser temporariamente reduzidos, a bateria precisa fornecer 200 kW a menos para manter o mesmo setpoint. Esse efeito pode reduzir significativamente CAPEX.
A estratégia híbrida combina demand response interno e BESS. O EMS pode priorizar ações de menor custo e usar a bateria apenas para o residual.
Entretanto, controle de carga não pode prejudicar produção, segurança ou qualidade. Cada carga precisa ter limites operacionais e autoridade de comando definidos.
Peak shaving e qualidade de energia
BESS conectado por conversores acrescenta eletrônica de potência ao sistema. Isso exige analisar harmônicas, fator de potência, tensão e interação com equipamentos existentes.
Além disso, o PCS pode possuir capacidade de potência reativa. Em alguns projetos, essa capacidade pode ser usada para suporte de tensão ou fator de potência, mas há um trade-off com a potência aparente disponível para descarga ativa.
Se o PCS tem limite de 1 MVA e precisa fornecer 600 kvar, a potência ativa máxima disponível pode ser menor que 1 MW. O dimensionamento de peak shaving deve considerar o envelope P-Q e não apenas a potência ativa nominal.
Quando há histórico de distúrbios ou grande presença de conversores, a Análise e Diagnóstico da Qualidade de Energia Elétrica pode estabelecer a condição de referência e os critérios de aceite.
Eficiência e perdas reduzem a economia líquida
Toda carga e descarga possui perdas. A eficiência round-trip do BESS representa a relação entre energia devolvida e energia utilizada para carregar, considerando a fronteira definida. Auxiliares e transformadores também consomem energia.
No peak shaving, o benefício econômico de reduzir demanda deve ser comparado ao custo da energia adicional necessária para cobrir perdas, além da degradação associada aos ciclos.
Em tarifas com energia mais cara em determinados horários, a origem da recarga também influencia o resultado. Carregar fora de ponta e descarregar na ponta pode combinar peak shaving e arbitragem. Carregar no mesmo horário caro pode reduzir a vantagem.
Degradação e custo por ciclo
Cada ciclo contribui para envelhecimento da bateria. A degradação depende de química, profundidade de descarga, temperatura, potência, SOC médio, calendar aging e estratégia operacional.
Peak shaving com eventos frequentes pode gerar muitos ciclos parciais. A análise econômica deve incluir a perda de capacidade ao longo do tempo, garantias do fornecedor e eventual augmentation.
A pergunta correta não é apenas “quanto economizo este mês?”, mas “qual é o valor presente da economia ao longo da vida útil, considerando reposição, manutenção e perda de desempenho?”.
O conteúdo sobre TCO e Custo do Ciclo de Vida em Engenharia oferece uma estrutura para comparar alternativas além do CAPEX inicial.
Exemplo simplificado de dimensionamento
Considere uma instalação cuja carga base durante a janela crítica é 1.400 kW e cujo pico chega a 2.000 kW durante 30 minutos. O objetivo é limitar a demanda a 1.600 kW.
No pico máximo, o BESS precisa fornecer aproximadamente:
2.000 − 1.600 = 400 kW
Se o excesso permanecesse constante em 400 kW por 30 minutos, a energia de saída seria:
400 kW × 0,5 h = 200 kWh
Na prática, seriam necessários ajustes para perfil real do pico, eficiência, reserva de SOC, envelhecimento e margens. Se a curva cresce gradualmente e permanece parte do tempo apenas 100–300 kW acima do limite, a energia real pode ser menor. Se o evento durar mais, será maior.
Esse exemplo mostra por que potência e energia precisam ser calculadas separadamente. O BESS pode exigir 400 kW de PCS e apenas algumas centenas de kWh para aquele evento específico.
Simulação anual é superior a dimensionar pelo pior dia
O pior pico determina uma condição limite, mas não mostra a frequência de uso nem a economia anual. Uma análise adequada simula todo o histórico disponível — idealmente um ano ou mais quando há sazonalidade — com o algoritmo de controle proposto.
A simulação deve registrar para cada intervalo:
- carga original;
- potência de carga ou descarga do BESS;
- SOC;
- demanda resultante no medidor;
- energia movimentada;
- eventos em que o setpoint não foi atendido;
- ciclos equivalentes;
- perdas;
- economia de demanda e energia.
Depois, cenários futuros devem incorporar crescimento de carga, novas máquinas ou mudanças de turno. Dimensionar apenas com histórico pode subestimar o sistema se a planta estiver em expansão.
Como escolher entre reduzir demanda contratada e apenas evitar ultrapassagem
São objetivos diferentes. Se a instalação já possui demanda contratada adequada, o BESS pode ser usado apenas para impedir picos acima da tolerância de ultrapassagem. Nesse caso, a potência necessária pode ser relativamente pequena e os eventos pouco frequentes.
Reduzir a própria demanda contratada exige confiança de que o BESS conseguirá manter a demanda abaixo do novo patamar em todos os ciclos relevantes. Isso aumenta a necessidade de reserva de SOC, disponibilidade e robustez do controle.
Uma falha do BESS em um único evento pode produzir demanda medida elevada. Portanto, a decisão de reduzir contrato precisa considerar disponibilidade real e risco operacional, não apenas a simulação ideal.
Peak shaving não substitui revisão de demanda contratada
Uma empresa pode estar contratando demanda muito acima do necessário e pagar por capacidade não utilizada. Nesse caso, a primeira ação pode ser simplesmente ajustar o contrato com a distribuidora, respeitando regras e prazos aplicáveis.
BESS não deve ser usado para “resolver” uma contratação mal dimensionada sem antes analisar os dados. O artigo sobre revisão da demanda contratada deve ser uma etapa anterior em muitos casos.
Da mesma forma, se o pico é causado por sequenciamento inadequado de cargas, automação pode ser mais econômica que bateria.
Onde medir para controlar o pico
O ponto de medição do EMS precisa representar a mesma fronteira que define o objetivo. Para reduzir demanda faturável, a referência deve ser coerente com o medidor de faturamento. Para proteger transformador interno, o controle pode usar medição naquele alimentador.
Atrasos, resolução e erro de medição influenciam o controle. O EMS precisa receber dados com frequência suficiente para agir antes que o pico se consolide.
Sistemas com múltiplas entradas, geração local ou vários transformadores podem exigir soma de medições e lógica mais complexa. A arquitetura precisa ser definida no projeto, não improvisada durante comissionamento.
Falhas e modos degradados
O que acontece se o BESS estiver indisponível no momento do pico? Essa pergunta deve estar no estudo de risco.
Se peak shaving serve apenas para economia, o modo degradado pode aceitar maior demanda. Se serve para impedir sobrecarga física de um transformador, a consequência pode exigir shedding de cargas ou bloqueio de novas partidas.
O EMS deve conhecer disponibilidade de racks e PCS e recalcular capacidade. Alarmes precisam informar quando a reserva de SOC não é suficiente para atender a janela prevista.
A estratégia operacional deve ser segura mesmo sem o BESS.
Testes de comissionamento para peak shaving
Um sistema pode carregar e descarregar e ainda falhar como peak shaver. O teste precisa reproduzir o controle contra um setpoint.
O protocolo deve verificar resposta a subida rápida de carga, manutenção do limite, saturação de potência, SOC baixo, perda de medição, perda de comunicação, recuperação após o evento e recarga sem criar novo pico.
Também devem ser verificadas prioridades quando outras funções estão ativas. Se o BESS fornece potência reativa ou backup, o teste precisa confirmar como essas funções afetam a disponibilidade para peak shaving.
O Comissionamento de Equipamentos pode estruturar FAT, SAT, partida e aceite com evidências rastreáveis.
Viabilidade econômica: quando peak shaving faz sentido
O benefício depende do valor evitado e da frequência dos eventos. Tarifas de demanda elevadas, picos concentrados e previsíveis e possibilidade de combinar múltiplas aplicações tendem a aumentar atratividade. Tarifas baixas, picos muito longos ou baixa frequência podem reduzir retorno.
O estudo deve comparar pelo menos:
- economia anual de demanda;
- economia ou custo adicional de energia;
- perdas do sistema;
- degradação e augmentation;
- O&M;
- CAPEX do BESS e infraestrutura;
- valor de capacidade liberada;
- eventual adiamento de reforços;
- receitas ou benefícios de aplicações adicionais quando permitidos.
O caso do programa Onsite Energy do Departamento de Energia dos EUA mostra por que essa análise precisa ser específica do site: em um estudo industrial, um BESS de 200 kW e três horas apresentou o menor payback entre as alternativas avaliadas, mas todas permaneceram com VPL negativo devido às características tarifárias locais. O aprendizado é metodológico: peak shaving não é automaticamente econômico só porque reduz pico.
Como contratar um estudo de peak shaving
Antes de comprar BESS, o contratante deve solicitar um estudo que transforme histórico de carga e tarifa em requisitos técnicos.
O escopo deve incluir:
- coleta e validação de dados intervalares;
- caracterização de picos e sazonalidade;
- análise tarifária e de demanda contratada;
- definição de setpoints candidatos;
- cálculo de potência e energia por cenário;
- simulação de SOC e recarga;
- perdas e eficiência;
- degradação e ciclos;
- cenários com controle de cargas e fotovoltaico;
- verificação da infraestrutura elétrica;
- arquitetura de medição e EMS;
- análise econômica e sensibilidade;
- requisitos de performance;
- critérios de comissionamento e aceite.
Os arquivos de séries temporais e modelos devem ser entregues em formato reutilizável quando contratados. Isso permite atualizar o estudo quando carga, tarifa ou estratégia mudar.
Considerações finais
Peak shaving reduz picos de demanda, mas seu dimensionamento não começa no catálogo de baterias. Começa na curva de carga, na estrutura tarifária e no limite que se pretende controlar.
Potência define quanto o BESS consegue cortar em um instante. Energia define por quanto tempo consegue sustentar o corte. SOC garante disponibilidade. EMS coordena a resposta. Eficiência e degradação determinam parte do custo. A infraestrutura elétrica estabelece o limite físico para conexão e operação.
Quando essas dimensões são tratadas em conjunto, BESS pode reduzir ultrapassagens, otimizar demanda, liberar capacidade e complementar geração renovável. Quando são tratadas separadamente, o sistema pode ser tecnicamente superdimensionado, insuficiente ou economicamente injustificado.
A engenharia deve demonstrar o benefício por série temporal, cenários e critérios de aceite — e não apenas afirmar que armazenamento “reduz a conta de energia”.
Economia simulada precisa virar desempenho comprovado. O SAT deve demonstrar redução do pico, comportamento com SOC baixo, falha de comunicação e recarga controlada, com medição e critérios definidos antes da implantação.
Referências técnicas
[1] AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA. Resolução Normativa ANEEL nº 1.000, de 7 de dezembro de 2021 — Regras de Prestação do Serviço Público de Distribuição de Energia Elétrica. 2021. Disponível em: https://www2.aneel.gov.br/cedoc/ren20211000.pdf.
[2] AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA. Modalidades Tarifárias. Disponível em: https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/tarifas/entenda-a-tarifa/modalidades-tarifarias.
[3] AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA. Postos Tarifários. Disponível em: https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/tarifas/entenda-a-tarifa/postos-tarifarios.
[4] INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Electricity 2026 — Flexibility. 2026. Disponível em: https://www.iea.org/reports/electricity-2026/flexibility.
[5] U.S. DEPARTMENT OF ENERGY. Onsite Energy Case Study — Battery peak shaving sensitivity analysis. 2023. Disponível em: https://betterbuildingssolutioncenter.energy.gov/sites/default/files/attachments/BorgWarner%20Case%20Study.pdf.
Perguntas frequentes
É a redução dos maiores picos de demanda elétrica de uma instalação. Com BESS, a bateria descarrega quando a carga ultrapassa um limite definido, reduzindo a potência vista no ponto de medição ou no equipamento que se pretende proteger.
Peak shaving busca reduzir o valor máximo de potência. Load shifting desloca energia de um período para outro. Em picos longos, as duas estratégias podem se sobrepor, mas seus objetivos e dimensionamentos não são necessariamente iguais.
Primeiro calcula-se a potência necessária como a diferença entre a carga e o setpoint desejado. Depois integra-se essa potência ao longo do tempo para obter a energia necessária. O resultado deve ser ajustado por eficiência, SOC, degradação, margens e disponibilidade.
Pode ajudar a manter a demanda medida abaixo do limite contratual, desde que o BESS tenha potência, energia e disponibilidade suficientes. A estratégia deve ser baseada nas regras tarifárias e contratuais específicas da unidade.
Não. O benefício depende de tarifas, perfil dos picos, frequência, custo do BESS, perdas, degradação e outras aplicações. Há casos em que controle de cargas ou revisão da demanda contratada é mais econômico.
Em alguns casos, sim, quando o problema é um pico temporário. Se a carga base ultrapassar a capacidade estrutural, a bateria não substitui adequadamente o reforço permanente. A decisão exige análise de capacidade e contingência.
Porque recarregar em potência elevada pode criar um novo pico de demanda. O EMS deve coordenar a recarga com a carga do site e com a próxima janela crítica.
Curva intervalar de carga, demanda contratada, modalidade e tarifas, histórico de operação, sazonalidade, novas cargas previstas, dados de geração local e informações da infraestrutura elétrica.
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