Aprenda como estruturar um Plano da Qualidade para projetos, contratos e obras: requisitos, responsabilidades, QA/QC, ITP, fornecedores, RNCs, auditorias, registros e aceite.
Confira!
Plano da Qualidade é o documento que define como os requisitos de qualidade serão atendidos em um caso específico, como projeto, contrato, obra, fornecimento, serviço ou processo. Em Engenharia, ele transforma requisitos dispersos em uma arquitetura operacional de responsabilidades, controles, verificações, registros, critérios de aceitação e governança de desvios.
A ISO 10005:2018 fornece diretrizes para estabelecer, revisar, aceitar, aplicar e revisar planos da qualidade e deixa claro que eles podem ser usados para processos, produtos, serviços, projetos e contratos, independentemente de a organização possuir ou não um sistema de gestão certificado conforme ISO 9001. A ISO 10006:2017 complementa a visão para projetos, tratando da aplicação da gestão da qualidade ao ambiente de projetos e da necessidade de adaptar o sistema à natureza e complexidade de cada empreendimento.
Um Plano da Qualidade não deve ser uma cópia do manual corporativo da empresa nem uma coleção de frases como “executar conforme normas aplicáveis”. Seu valor está em explicar, para aquele objeto específico, quem fará o quê, contra qual referência, em que momento, com que evidência e segundo qual regra de decisão.
O que é um Plano da Qualidade
O Plano da Qualidade organiza os controles que precisam existir para que o projeto ou contrato produza resultados conformes e rastreáveis. Ele conecta o sistema de gestão da organização ao contexto real do empreendimento.
Um bom plano responde perguntas como:
- quais requisitos governam o objeto?
- quais entregáveis serão controlados?
- quem possui responsabilidade e autoridade?
- quais revisões, inspeções e testes serão executados?
- como fornecedores serão controlados?
- como mudanças serão aprovadas?
- como não conformidades serão tratadas?
- quais registros demonstrarão conformidade?
- quais critérios permitem liberação e aceite?
O documento não precisa conter todos os detalhes operacionais. Procedimentos, ITPs, checklists e instruções podem existir separadamente, desde que o plano defina como se relacionam e qual é sua autoridade.
Plano da Qualidade x Manual da Qualidade
O manual ou documentação do sistema corporativo descreve como a organização gerencia qualidade de maneira geral. O Plano da Qualidade adapta esse sistema a um caso específico.
| Aspecto | Sistema/Manual corporativo | Plano da Qualidade |
| Escopo | organização e processos permanentes | projeto, contrato ou objeto específico |
| Horizonte | contínuo | duração do caso específico |
| Requisitos | corporativos e normativos gerais | contrato, cliente, normas e riscos do objeto |
| Responsáveis | estrutura organizacional | equipe e autoridades do projeto |
| Controles | processos padrão | controles selecionados e adaptados |
| Registros | sistema corporativo | evidências requeridas pelo empreendimento |
Uma empresa certificada ISO 9001 pode possuir um SGQ excelente e ainda precisar de um plano específico para determinado contrato. O inverso também é possível: uma organização sem certificação pode elaborar Plano da Qualidade consistente para atender requisitos de um projeto.
Plano da Qualidade x Plano de Inspeção e Testes — ITP/PIT
Plano da Qualidade e ITP não são sinônimos. O Plano da Qualidade governa o sistema do projeto; o ITP detalha controles de inspeção e testes associados a atividades, itens ou fornecimentos.
O Plano da Qualidade pode definir que cada disciplina ou fornecedor deverá emitir ITPs específicos, quais informações devem conter, quem aprova e como os pontos de hold/witness serão gerenciados.
O ITP é, portanto, um desdobramento operacional do plano.
Plano da Qualidade x Plano de Gerenciamento do Projeto
O Plano de Gerenciamento do Projeto integra aspectos como escopo, cronograma, custos, riscos, comunicações, recursos e outras disciplinas de gestão. O Plano da Qualidade pode ser componente, anexo ou documento coordenado com esse sistema.
A ISO 10006:2017 distingue a gestão da qualidade em projetos da gestão de projetos em si. Essa diferença é importante: qualidade precisa estar integrada ao projeto, mas possui controles e objetivos próprios.
Em empreendimentos complexos, o Plano da Qualidade deve conversar com cronograma, matriz de responsabilidades, plano de suprimentos, plano de comissionamento, gestão de documentos e gestão de riscos.
Quando um Plano da Qualidade é necessário
Nem todo trabalho precisa de documento extenso. A necessidade e profundidade devem ser proporcionais à complexidade, criticidade, número de interfaces, quantidade de fornecedores e exigência contratual.
O plano agrega valor quando existem múltiplas disciplinas, fabricação externa, processos especiais, alto volume documental, requisitos de inspeção, FAT/SAT, comissionamento, Data Book ou risco de decisões irreversíveis.
Também é particularmente útil quando o Owner precisa estabelecer uma linguagem comum entre várias contratadas.
Entradas para elaborar o Plano da Qualidade
O plano deve nascer de análise documental e de risco, não de template vazio.
Entradas típicas incluem:
- contrato e Termo de Referência;
- escopo e matriz de entregáveis;
- requisitos legais e regulatórios;
- normas técnicas;
- especificações;
- critérios de projeto;
- plano de gerenciamento;
- cronograma;
- matriz de interfaces;
- lista de fornecedores críticos;
- riscos do empreendimento;
- lições aprendidas;
- requisitos de operação e manutenção;
- critérios de aceite e handover.
Quando essas entradas não estão consolidadas, o próprio processo de elaboração do plano pode revelar lacunas contratuais ou de Engenharia.
Estrutura recomendada para um Plano da Qualidade
Não existe uma estrutura universal obrigatória, mas um plano de Engenharia costuma precisar de capítulos que cubram governança, execução, verificação e evidências.
| Seção | Conteúdo esperado |
| Objetivo e escopo | objeto, limites e propósito do plano |
| Referências | contrato, normas, procedimentos e documentos aplicáveis |
| Organização | equipe, responsabilidades e autoridades |
| Requisitos | como serão identificados, controlados e rastreados |
| Entregáveis | documentos, sistemas, equipamentos e marcos |
| Projeto | checking, Design Review, verificação e validação |
| Procurement | submittals, fornecedores, inspeções e FAT |
| Execução | procedimentos, ITP, inspeções e controles de campo |
| Medição | instrumentos, calibração e confiabilidade |
| Não conformidades | RNC, disposição, ação corretiva e reinspeção |
| Auditorias | programa, critérios e follow-up |
| Mudanças | controle, aprovação e atualização documental |
| Registros | matriz de evidências, retenção e Data Book |
| Aceite | critérios de liberação, completação e handover |
A estrutura deve ser adaptada ao objeto. Um projeto de software, uma subestação e uma reforma predial possuem riscos e controles distintos.
Objetivos da qualidade
O plano precisa traduzir o conceito de qualidade em objetivos úteis ao empreendimento. Esses objetivos não devem ser slogans genéricos.
Podem envolver taxa de aprovação na primeira submissão, redução de retrabalho, fechamento de RNCs, completude documental, desempenho de fornecedores, cumprimento de inspeções críticas e prontidão para comissionamento.
Cada indicador precisa ter definição, fonte, frequência, responsável e regra de interpretação.
Objetivos mal escolhidos geram comportamento artificial. Medir apenas quantidade de RNCs, por exemplo, pode incentivar subnotificação em vez de melhoria.
Organização, responsabilidades e autoridade
O Plano da Qualidade só controla o empreendimento quando requisitos, responsabilidades e pontos de decisão saem do documento e entram nos workflows reais de aprovação, inspeção e tratamento de desvios.
Conheça a Gestão de Processos, Workflows e Aprovações Técnicas
Qualidade depende de clareza sobre quem produz, verifica, aprova, testemunha, libera e aceita.
O Plano da Qualidade deve identificar responsáveis por processos críticos e autoridade para decisões como concessão, aprovação de procedimento, liberação de hold point, fechamento de RNC e aceite de documentação.
Uma matriz RACI pode complementar o plano, mas não substitui a descrição de papéis quando a decisão exige competência técnica específica.
Independência de verificação
Nem toda atividade precisa de verificação independente, porém itens críticos podem exigir segregação entre execução e aprovação.
O plano deve indicar onde checking independente, Design Review, inspeção de segunda parte ou auditoria são necessários.
O nível de independência precisa ser proporcional ao risco e à estrutura contratual.
Gestão de requisitos no Plano da Qualidade
Requisitos estão dispersos entre contrato, normas, memoriais, desenhos, listas de materiais, atas e decisões. O plano precisa definir como serão identificados, resolvidos e controlados.
Isso inclui tratar conflitos entre documentos, registrar premissas e garantir que alterações de requisito reflitam nos controles dependentes.
Uma matriz requisito → documento → verificação → evidência pode ser usada para itens críticos.
Qualidade no projeto e desenvolvimento
A fase de projeto define grande parte da qualidade futura. O plano precisa estabelecer critérios para entradas, saídas, revisões, checking, compatibilização, Design Review, verificação e validação.
Também deve definir status de documentos, revisões, aprovação para construção e processo de comentários.
Apenas exigir “revisão interna” não é suficiente quando não está claro o que será revisado, quem é competente para fazê-lo e que evidência demonstra fechamento.
Controle documental
Documentos carregam requisitos e evidências. O plano deve definir codificação, revisão, aprovação, distribuição, transmittals, listas mestras, obsolescência, acesso e retenção.
Em obra, uma das falhas mais perigosas é executar com revisão superada. O Plano da Qualidade precisa conversar com o sistema de Document Control e com o fluxo de liberação de campo.
Gestão de mudanças
Mudanças precisam ser identificadas, avaliadas, aprovadas e incorporadas aos documentos afetados.
O plano deve indicar como mudanças técnicas, contratuais e de configuração serão controladas e como as partes saberão qual condição é vigente.
Uma alteração aprovada informalmente em campo pode resolver o problema imediato e criar falha futura de As Built, teste ou manutenção.
Qualidade em procurement
O procurement é uma extensão da Engenharia. O Plano da Qualidade deve definir como requisitos serão levados para pedidos, especificações, submittals e inspeções de fornecedor.
Controles podem incluir pré-qualificação, análise de documentação, aprovação de desenhos, ITP de fabricação, vendor inspection, FAT, release note, certificados e Data Book.
A intensidade deve considerar criticidade e histórico do fornecedor.
Qualificação e avaliação de fornecedores
O plano deve explicar critérios de seleção e reavaliação quando a qualidade depende fortemente da cadeia de suprimentos.
Critérios podem incluir experiência, capacidade técnica, certificações, estrutura de QA/QC, processos especiais, desempenho anterior, controle de subfornecedores e capacidade de documentação.
Um fornecedor aprovado comercialmente não está automaticamente qualificado tecnicamente para qualquer objeto.
Submittals e documentação de fornecedor
Desenhos, datasheets, memoriais, procedimentos e certificados submetidos pelo fornecedor precisam entrar em fluxo controlado.
O Plano da Qualidade pode definir classes de revisão, prazos, responsáveis, status e impacto sobre fabricação ou compra.
Fabricação iniciada antes da aprovação necessária é risco de retrabalho e disputa contratual.
Inspeção e testes
O plano define a estratégia de QC, enquanto ITPs e procedimentos detalham a execução.
Deve ficar claro quais atividades exigem inspeção visual, medição, ensaio, teste funcional, FAT, SAT ou teste integrado.
Critérios de aceitação precisam estar definidos antes da execução. Caso contrário, o teste pode produzir dados sem regra objetiva de decisão.
Hold, witness e review points
O Plano da Qualidade pode estabelecer princípios para classificar pontos de participação do Owner e da contratada.
Hold points devem ser reservados para situações em que avançar sem liberação cria risco significativo. Witness points precisam ter regras de notificação. Review points podem controlar documentação sem interromper a atividade física.
O excesso de pontos formais pode reduzir produtividade; poucos controles podem aumentar exposição. A solução é seleção por risco.
Medição e instrumentos
Quando a conformidade depende de medição, o plano deve definir como instrumentos e processos serão controlados.
Isso inclui identificação, calibração ou verificação quando aplicável, adequação ao uso, rastreabilidade, competência, condições ambientais e tratamento de resultados produzidos por instrumento encontrado fora de condição.
A qualidade do dado precisa ser compatível com a decisão que ele suporta.
Não conformidades
O Plano da Qualidade precisa definir quando abrir RNC, quem classifica, quem propõe disposição, quem aprova, como executar correção, quando analisar causa e como verificar eficácia.
Também deve diferenciar não conformidade de punch item, comentário de projeto e pendência administrativa quando esses fluxos possuem governança distinta.
Correção, ação corretiva e eficácia
Corrigir o item não é necessariamente eliminar a causa. O plano deve definir critérios para exigir análise de causa e ação corretiva, especialmente em reincidências ou falhas sistêmicas.
A verificação de eficácia deve ocorrer depois que a ação teve tempo de atuar. Fechar ação apenas porque o procedimento foi revisado pode ser insuficiente.
Auditorias da qualidade
O plano deve indicar se haverá auditorias internas, de fornecedor ou do próprio contrato, com frequência baseada em risco e desempenho.
Auditorias podem verificar aplicação do plano, eficácia de processos, controle de documentos, inspeções, RNCs, procurement, registros e prontidão para marcos.
Os achados precisam entrar em sistema de acompanhamento e não permanecer isolados no relatório.
Gestão de riscos e qualidade
Qualidade baseada em risco não significa transformar todo desvio em matriz complexa. Significa concentrar controles onde a falha possui maior consequência, detectabilidade baixa ou reversibilidade difícil.
Itens críticos podem exigir verificação independente, inspeção 100%, hold point ou ensaio formal. Itens simples podem ser verificados por amostragem ou checklist reduzido.
O Plano da Qualidade deve demonstrar essa proporcionalidade.
Matriz de criticidade para calibrar controles
Uma abordagem prática combina impacto, detectabilidade, irreversibilidade, complexidade e histórico.
| Condição | Intensidade sugerida |
| Baixo impacto e fácil reversão | controle simples e registro essencial |
| Interface relevante | verificação documentada e coordenação entre disciplinas |
| Alta criticidade | revisão independente, hold point e evidência formal |
| Fornecedor novo | maior supervisão, auditoria e inspeção inicial |
| Processo estável | controle normal ou reduzido conforme evidência |
| Reincidência | reforço temporário, causa raiz e follow-up |
Essa matriz pode orientar ITPs, auditorias e planos de amostragem.
Registros da qualidade
Registro é evidência de que atividade foi executada e resultado foi avaliado. O plano deve definir quais registros são obrigatórios, formato, responsável, aprovação, retenção e vínculo com o Data Book.
Exemplos incluem checklists, relatórios de inspeção, certificados, logs de teste, atas de Design Review, RNCs, registros de calibração, FAT/SAT, fotografias, as-built e termos de aceite.
A lista deve ser definida antes da execução. Montar o Data Book apenas no fim aumenta risco de documentos ausentes e registros não recuperáveis.
Matriz de registros e evidências
Uma matriz pode ligar atividade ao registro esperado.
| Processo | Evidência principal | Responsável | Momento |
| Design Review | ata, comentários e fechamento | Engenharia | antes da emissão |
| Recebimento | relatório/checklist | QC/almoxarifado | chegada do item |
| Fabricação | ITP e relatórios | fornecedor/inspeção | durante fabricação |
| FAT | protocolo e resultados | fornecedor + testemunhas | antes da expedição |
| Montagem | checklist de completação | construção/QC | durante execução |
| SAT | protocolo e logs | comissionamento | após instalação |
| RNC | registro e evidência de fechamento | QA/QC | conforme ocorrência |
| Handover | Data Book e termo | gestão do projeto | encerramento |
A matriz evita que a equipe descubra no final que determinado documento nunca foi previsto.
Qualidade e cronograma
Controles precisam estar no cronograma. Inspeções, FAT, aprovações, hold points e auditorias consomem tempo e dependem de notificação.
Quando o cronograma ignora esses eventos, a qualidade é percebida como atraso. Na verdade, o planejamento falhou em incorporar etapas necessárias à entrega.
Marcos de qualidade podem ser ligados a gates de projeto, fabricação, expedição, energização e handover.
Qualidade e medição contratual
Se documentação, inspeção e teste fazem parte do produto contratado, o regime de medição precisa refletir isso.
Pagar integralmente por instalação física quando evidências continuam pendentes cria incentivo inadequado. A medição pode exigir fechamento de documentação crítica, testes e RNCs antes de considerar determinados marcos completos.
O Plano da Qualidade deve ser coerente com contrato e critérios de pagamento.
Plano da Qualidade da contratada x governança do Owner
A contratada deve possuir sistema de QA/QC para controlar sua própria produção. O Owner não deveria assumir essa responsabilidade ao acompanhar ou testemunhar atividades.
O proprietário pode estabelecer requisitos, aprovar documentos, auditar processos, testemunhar pontos críticos e verificar evidências, mas a conformidade primária continua sendo responsabilidade de quem executa.
Essa distinção precisa aparecer no plano para evitar transferência informal de risco.
Integração com fiscalização
A fiscalização técnica precisa usar o Plano da Qualidade para saber quais inspeções, documentos e evidências condicionam a liberação e a medição. Sem essa referência, decisões tendem a variar entre pessoas e frentes.
Conheça o Apoio Técnico à Fiscalização de Obras e Contratos de Engenharia
A fiscalização usa o Plano da Qualidade como referência para saber quais controles devem existir, quais pontos exigem acompanhamento e quais evidências sustentam medição ou aceite.
Sem plano, a fiscalização tende a depender da experiência individual de cada inspetor. Com plano, decisões ganham consistência e rastreabilidade.
Integração com comissionamento
Comissionamento depende de qualidade produzida nas fases anteriores. O Plano da Qualidade deve preparar a transição entre construção, completação, testes e operação.
Isso inclui requisitos de pré-comissionamento, punch list, documentos, instrumentos, configuração e critérios para declarar sistema pronto para teste.
O plano de comissionamento pode detalhar a metodologia, mas deve ser coerente com as regras de qualidade.
Data Book e handover
O Data Book reúne parte significativa das evidências produzidas pelo sistema de qualidade. O Plano da Qualidade deve definir sua estrutura, responsabilidade, atualização e critérios de completude.
Um Data Book construído continuamente permite identificar lacunas cedo. A entrega final deve ser consequência do processo, não força-tarefa documental.
As Built, manuais, certificados, relatórios, RNCs fechadas, testes e registros de configuração precisam convergir para uma memória técnica confiável do ativo.
Controle de revisão do próprio Plano da Qualidade
O plano também é documento controlado. Mudanças de escopo, organização, normas, fornecedores ou metodologia podem exigir revisão.
Cada revisão deve ter motivo, aprovação e comunicação. Um plano desatualizado perde capacidade de governar o projeto.
Como revisar e aceitar o plano de uma contratada
O Owner não deve aprovar o plano apenas porque possui todos os capítulos. A análise precisa verificar aderência ao contrato e capacidade prática de execução.
Perguntas úteis incluem:
- os requisitos específicos do projeto aparecem?
- responsabilidades estão claras?
- ITPs e procedimentos serão submetidos no tempo correto?
- critérios de inspeção e teste estão vinculados a documentos?
- não conformidades possuem governança?
- fornecedores críticos estão cobertos?
- registros e Data Book estão definidos?
- o plano conversa com cronograma e comissionamento?
A aprovação documental não elimina a necessidade de auditar se o plano está sendo cumprido.
Indicadores para acompanhar o Plano da Qualidade
A efetividade pode ser acompanhada por indicadores como aprovação de documentos na primeira submissão, RNCs abertas e fechadas, reincidência, inspeções executadas conforme ITP, falhas de fornecedor, pendências de Data Book, testes aprovados na primeira tentativa e backlog de ações.
Indicadores devem ser analisados em tendência e contexto. Um aumento de RNCs pode refletir piora real ou melhoria na detecção.
Erros comuns na elaboração
Um dos erros mais frequentes é copiar plano de outro projeto e apenas trocar capa. O resultado menciona processos, documentos e responsabilidades que não existem no novo contrato.
Outros erros incluem:
- repetir cláusulas da ISO 9001 sem traduzir para o projeto;
- listar procedimentos que não foram emitidos;
- não definir critérios de aceite;
- deixar ITP para depois do início da obra;
- não conectar qualidade ao cronograma;
- não definir Data Book;
- misturar punch list e RNC sem regra;
- não identificar autoridade para concessões;
- usar indicadores sem responsável ou fonte;
- criar excesso de formulários sem propósito.
Como evitar burocracia
Plano robusto não precisa ser volumoso. A extensão deve seguir risco e complexidade.
O documento deve concentrar governança e referências. Procedimentos detalhados ficam onde fazem sentido. Duplicar conteúdo aumenta inconsistência e custo de manutenção.
A pergunta útil para cada controle é: qual risco ele reduz ou qual evidência ele produz? Se não existe resposta clara, o controle pode ser burocracia.
Modelo de implementação por etapas
Uma implantação prática pode seguir oito etapas:
- consolidar requisitos do contrato;
- mapear riscos e itens críticos;
- definir organização e responsabilidades;
- selecionar controles por fase;
- estruturar ITPs, procedimentos e registros;
- integrar qualidade ao cronograma e procurement;
- operar RNCs, auditorias e indicadores;
- preparar Data Book, comissionamento e handover.
O plano deve ser emitido cedo o suficiente para influenciar o trabalho. Elaborá-lo depois que fabricação ou obra já começou reduz drasticamente seu caráter preventivo.
Como contratar a elaboração ou gestão do Plano da Qualidade
Quando o Owner não possui estrutura interna, pode contratar apoio de Engenharia para desenvolver requisitos de qualidade, revisar planos de contratadas ou acompanhar sua aplicação.
O escopo deve definir se o serviço inclui apenas documento inicial ou também ITPs, auditorias, inspeções, RNCs, indicadores, reuniões, Data Book e acompanhamento até aceite.
A diferença é relevante: elaborar o plano é atividade de estruturação; gerir a qualidade é operar o sistema durante o empreendimento.
Plano da Qualidade como instrumento de Owner’s Engineering
Na Owner’s Engineering, o plano ajuda a proteger interesses do proprietário sem assumir responsabilidade da contratada. Ele estabelece critérios, pontos de controle, documentação e regras de decisão para que o Owner consiga acompanhar a execução com evidências.
Também facilita comparar fornecedores, identificar desvios cedo e preparar aceite sem depender exclusivamente de declarações da contratada.
O plano se torna uma interface entre contrato, Engenharia, procurement, fiscalização, comissionamento e operação.
Considerações finais
Plano da Qualidade é a tradução operacional dos requisitos de qualidade para um projeto, contrato ou obra específico. Ele define como a organização pretende prevenir erros, verificar conformidade, tratar desvios e produzir evidências suficientes para liberação e aceite.
Em Engenharia, o documento ganha valor quando está integrado aos requisitos, ao cronograma, ao procurement, aos ITPs, à fiscalização, ao comissionamento e ao handover. Um plano isolado em pasta documental não controla qualidade; um plano usado como referência de decisão cria governança.
A profundidade deve ser proporcional ao risco. O objetivo não é aumentar a burocracia, mas assegurar que os controles certos ocorram nos pontos certos e que o empreendimento consiga demonstrar, ao final, não apenas que foi concluído, mas que foi entregue conforme requisitos tecnicamente definidos.
Quando um empreendimento já está em andamento sem arquitetura clara de qualidade, uma auditoria técnica pode mapear lacunas, riscos, evidências faltantes e prioridades antes de estruturar o plano de recuperação.
Referências técnicas
[1] INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 10005:2018 — Quality management — Guidelines for quality plans. Geneva: ISO, 2018. Disponível em: https://www.iso.org/standard/70398.html
[2] INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 10006:2017 — Quality management — Guidelines for quality management in projects. Geneva: ISO, 2017. Disponível em: https://www.iso.org/standard/70376.html
[3] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR ISO 9001:2015 — Sistemas de gestão da qualidade — Requisitos. Rio de Janeiro: ABNT, 2015.
[4] INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 9001:2015 — Quality management systems — Requirements. Geneva: ISO, 2015. Disponível em: https://www.iso.org/standard/62085.html
Perguntas frequentes
É o documento que define como requisitos de qualidade serão atendidos em um caso específico, como projeto, contrato, obra, fornecimento ou serviço, incluindo responsabilidades, controles, verificações, registros e critérios de aceite.
A ISO 10005:2018 fornece diretrizes para estabelecer, revisar, aceitar, aplicar e revisar planos da qualidade.
Não. O Plano da Qualidade governa o sistema do projeto ou contrato; o ITP/PIT detalha inspeções e testes de atividades, itens ou fornecimentos específicos.
Sim. A ISO 10005 é aplicável independentemente de a organização possuir um sistema de gestão conforme ISO 9001.
Ele deve definir requisitos, responsabilidades e critérios para registros e documentação final quando isso fizer parte do objeto. A estrutura detalhada do Data Book pode ser documento separado.
A aprovação depende da governança contratual. Normalmente o Owner, fiscalização ou Engenharia responsável revisa aderência aos requisitos, sem transferir à contratante a responsabilidade da contratada pela qualidade de sua produção.
Materiais técnicos complementares
Conteúdos principais sobre o tema
- Gestão da Qualidade: o que é, princípios, processos e aplicação na Engenharia
- Garantia da Qualidade (QA): o que é, como funciona e aplicação na Engenharia
- Controle de Qualidade (QC): o que é, como funciona e aplicação na Engenharia