A digitalização das subestações mudou a natureza dos sistemas de proteção, controle e supervisão. Funções que antes dependiam principalmente de circuitos dedicados, fiação ponto a ponto e lógicas locais passaram a depender também de redes Ethernet industriais, IEDs, gateways, servidores SCADA, switches gerenciáveis, sincronismo de tempo e protocolos de automação de potência.
Nesse contexto, a segurança em redes de automação de potência não pode ser tratada apenas como uma extensão da segurança de TI. Em uma subestação, a rede precisa proteger dados e acessos, mas também preservar disponibilidade, seletividade, interoperabilidade, latência, determinismo, sincronismo e continuidade operacional. Uma política de bloqueio mal aplicada pode afetar uma função crítica tanto quanto uma falha de configuração ou um incidente cibernético.
Este artigo apresenta uma visão técnica sobre segurança em redes de automação de potência e subestações, com base em referências como a ABNT NBR 16932, a série IEC 61850, requisitos de SCADA e Smart Grids, diretrizes de segurança OT, conceitos da IEC 62443 e práticas de ensaio, monitoramento e comissionamento.
IEC 62443 aplicada a subestações: gestão de riscos, zonas e conduítes, segmentação OT, acesso remoto, hardening, vulnerabilidades, monitoramento, FAT, SAT e Owner’s Engineering.
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A digitalização das subestações ampliou a capacidade de proteção, controle, supervisão, teleassistência e diagnóstico, mas também aumentou a quantidade de ativos programáveis, interfaces de comunicação e acessos que precisam ser governados. Relés digitais, IEDs, UTRs, SSCLs, switches, gateways, servidores, estações de engenharia, sistemas SCADA e conexões com centros de operação formam uma infraestrutura de tecnologia operacional — OT — diretamente ligada ao processo elétrico.
Nesse ambiente, uma falha cibernética não se limita à perda de informação. Ela pode provocar perda de supervisão, indisponibilidade de telecomandos, alteração de ajustes, bloqueio de estações de engenharia, degradação de canais de comunicação ou apresentação de estados incorretos ao operador. A engenharia de cibersegurança precisa, portanto, preservar simultaneamente a segurança das pessoas, a integridade das funções, a disponibilidade da operação e a possibilidade de recuperação.
A IEC 62443 oferece conceitos e estruturas para tratar a segurança de sistemas industriais de automação e controle ao longo do ciclo de vida. Em subestações, ela pode ser combinada com referências específicas de sistemas de potência, como a IEC 62351, com orientações de engenharia de redes da ABNT NBR 16932 e com práticas de segurança OT consolidadas pelo NIST SP 800-82.
Este artigo apresenta um método de aplicação desses conceitos a subestações de distribuição, transmissão e geração. O objetivo não é transformar a norma em uma lista genérica de equipamentos, mas mostrar como riscos, zonas, conduítes, acessos, hardening, monitoramento e testes se convertem em entregáveis de projeto e critérios de contratação.
Por que subestações exigem uma abordagem própria de cibersegurança
Subestações combinam requisitos que normalmente não coexistem com a mesma intensidade em redes corporativas. Determinadas comunicações possuem restrições de latência e previsibilidade; ativos podem permanecer em operação por décadas; janelas de manutenção são limitadas; alterações precisam ser coordenadas com proteção, automação e operação; e falhas podem afetar a continuidade do fornecimento de energia.
Em TI corporativa, a confidencialidade pode ocupar posição central. Em OT, integridade e disponibilidade frequentemente recebem maior peso, com a segurança operacional como restrição superior. Isso não torna a confidencialidade irrelevante: diagramas, ajustes, topologias, credenciais e arquivos de configuração também são sensíveis. Significa que qualquer controle precisa ser analisado quanto ao efeito sobre o processo.
Uma solução de inspeção profunda, autenticação ou criptografia pode ser tecnicamente desejável, mas inadequada em um caminho de comunicação crítico se introduzir atraso, indisponibilidade ou comportamento não determinístico. A IEC 62443 reconhece esse conflito ao tratar o desempenho e a continuidade como parte do próprio problema de segurança.
A abordagem correta começa por quatro perguntas:
1. quais funções elétricas e operacionais precisam ser preservadas; 2. quais ativos e comunicações sustentam essas funções; 3. quais consequências podem resultar de alteração, indisponibilidade ou acesso indevido; 4. quais controles reduzem o risco sem comprometer proteção, controle e segurança operacional.
O que é a IEC 62443
A IEC 62443 é uma família de documentos voltada à cibersegurança de sistemas industriais de automação e controle. O trabalho original da ISA99 foi utilizado no desenvolvimento da série internacional, razão pela qual também são comuns as expressões ISA/IEC 62443 e ISA IEC 62443.
A família distribui responsabilidades entre proprietários de ativos, prestadores de serviços, integradores e fabricantes. Em termos gerais, seus documentos tratam de:
- conceitos, modelos e terminologia;
- programas, políticas e procedimentos de segurança;
- avaliação de riscos e requisitos de sistemas;
- ciclo de desenvolvimento seguro e requisitos de componentes.
A ABNT IEC/TS 62443-1-1:2023 disponível na base técnica da A3A estabelece conceitos fundamentais, como defesa em profundidade, ativos, ameaças, vulnerabilidades, zonas, conduítes e níveis de segurança. Ela não deve ser utilizada isoladamente como se contivesse todos os requisitos detalhados das demais partes da série.
Também é importante não apresentar a IEC 62443 como obrigação universal. Documentos técnicos ABNT são, em regra, voluntários. Eles podem se tornar exigíveis quando incorporados a contratos, padrões corporativos, editais, regulamentos ou outros instrumentos aplicáveis ao empreendimento.
Requisitos fundamentais de segurança industrial
A ABNT IEC/TS 62443-1-1 identifica sete grupos fundamentais de requisitos. Eles ajudam a verificar se o projeto cobre as dimensões essenciais da segurança.
| Requisito fundamental | Aplicação em uma subestação |
| Controle de acesso | Restringir quem ou qual sistema pode alcançar IEDs, servidores, switches, gateways e ferramentas de engenharia |
| Controle de uso | Limitar o que uma identidade autenticada pode visualizar, alterar, comandar ou administrar |
| Integridade de dados | Detectar ou impedir alteração não autorizada de comandos, ajustes, arquivos, eventos e comunicações |
| Confidencialidade de dados | Proteger informações sensíveis quando o risco ou o caminho de comunicação justificar |
| Restrição de fluxo de dados | Permitir somente comunicações necessárias entre zonas e ativos |
| Resposta oportuna a eventos | Detectar, registrar, comunicar e tratar violações ou anomalias em tempo compatível com o risco |
| Disponibilidade de recursos | Manter funções críticas e evitar que falhas ou ataques esgotem recursos necessários à operação |
Esses requisitos não são uma lista de produtos. O controle de acesso, por exemplo, pode envolver identidade, regras de firewall, proteção física, política de fornecedores e aprovação operacional. A disponibilidade pode depender de redundância, alimentação CC, rotas independentes, backup e procedimentos de recuperação.
IEC 62443, IEC 62351, NIST 800-82 e ISO 27001
As referências se complementam, mas não possuem a mesma finalidade.
IEC 62443
Fornece uma estrutura para segurança de sistemas industriais de automação e controle, incluindo ciclo de vida, responsabilidades, risco, zonas, conduítes, requisitos de sistema e segurança de componentes.
IEC 62351
A série IEC 62351 trata da segurança de dados e comunicações utilizados no gerenciamento e intercâmbio de informações em sistemas de potência. A própria ABNT NBR 16932 indica essa série como referência para cibersegurança das comunicações e cita a parte dedicada à IEC 61850.
Enquanto a IEC 62443 ajuda a estruturar o programa e a arquitetura de segurança do ambiente OT, a IEC 62351 se aproxima dos mecanismos aplicáveis aos protocolos e intercâmbios do setor elétrico. A seleção de partes aplicáveis deve considerar os protocolos efetivamente utilizados e o suporte dos equipamentos.
NIST SP 800-82
O NIST SP 800-82 Rev. 3 é um guia de segurança OT que aborda governança, riscos, arquiteturas, segmentação, acesso remoto, monitoramento, fornecedores, vulnerabilidades, incidentes e recuperação. É uma referência de boas práticas, não um regulamento brasileiro.
O documento enfatiza que controles de TI precisam ser adaptados às restrições de desempenho, disponibilidade e segurança operacional da OT. Também recomenda uma equipe multidisciplinar, reunindo automação, operação, redes, TI, cibersegurança, segurança física, gestão e fornecedores quando necessário.
ISO/IEC 27001
A ISO/IEC 27001 fornece a estrutura de um sistema de gestão de segurança da informação. Ela é útil para governança, avaliação de riscos, responsabilidades, auditorias e melhoria contínua. A IEC 62443 adiciona especificidade para ambientes industriais e suas restrições operacionais.
Nenhuma dessas referências substitui os requisitos do proprietário do ativo, os procedimentos da concessionária, a filosofia de operação ou as condições contratuais do empreendimento.
Segurança não é um projeto com data de término
A IEC 62443 trata a segurança como um ciclo de vida. Uma arquitetura pode atender aos requisitos no momento do comissionamento e perder efetividade posteriormente por causa de novas vulnerabilidades, mudanças de configuração, obsolescência, acessos não revogados ou alteração das ameaças.
O ciclo precisa incluir:
- avaliação e definição dos requisitos;
- projeto e especificação;
- implantação e validação;
- operação e monitoramento;
- manutenção e gestão de mudanças;
- reavaliação de riscos;
- modernização, desativação e descarte seguro.
Essa perspectiva é especialmente importante em subestações, onde a vida útil do ativo primário e dos sistemas de proteção pode superar o ciclo de suporte de sistemas operacionais, switches, servidores e componentes de software.
Ativos e funções críticas de uma subestação
O inventário não deve começar apenas pelos endereços IP. É necessário relacionar ativos físicos, lógicos e humanos às funções que sustentam.
Ativos físicos e tecnológicos
- relés de proteção e IEDs;
- merging units e equipamentos de interface com o processo;
- UTR, RTU, SSCL e gateways;
- switches, roteadores, firewalls e equipamentos de telecomunicação;
- servidores SCADA, históricos e serviços de sincronismo;
- estações de operação e de engenharia;
- sistemas de teleproteção;
- VMS, câmeras e equipamentos de vídeo operativo;
- painéis de controle, distribuidores ópticos e enlaces;
- fontes, retificadores, bancos de baterias e UPS.
Ativos lógicos
- firmware e versões de software;
- ajustes de relés;
- lógicas de proteção e controle;
- arquivos SCL e bases de dados;
- configurações de switches e firewalls;
- certificados e chaves;
- listas de pontos e matrizes de telecomandos;
- diagramas, procedimentos e backups;
- registros de eventos e históricos.
Ativos humanos e organizacionais
- operadores;
- engenheiros de proteção, automação e telecomunicações;
- equipes de manutenção;
- administradores de redes e servidores;
- integradores e fabricantes;
- gestores responsáveis pela aceitação de risco.
O comprometimento de uma estação de engenharia pode ser mais relevante do que a perda temporária de uma estação de consulta, porque a primeira pode alterar configurações de vários ativos. A criticidade precisa refletir função, autoridade e consequência.
Inventário e classificação dos ativos OT
Um inventário útil para engenharia e segurança deve incluir, no mínimo:
| Campo | Finalidade |
| Identificação e localização | Relacionar o ativo ao bay, painel, sala, subestação ou centro de operação |
| Função | Indicar proteção, controle, supervisão, telecomunicação, vídeo ou gestão |
| Fabricante e modelo | Apoiar suporte, vulnerabilidades, reposição e compatibilidade |
| Hardware, firmware e software | Determinar situação de atualização e dependências |
| Interfaces e endereços | Mapear portas físicas, endereços IP, MAC, seriais e interfaces ópticas |
| Protocolos e serviços | Identificar MMS, GOOSE, SV, SNMP, NTP, PTP, DNP3, IEC 60870-5-104 e outros |
| Zona e conduíte | Relacionar o ativo à arquitetura de segurança |
| Responsável | Definir proprietário técnico e autoridade de mudança |
| Criticidade | Registrar impacto da perda de integridade, disponibilidade ou controle |
| Suporte e fim de vida | Planejar atualização, estoque, substituição e controles compensatórios |
| Backup e restauração | Informar onde está a configuração e como recuperá-la |
Descoberta automática pode auxiliar, mas ferramentas ativas precisam ser utilizadas com cautela. O NIST registra que varreduras e testes inadequados já causaram interrupções em redes de controle. Em ambientes em operação, levantamento passivo, documentação existente, consultas aos equipamentos e janelas controladas tendem a ser mais seguros.
Análise de riscos cibernéticos
A análise de riscos deve relacionar ativos, ameaças, vulnerabilidades, consequências e controles. Não basta importar uma matriz de TI e trocar o nome dos servidores.
Em subestações, as consequências podem incluir:
- perda de visão do processo;
- perda ou atraso de telecomandos;
- indicação incorreta de estados;
- alteração de ajustes de proteção;
- indisponibilidade de teleproteção;
- bloqueio de estações de engenharia;
- perda de registros necessários à análise de ocorrência;
- propagação para outras subestações ou centros de operação;
- operação degradada por período superior ao aceitável;
- necessidade de deslocamento emergencial de equipe;
- risco à segurança das pessoas e aos equipamentos.
Uma avaliação prática pode seguir o ciclo:
1. definir escopo, fronteiras e funções críticas; 2. inventariar ativos e comunicações; 3. identificar ameaças e vulnerabilidades; 4. avaliar consequências físicas, operacionais e digitais; 5. estimar risco inicial; 6. selecionar controles técnicos, administrativos e físicos; 7. avaliar impacto dos controles sobre a operação; 8. registrar risco residual e autoridade de aceitação; 9. monitorar mudanças e reavaliar periodicamente.
A resposta pode envolver evitar, reduzir, compartilhar, transferir ou aceitar o risco. A aceitação precisa ser explícita e rastreável, principalmente quando a correção depende de uma futura janela de desligamento ou substituição do ativo.
Ameaças relevantes para subestações
A segurança não deve considerar apenas invasores externos. A IEC 62443 e o NIST tratam ameaças intencionais, acidentais, estruturais e ambientais.
| Origem | Exemplos |
| Adversarial | acesso indevido, malware, manipulação de comandos, falsificação de dados, negação de serviço e abuso de credenciais |
| Interna | alteração não autorizada, uso excessivo de privilégios, remoção de logs ou conexão de dispositivo não aprovado |
| Acidental | erro de configuração, aplicação de patch incompatível, comando na instalação errada ou uso de ferramenta inadequada |
| Estrutural | falha de hardware, fonte, switch, software, armazenamento, sincronismo ou comunicação |
| Ambiental | surtos, interferência eletromagnética, perda de climatização, incêndio, inundação ou falha prolongada de energia |
| Cadeia de suprimentos | componente comprometido, software sem suporte, atualização insegura ou acesso excessivo do fornecedor |
A arquitetura deve responder também a erros e falhas não maliciosas. Um controle que protege contra invasão, mas cria um ponto único de falha, pode reduzir a segurança global da operação.
Zonas e conduítes
Zonas e conduítes são conceitos centrais da IEC 62443.
Uma zona de segurança agrupa ativos físicos, lógicos ou de aplicação que compartilham requisitos de segurança. Ela possui fronteira, política, responsáveis e critérios de acesso. Pode ser física, como uma sala de telecomunicações, ou lógica, como um conjunto de servidores e IEDs separados por função.
Um conduíte agrupa comunicações e mecanismos que permitem o fluxo de informações dentro de uma zona ou entre zonas. Um conduíte pode incluir enlaces, switches, roteadores, firewalls, gateways, VPNs e regras que protegem os canais transportados.
A definição deve partir da função e do risco, não apenas da topologia existente.
| Elemento | Perguntas de projeto |
| Ativos da zona | Quais dispositivos, aplicações e pessoas pertencem ao agrupamento? |
| Função | Que processo ou serviço a zona sustenta? |
| Fronteira | Onde começa e termina a responsabilidade e o controle? |
| Risco | Qual a consequência de comprometimento ou indisponibilidade? |
| Fluxos | Com quais zonas a comunicação é realmente necessária? |
| Controles | Como identidade, integridade, disponibilidade e restrição de fluxo serão implementadas? |
| Gestão | Quem aprova mudanças e quem responde pelos ativos? |
| Monitoramento | Quais eventos e indicadores demonstram a condição da zona? |
Uma VLAN não constitui, isoladamente, uma zona de segurança completa. Ela pode colaborar com a separação lógica, mas precisa ser combinada com controles de fluxo, proteção de portas, gestão de configuração, monitoração, regras de acesso e documentação.
Uma arquitetura segura começa pelo inventário, pelas zonas e pelo controle dos fluxos.
O projeto precisa converter a análise de riscos em topologia, fronteiras, comunicações permitidas, acessos, monitoramento e critérios de aceite compatíveis com a operação da subestação.
Arquitetura de referência para subestações
Cada concessionária ou agente pode adotar uma arquitetura corporativa de referência e detalhá-la por família de subestação. O modelo precisa refletir a realidade operacional, e não apenas um desenho genérico baseado em níveis.
Uma decomposição possível é apresentada a seguir.
| Zona | Ativos e funções típicas | Considerações principais |
| Processo | sensores, atuadores, merging units e interfaces primárias | integridade, disponibilidade, latência e acesso físico |
| Proteção e controle | relés, IEDs, unidades de bay e intertravamentos | desempenho determinístico, independência e mudança controlada |
| Supervisão local | UTR, SSCL, gateways, IHM e servidores locais | disponibilidade, lista de pontos, comandos e logs |
| Estação de engenharia | ferramentas, notebooks e arquivos de configuração | acesso privilegiado, integridade e rastreabilidade |
| Telecomunicações operacionais | switches, roteadores, multiplexadores e WAN | redundância, rotas, gestão e supervisão |
| Teleproteção | relés, equipamentos e canais dedicados ou lógicos | baixa latência, independência e testes ponta a ponta |
| Vídeo operativo | câmeras, VMS, gravação e integrações com eventos | separação de tráfego, disponibilidade e acesso controlado |
| Segurança patrimonial | CFTV, acesso, perímetro e intrusão | impedir que sistemas de segurança criem caminho para a OT |
| DMZ OT | jump server, proxy, repositório e transferência controlada | impedir comunicação direta entre rede corporativa e OT crítica |
| Centro de operação | SCADA, históricos, estações e serviços de gestão | identidade, disponibilidade, segregação e continuidade |
| Rede corporativa | aplicações administrativas e usuários gerais | não deve alcançar diretamente ativos de níveis operacionais inferiores |
| Acesso remoto | VPN, bastion, autenticação e registro de sessões | aprovação, duração limitada, menor privilégio e revogação |
A lista não é universal. Uma instalação pequena pode combinar funções; uma operação de maior criticidade pode subdividir proteção principal e alternada, separar estações de engenharia por domínio ou criar zonas distintas para sincronismo e gestão.
A arquitetura de zonas e conduítes depende de uma base de rede bem definida. Topologia, switches, VLANs, roteamento, protocolos, redundância e monitoramento devem ser especificados em conjunto, conforme detalhado no guia de redes industriais, segurança e integração com SCADA.
Segmentação entre proteção, controle, SCADA, vídeo e gestão
A segmentação deve impedir que uma falha ou comprometimento em um sistema menos crítico se propague livremente para funções de proteção e controle.
Algumas separações que merecem análise são:
- barramento de processo e barramento de estação;
- sistemas principal e alternado de proteção;
- proteção e supervisão;
- rede local da subestação e WAN operacional;
- gestão de equipamentos e tráfego funcional;
- estação de engenharia e estações de operação;
- vídeo operativo e automação;
- segurança patrimonial e rede OT;
- subestação e centro de operação;
- OT e rede corporativa.
A ABNT NBR 16932 fornece orientações de engenharia para redes IEC 61850, incluindo topologias, redundância, VLAN, multicast, desempenho, sincronismo, gerenciamento e testes. A própria norma informa que não detalha cibersegurança. Por isso, seu uso deve ser combinado com uma arquitetura de segurança baseada em risco.
Separação lógica pode ser adequada em certas aplicações, desde que o risco, o desempenho e as falhas comuns sejam analisados. Proteção principal e alternada em VLANs diferentes, mas nos mesmos switches, fontes e enlaces, continuam sujeitas a dependências compartilhadas.
Matriz de fluxos autorizados
Antes de configurar firewalls e ACLs, deve ser produzida uma matriz de comunicação. Ela transforma a arquitetura em requisitos verificáveis.
| Origem | Destino | Serviço ou protocolo | Direção | Finalidade | Criticidade | Responsável |
| IED de bay | SSCL | MMS | conforme arquitetura | supervisão e controle | alta | automação |
| IED | IED | GOOSE | multicast local | intertravamento ou proteção | crítica | proteção |
| Relógio | IEDs e switches | PTP/NTP/IRIG-B | distribuição | sincronismo | alta | automação/telecom |
| SSCL | Centro de operação | protocolo de telecontrole | bidirecional controlado | dados e telecomandos | alta | operação |
| Estação de engenharia | IED | protocolo de gestão | sessão autorizada | parametrização | crítica | proteção/automação |
| Dispositivo OT | servidor de logs | syslog ou mecanismo suportado | saída | auditoria | média/alta | cibersegurança |
A política recomendada é negar por padrão e permitir somente o necessário. Regras de saída também precisam ser controladas. Um ativo comprometido pode utilizar comunicações de saída para movimentação lateral, comando e controle ou exfiltração.
DMZ OT e comunicação com a rede corporativa
Quando existe necessidade de integração entre OT e TI, a comunicação direta entre a rede corporativa e os níveis críticos deve ser evitada. Uma DMZ OT pode hospedar serviços intermediários, como:
- jump server ou bastion host;
- servidores de transferência controlada;
- réplicas de historiadores;
- proxy de atualização;
- serviços de autenticação específicos;
- coletores de logs;
- ferramentas de monitoramento;
- gateways de aplicação.
A DMZ não deve ser apenas uma VLAN com nome diferente. Ela precisa possuir fronteiras controladas, políticas distintas, regras mínimas, monitoramento e procedimentos de administração.
Em casos nos quais o fluxo precisa ocorrer somente da OT para ambientes superiores, gateways unidirecionais podem ser considerados. A decisão depende dos serviços requeridos, da necessidade de comandos ou manutenção e da análise de risco.
Identidades, perfis e menor privilégio
Acesso a ativos OT deve ser concedido com base em função, necessidade e período. Operadores, engenheiros, administradores, auditores e fornecedores não precisam das mesmas permissões.
O projeto deve definir:
- identidades individuais sempre que tecnicamente viável;
- perfis de acesso por função;
- contas administrativas separadas das contas de uso comum;
- contas técnicas com proprietário e finalidade;
- processos de concessão, revisão e revogação;
- tratamento de contas de emergência;
- proteção e rotação de segredos;
- registro das ações privilegiadas.
Contas compartilhadas reduzem a rastreabilidade. Quando um equipamento legado não permite identidades individuais, controles compensatórios podem incluir cofre de senhas, registro de retirada, supervisão da sessão, aprovação prévia e correlação com ordem de serviço.
A autenticação corporativa não deve ser aplicada automaticamente a todos os níveis. Uma dependência direta da rede OT em serviços corporativos pode comprometer a disponibilidade. A arquitetura precisa decidir quais serviços serão locais, replicados ou isolados.
Estações de engenharia
A estação de engenharia possui autoridade elevada porque pode alterar ajustes, lógicas, arquivos SCL, configurações de rede e parâmetros de dispositivos. Ela deve ser tratada como ativo crítico, não como notebook convencional de manutenção.
Controles possíveis incluem:
- uso dedicado à função;
- inventário de softwares e versões;
- bloqueio de aplicações não autorizadas;
- controle de mídias removíveis;
- proteção contra malware compatível com o ambiente;
- autenticação forte;
- backups das configurações antes e depois das mudanças;
- registro de quem alterou, o que alterou e por qual ordem de serviço;
- acesso somente às zonas necessárias;
- armazenamento controlado de arquivos e credenciais;
- verificação antes de conectar a diferentes subestações.
Quando notebooks de fornecedores são permitidos, o contrato precisa definir requisitos mínimos, validação, ferramentas autorizadas, acesso à internet, proteção contra malware e procedimento de quarentena.
Acesso remoto de operadores e fornecedores
O acesso remoto atravessa a fronteira física da subestação. Uma VPN, isoladamente, não resolve identidade, autorização, duração, destino, registro e revogação.
Uma arquitetura robusta pode incluir:
1. solicitação vinculada a chamado ou ordem de serviço; 2. aprovação operacional e técnica; 3. autenticação multifator na entrada remota; 4. acesso a jump server na DMZ OT; 5. autorização somente para ativos e protocolos necessários; 6. janela de tempo definida; 7. monitoramento e registro da sessão; 8. encerramento automático ao fim da atividade; 9. validação da configuração alterada; 10. revogação imediata após conclusão ou término contratual.
Conexões permanentes de fabricantes, modems esquecidos, softwares de suporte não inventariados e regras amplas de VPN constituem riscos recorrentes. O inventário deve incluir todos os caminhos remotos, inclusive soluções de nuvem, links celulares e ferramentas embutidas em equipamentos.
A manutenção remota também precisa de modo degradado. A subestação não pode depender da disponibilidade do acesso do fornecedor para executar funções essenciais ou restaurar uma configuração básica.
Hardening de IEDs, relés, switches e gateways
Hardening é a definição e aplicação de uma configuração de referência que reduz a superfície de ataque sem impedir a função operacional.
IEDs e relés
- alterar credenciais padrão;
- criar perfis conforme as capacidades do equipamento;
- desabilitar serviços e portas não utilizados;
- controlar interfaces locais, frontais e de manutenção;
- proteger arquivos de ajuste e firmware;
- configurar registros e alarmes disponíveis;
- documentar modos de operação e chaves físicas;
- validar impacto sobre proteção e comunicação.
Switches e roteadores
- desativar portas não utilizadas;
- limitar VLANs permitidas em cada porta;
- controlar troncos e interfaces de gerenciamento;
- utilizar protocolos de gestão seguros quando suportados;
- restringir origem da administração;
- configurar logs, horário e monitoração;
- proteger configurações e backups;
- documentar multicast, QoS, redundância e rotas.
Servidores e estações
- instalação mínima;
- serviços necessários apenas;
- firewall local compatível;
- contas de serviço com menor privilégio;
- controle de aplicativos;
- atualizações testadas;
- proteção de banco de dados e históricos;
- backup e restauração verificados.
Uma baseline precisa identificar quais requisitos são obrigatórios, recomendados ou não aplicáveis. Exceções devem possuir justificativa, risco, controle compensatório e aprovação.
Gestão de firmware, patches e vulnerabilidades
Atualizar imediatamente qualquer ativo pode ser tão arriscado quanto nunca atualizar. O processo deve combinar inteligência de vulnerabilidades, análise de aplicabilidade e validação operacional.
Etapas recomendadas:
1. receber avisos de fabricantes, CISA, bases de vulnerabilidade e fontes setoriais; 2. identificar modelos, versões e ativos afetados; 3. avaliar exposição, função, consequência e existência de exploração; 4. consultar compatibilidade e dependências; 5. testar em ambiente representativo; 6. planejar janela, backup e retorno; 7. aplicar e validar funções; 8. registrar evidências e atualizar inventário; 9. implementar controle compensatório quando a correção não puder ser aplicada.
Controles compensatórios podem envolver segmentação adicional, restrição de acesso, bloqueio de serviço vulnerável, monitoração específica ou substituição planejada. Eles não devem se tornar desculpa permanente para manter ativos sem suporte.
O programa também precisa tratar fim de vida. Fabricantes e integradores devem informar períodos de suporte, política de vulnerabilidades, disponibilidade de firmware e requisitos de atualização.
Certificados, chaves e sincronismo
Certificados e chaves podem autenticar dispositivos, usuários e comunicações, mas introduzem uma infraestrutura que precisa ser operada.
O projeto deve definir:
- autoridade emissora e cadeia de confiança;
- inventário de certificados;
- responsáveis por emissão e renovação;
- armazenamento de chaves privadas;
- tratamento de expiração e revogação;
- reposição de equipamento;
- recuperação após perda de configuração;
- impacto de relógio incorreto sobre validação.
O sincronismo também sustenta eventos, registros e investigação. Fontes de tempo, caminhos principal e alternativo, holdover, alarmes e segurança da distribuição precisam ser documentados. A alteração indevida do tempo pode prejudicar correlação de eventos e rastreabilidade.
Logs, monitoramento e detecção
A monitoração deve combinar contexto operacional e cibernético. Em redes OT, o tráfego tende a ser mais previsível que em redes corporativas, o que favorece a criação de baselines.
Fontes possíveis incluem:
- firewalls e roteadores;
- switches;
- servidores e estações;
- IEDs e gateways que suportem registro;
- sistemas SCADA e SDSC;
- controle de acesso físico;
- sistemas de acesso remoto;
- antivírus, allowlisting e ferramentas de integridade;
- plataformas de gestão e inventário.
Eventos relevantes:
- autenticação bem-sucedida ou negada;
- criação e alteração de contas;
- mudança de configuração;
- atualização de firmware;
- alteração de regra de firewall;
- conexão de dispositivo;
- perda ou retorno de comunicação;
- mudança de rota ou redundância;
- falha de sincronismo;
- tráfego novo entre ativos;
- uso de protocolo não previsto;
- reinicialização e perda de recurso.
A coleta passiva por TAP ou SPAN costuma ser preferível como ponto inicial. Respostas automáticas de IPS precisam ser cuidadosamente avaliadas, porque um bloqueio incorreto pode afetar comunicações críticas.
Integração com SIEM ou SOC é possível, mas os casos de uso devem considerar a semântica da OT. Uma rajada GOOSE legítima, uma comutação de PRP ou uma sequência de eventos operacionais não deve ser interpretada sem contexto.
Backup, restauração e continuidade
Backup precisa abranger mais que arquivos de servidor. A recuperação pode depender de:
- ajustes e firmware de IEDs;
- projetos de automação e arquivos SCL;
- configurações de switches, roteadores e firewalls;
- bases de dados e listas de pontos;
- certificados e documentação de chaves;
- imagens de sistemas e instaladores;
- licenças;
- versões compatíveis de ferramentas de engenharia;
- diagramas, inventários e procedimentos.
As cópias precisam ser protegidas contra alteração e indisponibilidade. Ao menos uma parcela deve permanecer separada do ambiente operacional para resistir a incidentes destrutivos.
A restauração deve ser testada. O teste precisa responder:
- o arquivo está íntegro;
- existe ferramenta compatível para abri-lo;
- a versão pode ser carregada no equipamento;
- licenças e certificados estão disponíveis;
- a sequência de recuperação está documentada;
- o tempo de restauração atende à necessidade operacional.
Continuidade também envolve operação degradada. Procedimentos precisam indicar como a subestação será operada durante perda de SCADA, WAN, servidor, sincronismo, estação de engenharia ou parte da monitoração cibernética.
Resposta a incidentes em ambientes OT
O plano de resposta deve ser elaborado antes do incidente. A contenção de TI baseada em desligar ou isolar imediatamente um equipamento pode ser inadequada quando o ativo sustenta proteção, controle ou segurança.
O procedimento deve definir:
- classificação do incidente;
- funções e autoridades;
- contatos de operação, proteção, automação, telecom, TI e fornecedores;
- critérios para isolamento;
- preservação de evidências;
- comunicação interna e externa;
- operação segura durante a resposta;
- restauração e validação;
- retorno à condição normal;
- análise de causa e melhoria.
Cenários úteis para exercícios incluem:
- credencial de fornecedor comprometida;
- malware em estação de engenharia;
- mudança não autorizada em relé;
- perda de visibilidade no centro de operação;
- tráfego anormal na rede de estação;
- indisponibilidade de servidor SCADA;
- comprometimento de VPN;
- ransomware em ambiente corporativo com risco de propagação para OT;
- perda de configuração de switch ou firewall.
Exercícios de mesa permitem verificar decisões e responsabilidades sem impactar a instalação. Testes técnicos precisam ser planejados para não interromper funções ativas.
Segurança física e cibersegurança
A fronteira cibernética pode ser ultrapassada fisicamente. Portas de switch, interfaces seriais, USB, painéis, racks, caixas de emenda e equipamentos em locais remotos precisam de proteção proporcional à criticidade.
A integração com controle de acesso, intrusão e CFTV pode ajudar a correlacionar:
- entrada de pessoa em sala técnica;
- abertura de painel;
- conexão de equipamento;
- início de sessão administrativa;
- alteração de configuração;
- saída do local.
Os próprios sistemas de segurança física são ativos conectados. Câmeras, controladoras e painéis não devem criar uma ponte não controlada para redes de automação. Vídeo operativo e segurança patrimonial devem possuir fluxos e zonas definidos.
Segurança de fornecedores e cadeia de suprimentos
Subestações dependem de fabricantes, integradores, desenvolvedores e prestadores de manutenção. O risco não termina na entrega do equipamento.
Requisitos contratuais podem incluir:
- práticas de desenvolvimento seguro;
- processo de divulgação de vulnerabilidades;
- prazo de comunicação ao contratante;
- política de patches e firmware;
- período de suporte e fim de vida;
- composição de software ou SBOM quando aplicável;
- contas e acessos necessários;
- proteção dos ambientes de desenvolvimento e suporte;
- controle de subcontratados;
- devolução ou eliminação de dados;
- transferência de configurações, senhas e certificados;
- apoio durante incidentes;
- evidências de testes de segurança.
Um produto certificado ou com recursos de segurança não garante, sozinho, que a instalação alcançará o nível pretendido. A segurança resulta da combinação entre capacidades do componente, arquitetura, configuração, processos e operação.
Projeto e documentação de cibersegurança OT
A contratação precisa resultar em documentos utilizáveis pela implantação, operação e fiscalização.
Entre os entregáveis possíveis estão:
- definição de escopo e fronteiras;
- inventário de ativos OT;
- classificação de criticidade;
- matriz de riscos e tratamento;
- arquitetura de referência;
- mapa de zonas e conduítes;
- matriz de fluxos autorizados;
- tabela de portas e protocolos;
- matriz de acessos e perfis;
- política de acesso remoto;
- baseline de hardening por família de ativo;
- requisitos de logs e monitoramento;
- estratégia de certificados e chaves;
- plano de vulnerabilidades e atualizações;
- estratégia de backup e recuperação;
- plano de resposta a incidentes;
- requisitos de fornecedores;
- especificações para aquisição;
- plano de modernização;
- roteiros de FAT e SAT;
- matriz de testes e critérios de aceite;
- documentação as-built.
O projeto deve identificar claramente o que pertence à concessionária, ao integrador de automação, ao fornecedor de telecomunicações, ao fabricante de relés e à equipe de cibersegurança. Interfaces indefinidas tendem a gerar lacunas.
Modernização de subestações existentes
Em instalações existentes, a implantação deve começar por diagnóstico e plano de transição. Equipamentos legados podem não suportar autenticação individual, criptografia, logs ou firmware atual.
A modernização precisa considerar:
- indisponibilidades permitidas;
- sequência de migração;
- coexistência entre equipamentos novos e antigos;
- janelas de desligamento;
- controles compensatórios;
- retorno à condição anterior;
- atualização dos centros de operação;
- compatibilidade de ferramentas;
- treinamento das equipes;
- revisão de procedimentos.
A segmentação pode ser implantada progressivamente, começando por fronteiras críticas, acessos remotos e caminhos entre TI e OT. O objetivo é reduzir risco sem criar uma transformação inviável ou uma arquitetura paralela impossível de manter.
FAT, SAT e comissionamento cibernético
Controles de segurança precisam ser testados como parte do sistema. O FAT pode verificar configurações, perfis, fluxos, hardening, logs, backups e comportamento de componentes antes da instalação. O SAT valida a arquitetura real, incluindo enlaces, endereços, regras, integrações e condições de campo.
Uma matriz de testes pode incluir:
| Domínio | Verificação |
| Inventário | modelo, versão, endereço, função e responsável conferem com o projeto |
| Zonas | ativos estão conectados às zonas previstas e não existem caminhos alternativos |
| Fluxos | somente portas, protocolos, origens e destinos aprovados são permitidos |
| Identidades | perfis, contas administrativas, contas técnicas e revogações funcionam |
| Acesso remoto | MFA, aprovação, jump server, limitação temporal e logs são comprovados |
| Hardening | serviços desnecessários, credenciais padrão e portas não utilizadas foram tratados |
| Redundância | falhas de links, equipamentos e fontes não eliminam funções críticas |
| Desempenho | controles não degradam GOOSE, SV, teleproteção, SCADA ou sincronismo além do permitido |
| Monitoramento | eventos são gerados, transportados, sincronizados e interpretados corretamente |
| Backup | configurações são exportadas, protegidas e restauradas em ambiente controlado |
| Incidentes | procedimentos, contatos e operação degradada são exercitados |
| Documentação | diagramas, matrizes, configurações e relatórios refletem a instalação final |
Testes ativos, varreduras e simulações precisam ser autorizados e avaliados quanto ao risco. Em produção, ferramentas inadequadas podem travar controladores ou degradar comunicações.
Controles declarados em projeto precisam ser comprovados em FAT, SAT e operação assistida.
Os testes devem validar segmentação, perfis, acesso remoto, hardening, logs, redundância, recuperação e o impacto dos controles sobre GOOSE, SV, teleproteção, SCADA e sincronismo.
Critérios de aceite e dossiê técnico
Cada requisito deve estar associado a método, resultado esperado, tolerância e evidência. Declarações como “rede segmentada” ou “acesso seguro” são insuficientes sem demonstração.
O dossiê pode reunir:
- matriz de requisitos e rastreabilidade;
- diagramas aprovados e as-built;
- inventário final;
- configurações exportadas;
- relatório de regras e fluxos;
- lista de contas e perfis;
- evidências de hardening;
- resultados de FAT e SAT;
- medições de desempenho;
- testes de redundância e recuperação;
- registros de acesso remoto;
- backups e relatório de restauração;
- pendências, riscos aceitos e planos de ação;
- termos de aceite.
Pendências de cibersegurança precisam possuir responsável, prazo, impacto e controle temporário. A energização ou entrada em operação não deveria apagar a rastreabilidade dessas pendências.
Owner’s Engineering em programas de subestações
Em programas com várias subestações e fornecedores, o Owner’s Engineering pode atuar na governança das interfaces e na verificação independente dos requisitos.
Atividades possíveis:
- revisar arquitetura e especificações;
- verificar aderência a padrões corporativos;
- analisar propostas técnicas;
- coordenar proteção, automação, telecom e cibersegurança;
- controlar documentos e revisões;
- acompanhar FAT e SAT;
- verificar matriz de testes;
- registrar pendências e desvios;
- avaliar solicitações de mudança;
- consolidar evidências de aceite;
- acompanhar riscos residuais.
Essa função é particularmente útil quando cada fornecedor comprova apenas seu equipamento, mas ninguém demonstra o comportamento integrado da subestação e do centro de operação.
Indicadores para operação contínua
Após o comissionamento, indicadores ajudam a demonstrar se o nível de segurança está sendo mantido.
- percentual de ativos inventariados;
- ativos sem suporte ou próximos do fim de vida;
- vulnerabilidades por criticidade e prazo;
- acessos remotos realizados e exceções;
- contas sem revisão periódica;
- mudanças não conciliadas com a baseline;
- falhas de backup ou restauração;
- fontes de logs indisponíveis;
- comunicações novas ou não autorizadas;
- tempo de detecção e tratamento de incidentes;
- controles e procedimentos testados;
- pendências de FAT e SAT ainda abertas.
O indicador não deve incentivar ações inseguras. Uma meta de aplicação rápida de patches, por exemplo, precisa considerar teste, janela e impacto operacional.
Erros comuns
Tratar a IEC 62443 como checklist de equipamentos
A norma estrutura risco, responsabilidades, arquitetura e ciclo de vida. Comprar firewall ou NAC não substitui inventário, fluxos, políticas e testes.
Criar VLANs sem controlar comunicações
VLANs ajudam na organização e segmentação lógica, mas não garantem, sozinhas, restrição de fluxo, identidade ou monitoração.
Aplicar práticas de TI sem avaliar a operação
Varreduras, patches, IPS e autenticação podem introduzir indisponibilidade ou latência. Cada controle precisa ser testado no contexto da função.
Conectar sistemas de apoio diretamente à rede crítica
Vídeo, acesso, manutenção, impressão, antivírus, historização e serviços corporativos podem criar caminhos não planejados.
Manter acesso permanente de fornecedores
Acesso sem aprovação, duração, registro e revogação amplia a superfície de ataque e reduz a responsabilização.
Não conhecer os ativos existentes
Sem modelo, versão, firmware, função e responsável, não é possível avaliar vulnerabilidade, suporte ou impacto.
Confundir redundância com independência
Dois sistemas que compartilham switch, fonte, cabo, servidor ou credencial podem falhar simultaneamente.
Testar apenas a configuração nominal
O aceite precisa incluir perda de link, falha de autenticação, indisponibilidade de serviço, restauração, comutação e operação degradada.
Encerrar o programa após a implantação
O nível alcançado diminui com o tempo. Auditoria, vulnerabilidades, mudanças, treinamento e revalidação precisam continuar.
Trilhas de aprofundamento em cibersegurança OT
A IEC 62443 fornece a arquitetura de risco, zonas, conduítes e ciclo de vida. Os controles específicos podem ser aprofundados nas trilhas abaixo.
Identidade e acesso
Monitoramento e proteção
- SIEM em ambientes OT
- EDR e XDR em servidores SCADA e estações de engenharia
- SNMPv3 e monitoramento da infraestrutura
Protocolos e arquitetura
- IEC 62351 para IEC 61850, IEC 104 e DNP3
- DMZ entre redes TI e OT
- Hardening de servidores, endpoints e ativos OT
- Subestação digital e IEC 61850
- Telecomunicações operacionais em subestações
Como contratar um projeto de cibersegurança para subestações
O termo de referência deve informar:
- tipos e quantidade de instalações;
- estágio dos projetos ou condição do legado;
- arquitetura corporativa existente;
- padrões de proteção, automação e telecomunicações;
- sistemas e protocolos envolvidos;
- centros de operação e integrações;
- requisitos de acesso remoto;
- fornecedores existentes;
- restrições de janela e indisponibilidade;
- entregáveis e formatos;
- responsabilidades por implantação;
- testes e critérios de aceite;
- necessidade de apoio à aquisição, fiscalização ou Owner’s Engineering.
Propostas devem ser comparadas pelo método e pelos produtos de engenharia, não apenas pela quantidade de equipamentos de segurança. O contratante precisa saber quem realizará o levantamento, como riscos serão avaliados, quais documentos serão produzidos e como os controles serão testados.
Conclusão
Aplicar a IEC 62443 em subestações significa transformar riscos operacionais em decisões de arquitetura, responsabilidades, controles e evidências. O resultado não é uma rede isolada de forma indiscriminada, mas uma infraestrutura na qual cada ativo é conhecido, cada comunicação possui finalidade, cada acesso possui autoridade e cada mudança pode ser rastreada.
A segurança precisa preservar proteção, controle, telecomunicações e operação. Por isso, o projeto deve integrar engenharia elétrica, automação, redes, cibersegurança, segurança física e operação desde a definição dos requisitos até o comissionamento.
Zonas e conduítes oferecem uma linguagem para organizar essa arquitetura. Inventário, matriz de fluxos, acesso remoto controlado, hardening, monitoramento, recuperação e testes completam o ciclo. A manutenção contínua garante que o nível alcançado não se perca com vulnerabilidades, mudanças e obsolescência.
Referências técnicas
[1] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT IEC/TS 62443-1-1:2023 — Segurança para sistemas de automação e controle industriais — Parte 1-1: Terminologia, conceitos e modelos.
[2] NATIONAL INSTITUTE OF STANDARDS AND TECHNOLOGY. NIST SP 800-82 Rev. 3 — Guide to Operational Technology (OT) Security. 2023.
[3] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 16932:2020 — Redes e sistemas de comunicação para automação de sistemas de potência — Orientações sobre engenharia de rede.
[4] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR IEC 61850-10:2018 — Redes e sistemas de comunicação para automação de sistemas de potência — Parte 10: Ensaios de conformidade.
[5] NATIONAL INSTITUTE OF STANDARDS AND TECHNOLOGY. NIST CSWP 28 — Security Segmentation in a Small Manufacturing Environment.
Perguntas frequentes
É uma família de documentos para cibersegurança de sistemas industriais de automação e controle. Ela trata de conceitos, programas de segurança, avaliação de riscos, requisitos de sistemas, prestadores de serviços e componentes.
Não de forma universal. Documentos técnicos são normalmente voluntários, mas podem se tornar requisitos quando incorporados a contratos, padrões corporativos, editais, regulamentos ou outros instrumentos aplicáveis.
Uma zona agrupa ativos que compartilham requisitos de segurança. Um conduíte agrupa e protege as comunicações dentro de uma zona ou entre zonas, incluindo canais, equipamentos, regras e mecanismos de controle.
Não. A VLAN pode colaborar com a separação lógica, mas a zona também precisa de fronteira, política, controle de fluxos, gestão de acesso, monitoramento, responsáveis e critérios de teste.
A IEC 62443 estrutura a segurança de sistemas industriais, seu ciclo de vida, riscos, zonas e requisitos. A IEC 62351 se concentra na segurança de dados e comunicações utilizados em sistemas de potência. Elas são complementares.
O acesso deve ser aprovado, autenticado com mecanismos fortes, limitado aos ativos necessários, preferencialmente intermediado por jump server ou bastion, registrado, temporário e revogado ao término da atividade.
Nem sempre. Patches precisam ser avaliados e testados quanto à compatibilidade, desempenho e segurança operacional. Quando não podem ser aplicados, devem ser adotados controles compensatórios e um plano de correção ou substituição.
A monitoração passiva por TAP ou SPAN costuma ser o ponto inicial mais seguro. Ferramentas ativas e respostas automáticas precisam ser avaliadas e testadas para não degradar comunicações críticas.
O compartilhamento não deve ser presumido. Vídeo, segurança física e automação possuem requisitos diferentes e devem ser separados por zonas e fluxos controlados conforme a análise de risco.
Devem ser verificados inventário, zonas, fluxos, perfis, acesso remoto, hardening, logs, redundância, desempenho, backup, recuperação, falhas e aderência da documentação à instalação real.
O Owner’s Engineering pode revisar requisitos, coordenar interfaces, analisar propostas, fiscalizar fornecedores, acompanhar testes, controlar pendências e consolidar evidências para o aceite técnico.
Entre os principais estão inventário, matriz de riscos, arquitetura, mapa de zonas e conduítes, matriz de fluxos, perfis de acesso, baseline de hardening, política de acesso remoto, plano de vulnerabilidades, monitoramento, backup, incidentes e testes.
Materiais técnicos complementares
Soluções
- Redes Industriais
- Network Access Control (NAC)
- Centro de Operações de Segurança (SOC)
- Zabbix — Monitoramento de Infraestrutura
Serviços de engenharia
- Projeto de Telecomunicações
- Integração de Sistemas
- Comissionamento e Aceite Técnico de Instalações Elétricas
- Compatibilização de Projetos
Materiais técnicos complementares
