Como orçar, medir e pagar mobilização e desmobilização de obra segundo o TCU, com memória de cálculo, logística, critérios de medição e controle de duplicidades.
Confira!
Mobilização e desmobilização de obra são custos identificáveis da execução e, em orçamento público, devem ser tratados de forma transparente, mensurável e separada de rubricas como BDI, administração local e instalação do canteiro. O entendimento consolidado do TCU é que mobilização, desmobilização, canteiro e administração local, por serem passíveis de identificação, mensuração e discriminação, devem constar da planilha de custos diretos e estar sujeitos a critérios próprios de medição e pagamento.
A mobilização corresponde ao conjunto de operações necessárias para colocar a estrutura produtiva em condição de iniciar os serviços: transporte de máquinas e equipamentos, deslocamento de recursos especializados, preparação logística, carga e descarga e outras ações diretamente vinculadas à entrada em operação. A desmobilização percorre o caminho inverso ao final ou na redução programada das frentes de serviço: retirada de equipamentos, transporte de retorno, desmontagens, remoção de instalações temporárias quando pertencentes à rubrica e encerramento das estruturas mobilizadas.
O erro mais frequente é tratar essas parcelas como percentual genérico sobre o valor da obra. Esse método enfraquece a rastreabilidade porque não demonstra quais recursos serão transportados, de onde partem, quantas viagens serão necessárias, qual o meio de transporte, quais distâncias e quais eventos geram pagamento. O orçamento auditável parte da logística real do empreendimento e transforma cada premissa relevante em memória de cálculo.
Por que mobilização e desmobilização são custos diretos
Mobilização calculada por percentual esconde as variáveis que realmente formam o custo: equipamentos, origem, distância, transporte e eventos de implantação.
A engenharia de custos transforma essas premissas em uma composição rastreável, integrada ao cronograma e pronta para medição.
O Acórdão 2.622/2013-TCU-Plenário consolidou entendimento segundo o qual administração local, canteiro, mobilização e desmobilização devem ser discriminados na planilha orçamentária de custos diretos. A razão não está apenas na nomenclatura contábil. Essas parcelas podem ser vinculadas ao empreendimento, estimadas a partir de recursos concretos e controladas durante a execução.
Essa distinção é importante porque o BDI deve concentrar componentes que não se apropriam diretamente a um serviço ou evento específico da obra, como administração central, riscos empresariais, seguros, garantias, despesas financeiras, tributos sobre faturamento e remuneração, conforme a estrutura aplicável. Quando transporte inicial de uma escavadeira, guindaste ou conjunto de equipamentos é escondido no BDI, perde-se a possibilidade de verificar se o custo efetivamente existe, se foi dimensionado corretamente e se deve ser pago naquele momento.
O TCU reiterou esse entendimento em decisões posteriores, inclusive no Acórdão 1.235/2019-Plenário. Para a Administração, a consequência prática é que a mobilização deixa de ser uma verba abstrata e passa a ser um objeto de engenharia de custos: precisa de composição, unidade, quantitativo, critério de medição e evidência de execução.
O mesmo raciocínio vale para a desmobilização. Embora ocorra ao final ou em marcos de redução de estrutura, o custo deve ser previsto desde o orçamento-base. Se a planilha remunera integralmente a mobilização no início e não reserva a parcela correspondente à retirada futura dos recursos, cria-se assimetria de caixa e aumenta-se o risco de pagar antecipadamente algo que depende do encerramento efetivo da etapa ou do contrato.
O que pode compor a mobilização de uma obra
Não existe composição universal de mobilização. O conteúdo depende do tipo de empreendimento, localização, porte, método construtivo, disponibilidade regional de equipamentos, número de frentes, acessos, restrições de tráfego e estratégia de execução. A pergunta correta não é “qual percentual usar?”, mas “quais recursos precisam chegar ao local para que esta obra comece conforme o cronograma?”.
Entre os componentes que podem aparecer, conforme o caso, estão:
- transporte rodoviário de máquinas pesadas em prancha ou veículo especial;
- carga, descarga e operações auxiliares de movimentação;
- deslocamento de equipamentos autopropelidos quando tecnicamente permitido;
- transporte de equipamentos de apoio e oficinas móveis;
- deslocamento inicial de equipes especializadas quando constituir custo específico de mobilização;
- fretes especiais, balsas, travessias ou outros meios necessários ao acesso;
- seguros ou autorizações diretamente relacionados ao transporte, quando não remunerados em outra rubrica;
- escolta ou operações de tráfego para cargas excedentes, quando exigidas;
- mobilização entre bases operacionais e frentes afastadas, quando prevista como evento específico e não como custo operacional recorrente;
- recursos temporários necessários exclusivamente para colocar equipamentos em posição de trabalho.
A composição precisa excluir parcelas que já estejam remuneradas em outra parte do orçamento. Instalações físicas do canteiro podem possuir item próprio. A manutenção mensal da equipe de gestão pertence, em regra, à administração local. O transporte rotineiro de materiais integra composições de serviços ou logística operacional. O mesmo real não pode aparecer em duas rubricas apenas porque os títulos são diferentes.
Origem, destino e distância: a base da composição
Uma memória de mobilização precisa identificar a origem tecnicamente plausível dos recursos. Para equipamentos de alta disponibilidade regional, assumir transporte a partir de outro estado sem justificativa pode superestimar o custo. No sentido oposto, supor origem local para equipamento especializado inexistente na região pode subestimar a contratação.
A origem não precisa representar a futura sede do licitante vencedor. O orçamento de referência é elaborado antes da competição e deve trabalhar com premissas impessoais e justificáveis. A Administração pode utilizar pesquisa de mercado, disponibilidade regional, bases de locadores, experiências comparáveis e outras evidências para estabelecer distâncias de referência adequadas ao contexto.
O cálculo deve registrar, quando materialmente relevante:
| Variável | Evidência esperada |
| Equipamento ou recurso | relação vinculada ao método executivo |
| Quantidade | dimensionamento da frente de serviço |
| Origem de referência | estudo de disponibilidade ou pesquisa de mercado |
| Destino | canteiro, frente ou ponto de operação |
| Distância | rota de referência tecnicamente justificável |
| Meio de transporte | prancha, caminhão, carreta, balsa ou outro |
| Viagens | capacidade do transporte e quantidade mobilizada |
| Custo unitário | sistema referencial, composição ou pesquisa documentada |
| Evento de medição | comprovação de chegada e disponibilidade operacional |
Essa estrutura torna o valor revisável. Outro profissional consegue verificar se a distância faz sentido, se a quantidade de viagens corresponde aos recursos previstos e se o preço unitário possui fonte compatível.
Mobilização não é instalação de canteiro
Os dois eventos podem ocorrer no mesmo período, mas representam coisas diferentes. Mobilização é o movimento dos recursos necessários para iniciar a execução. Instalação de canteiro é a implantação da infraestrutura temporária de apoio: escritórios, almoxarifados, áreas de vivência, redes provisórias, cercamentos e demais instalações previstas para o empreendimento.
A separação evita dupla contagem. Por exemplo, transportar um contêiner-escritório até a obra pode fazer parte da mobilização, enquanto a locação, preparação, ligação elétrica e manutenção do módulo podem pertencer à instalação e manutenção do canteiro. Se a composição do canteiro já inclui frete de entrega, esse mesmo transporte não pode reaparecer na mobilização.
A administração local também precisa ser separada. O custo do engenheiro residente por 12 meses não é mobilização apenas porque o profissional chega à obra no início. Trata-se de estrutura de gestão ligada à duração. O artigo sobre administração local da obra aprofunda essa diferença e os critérios de medição da parcela.
O que compõe a desmobilização
A desmobilização deve ser pensada desde o orçamento inicial porque é consequência previsível da estratégia de implantação. Seu custo pode envolver retirada de máquinas, equipamentos, estruturas temporárias e recursos mobilizados especificamente para o empreendimento.
Nem tudo que foi mobilizado gera um custo simétrico de desmobilização. Um insumo consumido na obra não retorna. Uma instalação temporária pode ser demolida ou descartada conforme o projeto. Um equipamento locado pode ter fretes de retorno previstos no contrato de locação. Por isso, simplesmente duplicar o custo de mobilização não é um método adequado.
A composição deve analisar item a item:
- quais recursos permanecerão até o encerramento;
- quais serão retirados progressivamente;
- quais possuem transporte de retorno;
- quais exigem desmontagem antes do transporte;
- quais instalações temporárias precisam ser removidas;
- quais custos de restauração da área estão previstos em outras composições;
- quais obrigações ambientais ou operacionais influenciam a retirada;
- em qual marco contratual cada parcela se torna mensurável.
Em obras com múltiplas frentes, a desmobilização pode ser progressiva. Equipamentos de terraplenagem podem sair antes dos sistemas de acabamento; gruas podem ser retiradas após o fechamento de determinadas etapas; estruturas de apoio podem permanecer até o recebimento. O cronograma precisa representar essa lógica.
Como elaborar uma composição de mobilização e desmobilização
A composição deve ser construída a partir do plano executivo e do cronograma. Um método consistente pode seguir oito etapas.
1. Definir a estratégia de execução
Antes de calcular fretes, é necessário entender quais serviços serão executados, em que sequência e por quais métodos. O conjunto de equipamentos nasce da engenharia da obra. Se o orçamento mobiliza recursos incompatíveis com o método executivo, a planilha pode estar superdimensionada ou incompleta.
2. Dimensionar os recursos críticos
A relação de mobilização deve se concentrar nos recursos que geram custo específico para entrar e sair da obra. Equipamentos triviais de pequeno porte podem estar absorvidos em composições unitárias ou custos operacionais, dependendo da estrutura de orçamento. Equipamentos pesados e recursos especializados tendem a exigir tratamento explícito.
3. Estabelecer a origem de referência
A Administração precisa construir uma hipótese impessoal de disponibilidade. Pesquisa de mercado e dados regionais ajudam a evitar premissas arbitrárias. A origem deve ser documentada e revisável.
4. Definir a logística de transporte
Peso, dimensões, restrições viárias, necessidade de veículo especial, número de viagens, carga e descarga e eventuais autorizações precisam ser avaliados. Um custo por quilômetro sem demonstrar o tipo de transporte pode ser insuficiente.
5. Separar ida e retorno
Mobilização e desmobilização são eventos diferentes. O custo de retorno pode variar em relação à ida por disponibilidade de transportador, desmontagem, condições da carga ou consumo do recurso durante a obra.
6. Verificar sobreposições
A equipe deve confrontar mobilização com canteiro, administração local, composições auxiliares, equipamentos produtivos e BDI. O objetivo é eliminar dupla remuneração.
7. Definir critérios de medição
Cada item deve indicar o que comprova o evento. A chegada física de um equipamento pode ser suficiente em alguns casos; em outros, é necessário comprovar instalação e disponibilidade operacional. Para desmobilização, a evidência pode incluir retirada, liberação de área e cumprimento das obrigações vinculadas ao evento.
8. Vincular ao cronograma físico-financeiro
A mobilização não deve gerar desembolso desconectado do início real das atividades, nem a desmobilização ser paga antes do evento correspondente. O cronograma financeiro precisa acompanhar a lógica física.
Como medir e pagar mobilização
Critérios de medição mal definidos permitem pagar mobilização antes da chegada dos recursos ou deixar a desmobilização sem marco objetivo.
A revisão técnica do edital testa a coerência entre planilha, cronograma, critérios de medição e obrigações contratuais antes da licitação.
O critério de medição deve evitar tanto o pagamento genérico quanto a burocracia impossível de operacionalizar. O edital e a planilha podem decompor a mobilização em itens ou marcos verificáveis, de acordo com a materialidade.
Em uma obra com cinco equipamentos principais, por exemplo, o item pode ser medido pela comprovação da chegada e disponibilidade dos recursos previstos. Em um empreendimento com dezenas de equipamentos e múltiplas frentes, pode ser necessário organizar grupos por etapa de mobilização.
O critério deve impedir duas situações problemáticas. A primeira é pagar 100% da mobilização na assinatura do contrato, antes de qualquer recurso chegar à obra. A segunda é exigir prova tão detalhada de pequenas despesas que o custo administrativo de medir seja desproporcional ao risco.
Uma matriz simples pode relacionar:
| Evento | Evidência | Momento de pagamento |
| Transporte de equipamento crítico | registro de chegada e identificação | após chegada ao local |
| Montagem necessária à operação | checklist de disponibilidade | após conclusão da montagem |
| Mobilização de frente adicional | autorização e implantação | quando a frente estiver operacional |
| Retirada de equipamento | registro de saída | após desmobilização comprovada |
| Encerramento de estrutura temporária | liberação/restauração prevista | após cumprimento do marco |
O instrumento contratual deve dizer com clareza se a unidade é global, unidade, viagem ou outra forma mensurável. O detalhamento deve ser suficiente para demonstrar o preço e o critério de medição.
O risco do pagamento antecipado
Mobilização costuma ocorrer no início da curva financeira, exatamente quando o contrato ainda possui pouco avanço físico. Isso exige controle porque um valor excessivo nessa fase pode produzir adiantamento econômico disfarçado.
Se a mobilização foi superestimada e paga integralmente nos primeiros dias, a contratada recebe parcela relevante antes de executar os serviços principais. Em caso de abandono ou rescisão, a Administração fica mais exposta. Por isso, a composição precisa representar custos reais e o pagamento deve estar ligado a eventos comprovados.
A mesma cautela explica por que a desmobilização não deve ser integralmente antecipada. Reservar parcela para o encerramento mantém coerência com a obrigação futura e evita que a retirada de equipamentos fique sem contrapartida financeira específica.
Mobilização e cronograma da obra
O plano de mobilização é também uma ferramenta de planejamento. A obra só pode iniciar determinadas atividades quando recursos, equipes e instalações necessárias estiverem disponíveis. Se o cronograma prevê início de terraplenagem no primeiro dia, mas o equipamento principal necessita de dez dias entre contratação do transporte, autorização de tráfego e deslocamento, existe uma incompatibilidade de planejamento.
A mobilização precisa aparecer no caminho de implantação. Em obras complexas, convém distinguir:
- mobilização preliminar para reconhecimento, locação e preparação;
- mobilização principal para início das frentes produtivas;
- mobilizações complementares associadas a etapas específicas;
- desmobilizações parciais ao término de frentes;
- desmobilização final e encerramento.
Essa estrutura permite analisar atrasos de forma mais precisa. Nem todo atraso inicial é baixa produtividade: pode decorrer de mobilização incompleta. Da mesma forma, uma extensão de prazo não necessariamente gera nova mobilização integral, mas pode criar remobilização se uma frente já retirada precisar retornar.
Remobilização não deve ser confundida com mobilização inicial
Remobilização ocorre quando recursos precisam retornar ao empreendimento após terem sido retirados, ou quando uma interrupção exige nova operação logística relevante. Esse evento não é automático em toda prorrogação de prazo.
Para reconhecer custo adicional, é necessário demonstrar causa, responsabilidade, necessidade técnica, recursos efetivamente remobilizados e ausência de remuneração no contrato original. Se o equipamento permaneceu no canteiro durante a prorrogação, não existe novo transporte de mobilização. Pode haver custo de permanência, o que pertence a outra análise.
Em pleitos contratuais, essa distinção é decisiva. Uma planilha que mistura permanência de equipamento, ociosidade, administração local e remobilização dificulta a verificação do nexo causal e aumenta o risco de duplicidade.
Mobilização em obras remotas e de infraestrutura
Quanto mais remota a obra, maior a necessidade de engenharia logística. Distância, acesso sazonal, estradas não pavimentadas, pontes com restrição de carga, travessias, clima, disponibilidade de combustível e necessidade de bases intermediárias podem alterar substancialmente o custo.
Nesses casos, uma rota digital simples pode não ser suficiente. O orçamento precisa considerar a viabilidade física do transporte. Um trajeto aparentemente menor pode ser inviável para carreta de grande porte. Uma ponte pode limitar peso. Uma estrada pode exigir janela sazonal. A pesquisa de mercado deve verificar transportadores e equipamentos disponíveis para aquela condição.
O mesmo vale para obras urbanas complexas. Restrições de horário, escolta, bloqueio parcial de vias, içamento e armazenamento temporário podem gerar custos relevantes mesmo em pequenas distâncias.
Exemplo de memória de cálculo
Considere uma obra que necessite mobilizar duas escavadeiras, um rolo compactador e uma motoniveladora. O orçamento identifica que esses equipamentos serão transportados por prancha a partir de uma base regional de referência situada a 180 km do empreendimento.
A memória deve registrar quantos equipamentos podem ser transportados por viagem, custo do veículo por quilômetro ou por viagem, pedágios quando cabíveis, carga e descarga, eventual retorno vazio e demais premissas. Se quatro viagens são necessárias, o cálculo não pode usar simplesmente quatro vezes um valor estimado sem explicar como o valor unitário foi formado.
Na desmobilização, a equipe verifica que o rolo será retirado após a conclusão da compactação, enquanto os demais equipamentos saem em outro momento. O cronograma financeiro então distribui os eventos em vez de concentrar toda a desmobilização no recebimento final.
O valor total pode até coincidir com um percentual historicamente observado em obras similares, mas o percentual passa a ser apenas uma comparação de razoabilidade — não a base primária do cálculo.
Como revisar uma planilha de mobilização
Uma revisão independente deve testar pelo menos cinco dimensões: necessidade, quantidade, logística, preço e temporalidade.
Necessidade: cada recurso está vinculado a uma atividade real do projeto?
Quantidade: o número de equipamentos corresponde às frentes simultâneas e produtividades previstas?
Logística: origem, distância, veículo e número de viagens são plausíveis?
Preço: custos unitários possuem fonte, data-base e condições comparáveis?
Temporalidade: o evento de pagamento acompanha a chegada ou retirada efetiva do recurso?
A revisão também deve confrontar mobilização com a Curva ABC do orçamento. Se a rubrica assume participação materialmente elevada no valor global, exige análise mais aprofundada. Valores atípicos podem indicar condições logísticas reais, mas precisam ser demonstrados.
Relação com SINAPI, SICRO e composições próprias
Sistemas referenciais podem oferecer composições ou parâmetros aplicáveis a determinadas operações de transporte e mobilização, especialmente em segmentos de infraestrutura. Porém, a composição deve ser escolhida conforme o objeto e ajustada, quando tecnicamente justificável, às condições locais e de projeto.
O artigo sobre composições SINAPI e ajustes auditáveis mostra por que a referência não deve ser copiada sem verificar aderência. Para mobilização, a mesma lógica se aplica: a composição precisa representar o equipamento, o meio de transporte, a distância e as condições reais utilizadas no orçamento.
Quando não houver referência adequada, uma composição própria pode ser mais transparente. Ela deve preservar memória de cálculo e fontes de preços. O Decreto nº 7.983/2013 fornece a moldura de orçamento de referência para obras e serviços de engenharia executados com recursos da União e reforça a necessidade de metodologia controlável.
O que deve constar no edital e nos anexos
A planilha sozinha não resolve a contratação. O termo de referência, projeto, critérios de medição, cronograma e minuta contratual precisam ser coerentes com a forma de remuneração.
É recomendável que os documentos indiquem, conforme o caso:
- escopo da mobilização e desmobilização;
- recursos principais considerados na referência;
- metodologia de formação do preço ou memória disponível no processo;
- unidade e quantitativo da planilha;
- eventos que caracterizam medição;
- documentos ou registros aceitos como evidência;
- tratamento de mobilizações parciais;
- regra para desmobilização final;
- relação com canteiro e administração local;
- tratamento de alterações de escopo que possam exigir nova mobilização.
O objetivo não é engessar a estratégia empresarial da licitante. O orçamento-base precisa ser tecnicamente justificável, enquanto o edital estabelece como a Administração reconhecerá e medirá a obrigação contratada.
Como a fiscalização deve controlar a mobilização
A fiscalização deve verificar o evento, não apenas a nota fiscal ou o pedido de medição. Para equipamentos relevantes, é possível registrar identificação, data de chegada, condições de disponibilidade e vínculo com a frente prevista. Fotografias, diário de obra, checklists e documentos de transporte podem compor a evidência.
O nível de controle deve ser proporcional à materialidade. Não faz sentido transformar cada ferramenta manual em item individual de mobilização. O foco são os componentes que influenciam o preço e o risco do contrato.
Na desmobilização, a fiscalização deve observar se a retirada está coerente com o estágio físico. Retirar prematuramente equipamento essencial pode indicar redução indevida da capacidade produtiva. Por outro lado, manter recurso desnecessário no canteiro não cria automaticamente direito a custo adicional se a decisão decorre da estratégia da contratada.
Mobilização em aditivos e pleitos
Alterações contratuais podem mudar a logística da obra. Uma nova frente distante, inclusão de serviço especializado ou mudança relevante de método pode exigir recursos que não faziam parte do plano inicial. Nessa hipótese, o custo adicional deve ser analisado com a mesma disciplina do orçamento original.
A memória precisa responder:
- qual fato alterou a necessidade de mobilização;
- se o fato é superveniente e contratualmente atribuível;
- quais recursos adicionais foram necessários;
- quais recursos já estavam mobilizados;
- qual distância e logística adicionais foram geradas;
- se existe sobreposição com itens contratuais já remunerados;
- qual evidência comprova o evento;
- como o novo custo impacta o equilíbrio econômico-financeiro.
Sem essa decomposição, o pleito tende a apresentar valores globais difíceis de auditar.
Erros que costumam fragilizar o orçamento
Entre os problemas recorrentes estão:
- adotar percentual fixo sobre o valor da obra sem composição;
- prever a mesma taxa de mobilização para empreendimentos com logísticas distintas;
- usar origem de equipamentos sem pesquisa ou justificativa;
- duplicar transporte já incluído em composições de serviços ou canteiro;
- pagar mobilização antes da chegada dos recursos;
- pagar desmobilização na fase inicial;
- considerar ida e retorno idênticos sem verificar a operação real;
- ignorar desmobilizações parciais previstas pelo cronograma;
- confundir permanência de equipamento com remobilização;
- usar rubrica global para absorver custos de natureza diferente;
- não atualizar a logística quando o projeto ou o método executivo muda;
- deixar critérios de medição apenas para definição durante a execução.
Esses erros não significam necessariamente dano em todo caso, mas reduzem a capacidade de demonstrar que o orçamento e os pagamentos representam a execução efetiva.
Como contratar a elaboração ou revisão dessa parcela do orçamento
O serviço de engenharia deve ser contratado com entregáveis verificáveis. Para mobilização e desmobilização, um escopo robusto pode incluir levantamento do método executivo, relação de equipamentos, pesquisa de disponibilidade, estudo logístico, memória de rotas e distâncias, composições de custo, integração com cronograma, critérios de medição e relatório de consistência.
Quando o orçamento completo ainda será elaborado, a mobilização deve integrar a engenharia de custos desde o início. Quando a planilha já existe, uma revisão independente pode verificar coerência entre projeto, orçamento, cronograma e edital antes da publicação.
Para contratos em execução, o foco muda: a fiscalização precisa controlar os eventos efetivos, enquanto eventuais remobilizações ou custos adicionais exigem análise causal e contratual específica.
Considerações finais
Mobilização e desmobilização são pequenas apenas em obras simples. Em empreendimentos remotos, intensivos em equipamentos ou com múltiplas frentes, podem assumir materialidade suficiente para alterar fluxo de caixa, preço global e risco de execução. Por isso, tratá-las como percentual de conveniência é uma simplificação inadequada.
O padrão tecnicamente defensável é construir a parcela de baixo para cima: recursos necessários, origem, distância, logística, quantidade de viagens, preço unitário, cronograma e evento de medição. A desmobilização deve ser planejada com a mesma disciplina da entrada dos recursos, preservando remuneração para o momento em que a obrigação efetivamente ocorrer.
Esse tratamento melhora o orçamento, o edital e a fiscalização. Também reduz conflitos porque deixa claro, antes da licitação, o que a Administração está remunerando e qual evidência será exigida para cada pagamento.
Na execução, mobilização e desmobilização precisam ser comprovadas por eventos físicos e registros proporcionais à materialidade.
O apoio técnico à fiscalização estrutura evidências, medições e controle das obrigações sem transformar o processo em mera conferência documental.
Apoio Técnico à Fiscalização de Obras e Contratos de Engenharia
Referências técnicas
[1] 1. BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão 2.622/2013-Plenário. Brasília: TCU, 2013. Disponível em: https://pesquisa.apps.tcu.gov.br/redireciona/acordao-completo/ACORDAO-COMPLETO-1286063
[2] 2. BRASIL. Tribunal de Contas da União. Orientações para elaboração de planilhas orçamentárias de obras públicas. Brasília: TCU, 2014. Disponível em: https://portal.tcu.gov.br/publicacoes-institucionais/cartilha-manual-ou-tutorial/orientacoes-para-elaboracao-de-planilhas-orcamentarias-de-obras-publicas
[3] 3. BRASIL. Presidência da República. Decreto nº 7.983, de 8 de abril de 2013. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/decreto/d7983.htm
[4] 4. BRASIL. Presidência da República. Lei nº 14.133, de 1º de abril de 2021. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14133.htm
[5] 5. BRASIL. Tribunal de Contas da União. Licitações e Contratos: Orientações e Jurisprudência do TCU. 5. ed. Brasília: TCU, 2025. Disponível em: https://licitacoesecontratos.tcu.gov.br/
Perguntas frequentes
Não como regra de formação do orçamento de referência. O TCU consolidou o entendimento de que mobilização e desmobilização, assim como administração local e canteiro, são custos identificáveis e mensuráveis que devem ser discriminados na planilha de custos diretos.
O cálculo deve partir dos recursos que precisam chegar à obra, suas quantidades, origem de referência, distâncias, meio de transporte, número de viagens, operações de carga e descarga e custos unitários documentados. Percentuais históricos podem servir como teste de razoabilidade, não como substituto da composição.
Não. Parte dos recursos é consumida, alguns equipamentos saem em momentos diferentes e a logística de retorno pode ter custos distintos. A desmobilização deve ser calculada a partir dos recursos efetivamente retirados e das condições de encerramento.
O critério deve estar definido no edital e vinculado a evento verificável, como chegada e disponibilidade operacional dos recursos previstos. Pagar integralmente antes da mobilização efetiva aumenta o risco de antecipação econômica.
Não automaticamente. Se os equipamentos permanecem na obra, pode existir custo de permanência, mas não novo transporte. Remobilização precisa ser demonstrada por retirada anterior, necessidade de retorno e nexo com o fato que alterou o contrato.
A planilha deve permitir rastrear equipamentos ou grupos de recursos, quantidade, origem e destino de referência, distância, meio de transporte, viagens, custos unitários, subtotais e critérios de medição, com memória de cálculo e fontes de preço.
Materiais técnicos complementares
Conteúdos principais sobre o tema
- Administração local da obra: como orçar, medir e pagar segundo o TCU
- Acórdão 2.622/2013 do TCU: BDI, faixas referenciais e como aplicar em obras públicas
Conteúdos técnicos correlatos
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