Entenda quando aplicar BDI diferenciado a materiais e equipamentos em obras públicas, os critérios da Súmula TCU 253, os parâmetros do Acórdão 2.622/2013 e como separar fornecimento e serviços.

Confira!

BDI diferenciado é a aplicação de uma taxa de Benefícios e Despesas Indiretas reduzida a determinados fornecimentos de materiais e equipamentos que, pelas características da contratação, não devem receber o mesmo BDI dos serviços de engenharia. O instituto não significa que todo equipamento de uma obra deve ter BDI menor. O entendimento do TCU exige a análise conjunta de parcelamento, natureza específica do fornecimento, especialidade própria do mercado fornecedor e materialidade do item em relação ao valor global.

A Súmula TCU 253 consolidou essa lógica e o Acórdão 2.622/2013 estabeleceu parâmetros estatísticos específicos para itens de mero fornecimento: 11,10% no primeiro quartil, 14,02% na média e 16,80% no terceiro quartil. Mais recentemente, o Acórdão 2.340/2024-Plenário reforçou que as premissas da Súmula 253 devem estar atendidas simultaneamente para exigir BDI reduzido.

O ponto central, portanto, não é identificar se existe “equipamento” na planilha. É descobrir qual é a natureza econômica e técnica daquele item dentro do objeto contratado. Um equipamento apenas adquirido e repassado pela construtora pode representar mera intermediação. Um equipamento que faz parte de um sistema cuja entrega exige engenharia, integração, montagem, programação, testes e desempenho garantido pode ter uma estrutura de custos completamente diferente.

O que é BDI diferenciado

Em um orçamento de obras, o BDI geral procura remunerar despesas indiretas, riscos, seguros, garantias, despesas financeiras, administração central, remuneração empresarial e tributos incidentes conforme a estrutura aplicável. A taxa é aplicada sobre custos diretos para formar o preço de venda.

O BDI diferenciado nasce da constatação de que determinados fornecimentos relevantes podem demandar esforço empresarial significativamente menor do que a execução dos serviços de engenharia. Quando a contratada atua essencialmente como intermediária entre Administração e fabricante ou fornecedor especializado, aplicar a mesma taxa dos serviços pode remunerar parcelas que não se manifestam com a mesma intensidade.

O TCU não trata a redução como um desconto arbitrário. A taxa diferenciada precisa ter composição própria e coerente com o fornecimento.

A Súmula TCU 253: os requisitos que precisam ser analisados

A Súmula 253 estabelece uma cadeia lógica. Antes de aplicar BDI reduzido, a Administração deve examinar a viabilidade de parcelar o fornecimento. Se o parcelamento não for técnica e economicamente viável e o item permanecer dentro da obra, a análise prossegue para a natureza e materialidade do fornecimento.

A jurisprudência mais recente do TCU sintetiza três condições que devem coexistir:

  1. O item não foi parcelado porque existe justificativa de inviabilidade técnico-econômica para contratação separada.
  2. O material ou equipamento possui natureza específica e pode ser fornecido por empresa com especialidade própria e diversa da construtora.
  3. O item representa percentual significativo do preço global, avaliado no caso concreto.

Não basta atender a apenas uma dessas condições.

Um item caro não recebe automaticamente BDI reduzido. Um equipamento especializado de baixo peso econômico também não conduz, sozinho, à aplicação. E a simples opção administrativa por contratar tudo junto não substitui a análise do parcelamento.

O primeiro teste é o parcelamento

A decisão sobre BDI diferenciado começa antes do orçamento: o ETP precisa analisar se o fornecimento relevante deve ser parcelado ou permanecer integrado à contratação principal.

Essa escolha deve comparar preço, interfaces, responsabilidades, garantia, risco e custo de gestão do contrato.

Estudo Técnico Preliminar (ETP) para Obras e Serviços de Engenharia

A discussão sobre BDI diferenciado começa antes da planilha: começa no planejamento da contratação.

A Lei nº 14.133/2021 exige que o ETP apresente justificativas para o parcelamento ou não da contratação. A legislação atual também preserva o parcelamento como princípio quando tecnicamente viável e economicamente vantajoso em compras e serviços.

Se determinado equipamento pode ser adquirido diretamente, em contratação separada, com vantagem econômica, competição adequada e sem criar risco de interface desproporcional, a Administração precisa avaliar essa alternativa.

Por outro lado, parcelar pode ser inadequado quando o fornecimento é inseparável da responsabilidade por desempenho do sistema, quando cria interfaces críticas entre contratos, quando a garantia funcional depende de integração única ou quando o custo de coordenação e os riscos superam a vantagem esperada.

A decisão deve ser demonstrada, e não presumida.

Por que parcelamento e BDI estão conectados

Imagine uma obra que inclui um equipamento de R$ 2 milhões fabricado por empresa especializada. Se a Administração pode comprá-lo diretamente por R$ 2 milhões e contratar separadamente a instalação, colocar o fornecimento dentro do contrato da construtora com BDI geral de 25% pode elevar de maneira importante o preço sem que a construtora execute atividade proporcional ao acréscimo.

Se, entretanto, a compra separada transferir à Administração riscos de especificação, compatibilidade, armazenamento, interface, garantia, logística e integração, o cenário muda. A análise deve comparar não apenas preços, mas custos totais e riscos da arquitetura contratual.

Por isso o ETP é o lugar natural para responder: adquirir separadamente ou integrar ao contrato principal?

O que significa material ou equipamento de natureza específica

Natureza específica indica que o item pertence a mercado fornecedor próprio e pode ser fornecido por empresas especializadas distintas da construtora principal.

Exemplos podem incluir, conforme o empreendimento e o arranjo contratual, elevadores, transformadores, geradores, chillers, equipamentos industriais, bombas especiais, grandes painéis, sistemas tecnológicos e outros bens de alta materialidade.

Mas a classificação não decorre do nome do equipamento. É necessário verificar como o mercado fornece aquele item e qual parcela da entrega é produto, qual parcela é serviço e qual responsabilidade permanece com a contratada principal.

Um transformador adquirido pronto de fabricante e entregue no canteiro pode possuir perfil de mero fornecimento em determinada contratação. O mesmo transformador integrado a escopo que inclui engenharia de aplicação, adaptações, proteção, intertravamentos, montagem, ensaios e energização exige separação mais cuidadosa entre fornecimento e serviços.

Percentual significativo não possui um número universal

A Súmula 253 fala em percentual significativo do preço global, mas não fixa um limiar universal.

O Acórdão 2.622/2013 destaca que a relevância deve ser avaliada no caso concreto. Isso é coerente com a lógica econômica: um mesmo percentual pode ser material em um empreendimento e pouco significativo em outro, dependendo do valor, do número de itens e do impacto do BDI sobre a contratação.

A Administração pode utilizar Curva ABC e análise de materialidade para identificar os fornecimentos que merecem exame específico.

O relatório deve mostrar o valor do item, sua participação no orçamento, diferença entre BDI geral e diferenciado e impacto financeiro resultante.

As faixas referenciais do Acórdão 2.622/2013

Para itens de mero fornecimento de materiais e equipamentos, o TCU apresentou os seguintes parâmetros:

ReferênciaBDI
1º quartil11,10%
Média14,02%
3º quartil16,80%

Essas taxas não devem ser copiadas automaticamente. São parâmetros estatísticos para comparação.

A Administração precisa estruturar a composição aplicável ao fornecimento e então confrontar o resultado com a faixa. O artigo sobre Acórdão 2.622/2013 e faixas referenciais de BDI aprofunda a interpretação dos quartis.

Por que o BDI de fornecimento tende a ser menor

Segundo o estudo do TCU, a redução se relaciona principalmente ao menor esforço de administração central e à menor remuneração associada a uma atividade de mera intermediação, além do tratamento tributário distinto quando não existe prestação de serviço sujeita ao mesmo tributo incidente sobre a execução.

Isso não significa zerar riscos, despesas financeiras ou lucro. A contratada ainda pode ter custos com aquisição, gestão comercial, garantia, financiamento, seguros, logística e administração.

O percentual deve refletir essas condições.

BDI diferenciado não é BDI zero

A contratada não está obrigada a intermediar um fornecimento sem remuneração. Mesmo em mero fornecimento existem atividades empresariais e riscos.

A taxa reduzida procura ajustar a remuneração ao esforço efetivo, não eliminar margem ou despesas indiretas.

Uma taxa arbitrariamente baixa pode ser tão inadequada quanto aplicar o BDI geral sem análise.

O erro de aplicar BDI reduzido a todo equipamento

Planilhas de obras contêm inúmeros equipamentos que são insumos normais dos serviços. Ferramentas, equipamentos auxiliares, bombas comuns, pequenos componentes, dispositivos de instalação e bens consumidos ou incorporados durante o processo construtivo não se tornam automaticamente itens sujeitos a BDI diferenciado.

O próprio Acórdão 2.622/2013 distingue equipamentos e materiais relevantes de natureza específica de insumos usualmente processados, transformados ou consumidos na execução.

O teste é econômico e funcional: existe fornecimento autônomo relevante ou o item faz parte do processo normal de produção do serviço?

Fornecimento e instalação devem estar separados na planilha

BDI diferenciado só pode ser aplicado corretamente quando o objeto separa tecnicamente equipamento, instalação, integração, testes e demais serviços.

O Projeto Básico transforma essa fronteira em escopo, quantitativos, orçamento e critérios verificáveis para a licitação.

Projeto Básico de Engenharia

Esse é um dos pontos mais importantes para aplicar BDI diferenciado corretamente.

Quando um equipamento relevante exige montagem, instalação, assentamento, integração ou outro serviço, o TCU orienta que os serviços associados sejam discriminados em itens próprios de custos diretos. O BDI reduzido incide sobre o fornecimento; os serviços recebem o tratamento correspondente ao BDI geral de engenharia.

Se a planilha contém apenas um item global “fornecimento e instalação”, não existe transparência suficiente para aplicar duas taxas diferentes.

A solução é decompor o escopo tecnicamente.

ParcelaExemploTratamento a avaliar
Equipamentofornecimento do chillerBDI diferenciado, se critérios atendidos
Transporte específicofrete até o localcomposição conforme responsabilidade
Montagemposicionamento e montagemcusto direto + BDI de serviço
Interligaçõeshidráulica/elétrica/controlecusto direto + BDI de serviço
Integraçãoautomação e comunicaçãocusto direto + BDI de serviço
Testesstart-up e testes funcionaiscusto direto + BDI de serviço
Comissionamentoverificação de desempenhocusto direto + tratamento da contratação

Essa separação também melhora medição, aceite e controle de alterações.

Exemplo: elevadores

Elevadores são frequentemente citados porque podem reunir equipamento de alto valor fornecido por fabricante especializado e serviços de instalação específicos.

A análise não deve concluir automaticamente que todo o item recebe BDI reduzido. É necessário separar o valor do equipamento dos serviços de montagem, instalação, ajustes, testes e demais atividades.

Se a construtora apenas intermedeia o equipamento, o fornecimento pode preencher os critérios do BDI diferenciado. Se o escopo está estruturado como sistema completo com responsabilidade integrada, a decomposição continua necessária para identificar o que é fornecimento e o que é serviço.

Exemplo: sistema de climatização

Considere uma central de água gelada composta por chillers, bombas, torres, tubulações, válvulas, automação e serviços de instalação.

O chiller pode ser equipamento específico de elevada materialidade e mercado fornecedor próprio. A rede hidráulica, instalação elétrica, montagem mecânica e programação de controle são serviços.

Aplicar uma única taxa sobre todo o pacote pode distorcer a formação do preço. Entretanto, comprar o chiller separadamente também pode transferir interfaces importantes à Administração.

O ETP deve comparar as alternativas: aquisição separada, fornecimento integrado com BDI diferenciado ou contratação completa sob outra arquitetura de responsabilidade.

Exemplo: gerador e sistema de energia

Um grupo gerador de grande porte pode representar parcela relevante do empreendimento. O fornecimento do equipamento pode ser claramente identificável, enquanto base civil, quadros, cabos, exaustão, tanque, automação, transferência, instalação e comissionamento constituem serviços associados.

Para aplicar BDI diferenciado com transparência, a especificação e a planilha precisam refletir essa fronteira.

O erro seria tratar “sistema de geração” como uma linha única e depois escolher uma taxa sem saber qual parte remunera produto e qual parte remunera engenharia.

Exemplo: sistemas de segurança e telecomunicações

Sistemas tecnológicos tornam a análise ainda mais sensível. Câmeras, controladoras, switches, servidores, storage e outros equipamentos podem ter alto valor. Mas a entrega de um sistema operacional envolve projeto, licenciamento, configuração, infraestrutura, instalação, integração, testes e documentação.

Um lote de câmeras adquirido como bens pode ter natureza de fornecimento. Um sistema de videomonitoramento integrado entregue com desempenho global não pode ser reduzido ao valor dos equipamentos.

A planilha deve decompor os componentes de forma compatível com a responsabilidade contratual. Caso contrário, um BDI reduzido aplicado indiscriminadamente pode subestimar atividades reais de engenharia e integração.

O Acórdão 2.340/2024 e a confirmação dos critérios cumulativos

A jurisprudência recente é relevante porque confirma que a Súmula 253 não deve ser aplicada por analogia superficial.

O Acórdão 2.340/2024-Plenário registrou que a exigência de BDI reduzido em obras se aplica quando as premissas da Súmula estão simultaneamente presentes: ausência de parcelamento devidamente justificada, natureza específica do material/equipamento com mercado especializado e representatividade significativa do item.

Essa síntese é especialmente útil na revisão de orçamento. Em vez de perguntar apenas “é equipamento?”, a equipe pode verificar três evidências documentais.

Como provar que o fornecimento é mera intermediação

A caracterização pode usar documentos de mercado e da própria solução:

  • identificação do fabricante ou classe de fornecedores especializados;
  • cotações diretas do equipamento;
  • comparação entre preço de fábrica/distribuidor e preço incluído no orçamento;
  • descrição das atividades realizadas pela construtora sobre o fornecimento;
  • responsabilidade por transporte e armazenamento;
  • responsabilidade por garantia;
  • separação entre equipamento e serviços associados;
  • análise de interfaces técnicas;
  • impacto econômico do item no valor global.

Quanto menor o esforço técnico da construtora sobre o fornecimento e maior a possibilidade de aquisição direta, mais forte é a caracterização de intermediação.

Como calcular o impacto econômico

Considere um equipamento de R$ 3 milhões dentro de uma obra de R$ 15 milhões. O item representa 20% do valor antes da aplicação do BDI correspondente.

Se o BDI geral fosse 25% e o BDI diferenciado calculado fosse 14%, a diferença de incidência sobre R$ 3 milhões seria relevante.

A comparação simplificada seria:

  • com BDI geral de 25%: R$ 3.750.000;
  • com BDI diferenciado de 14%: R$ 3.420.000;
  • diferença: R$ 330.000.

Esse exemplo não define qual taxa é correta; demonstra por que a materialidade precisa ser analisada. Uma decisão sobre BDI pode alterar centenas de milhares ou milhões de reais sem mudar uma única unidade física do projeto.

Como tratar impostos e faturamento

A composição tributária do fornecimento precisa corresponder à natureza da operação e ao regime aplicável. O TCU destaca que uma das razões para a diferença entre BDI geral e BDI de fornecimento é a não incidência, sobre mero fornecimento, de parcela tributária típica da prestação de serviços.

A planilha deve evitar misturar produto e serviço de forma que a base tributária se torne opaca.

Também é importante alinhar orçamento, proposta, medição e documentação fiscal. Se o edital separa fornecimento e instalação, mas o modelo de medição os recompõe em item único sem clareza, perde-se parte da rastreabilidade construída na fase de orçamento.

BDI diferenciado e critério de aceitabilidade de preços

A Administração deve deixar claro no orçamento e no edital quais itens foram tratados como fornecimento relevante e qual taxa foi utilizada na formação do preço de referência.

Isso permite analisar propostas de maneira coerente e reduz disputa posterior.

O objetivo não é obrigar todos os licitantes a replicarem exatamente a estrutura interna de custos da Administração, mas garantir critérios objetivos de aceitabilidade e referência transparente para o julgamento do preço.

Quando o fornecimento representa parcela significativa, preços unitários e globais precisam ser avaliados com cuidado para evitar que descontos e acréscimos sejam distribuídos de forma a criar risco em futuros aditivos.

Relação com jogo de planilha e aditivos

Itens de alto valor sujeitos a BDI diferenciado também podem se tornar materialmente relevantes durante alterações contratuais.

Se a quantidade de um equipamento ou fornecimento aumenta, o preço unitário contratado passa a ter impacto maior. Se o BDI foi estruturado incorretamente desde a licitação, o problema se amplifica no aditivo.

Por isso, a separação entre fornecimento e serviço é uma forma de controle da execução futura, não apenas uma questão de orçamento inicial.

Como estruturar a memória de BDI diferenciado

Uma nota técnica pode conter:

  1. Identificação do item e sua função no projeto.
  2. Valor de referência e participação no orçamento global.
  3. Mercado fornecedor e especialidade do item.
  4. Análise do parcelamento e justificativa para contratação conjunta.
  5. Descrição da atuação da contratada principal sobre o fornecimento.
  6. Separação entre fornecimento e serviços associados.
  7. Composição do BDI geral.
  8. Composição do BDI diferenciado.
  9. Comparação com os parâmetros do Acórdão 2.622/2013.
  10. Impacto econômico da diferenciação.
  11. Critério de medição e pagamento.
  12. Responsável técnico e aprovação.

A memória deve ficar vinculada à planilha e aos documentos de planejamento.

Como revisar um orçamento com equipamentos de grande valor

Equipamentos de alto valor costumam concentrar interfaces de projeto que alteram tanto o parcelamento quanto a estrutura de custos.

O Design Review verifica responsabilidades, compatibilidade, escopo e maturidade antes que a separação econômica seja consolidada no orçamento.

Design Review em Projetos de Engenharia

A revisão pode começar pela Curva ABC. Identificam-se os itens de maior peso e, entre eles, aqueles que são materiais ou equipamentos específicos.

Para cada candidato, responde-se:

  • O item poderia ser adquirido separadamente?
  • Se não, por que o parcelamento é inviável ou desvantajoso?
  • Existe mercado fornecedor próprio?
  • A construtora apenas intermedeia ou agrega engenharia relevante?
  • Qual é a participação do item no preço global?
  • Serviços associados estão separados?
  • A taxa diferenciada possui memória própria?
  • A composição tributária corresponde à natureza do fornecimento?
  • O edital e a medição preservam essa separação?

O resultado é uma matriz de decisão, e não uma seleção automática por código da planilha.

Quando não aplicar BDI diferenciado

A taxa reduzida não deve ser aplicada apenas porque o item é fisicamente um equipamento.

Pode não ser adequado quando:

  • o item é insumo comum da execução;
  • não possui materialidade relevante;
  • não existe mercado especializado distinto;
  • a contratada agrega transformação ou engenharia substancial ao item;
  • fornecimento e serviço são tecnicamente indissociáveis na estrutura econômica analisada;
  • os critérios da Súmula 253 não estão simultaneamente demonstrados.

A não aplicação também deve ser fundamentada quando o item parece, à primeira vista, preencher os requisitos.

Como contratar a engenharia necessária para tratar corretamente o BDI diferenciado

O problema deve ser resolvido desde o planejamento. A contratação dos serviços de engenharia precisa produzir documentos que permitam decidir sobre parcelamento, decompor corretamente o objeto e formar preço rastreável.

No ETP, deve ser avaliado se equipamentos relevantes podem ou não ser adquiridos separadamente. No projeto básico, fornecimento, instalação, integração e testes precisam estar tecnicamente caracterizados. Na revisão do projeto, interfaces e responsabilidades devem ser verificadas. Na fase de owner’s engineering ou apoio ao proprietário, a coerência entre projeto, orçamento, edital e execução pode ser controlada ao longo da contratação.

O produto final deve permitir responder, para cada item relevante: o que está sendo comprado, quem agrega valor, qual risco está sendo transferido, como será medido e qual estrutura de BDI corresponde àquela responsabilidade.

Considerações finais

BDI diferenciado é uma ferramenta de formação de preço e controle que evita aplicar a mesma estrutura de despesas indiretas dos serviços de engenharia a fornecimentos nos quais a contratada atua essencialmente como intermediária.

A aplicação correta exige muito mais do que localizar equipamentos na planilha. É necessário analisar parcelamento, mercado fornecedor, natureza específica, materialidade, responsabilidade técnica, serviços associados e composição da taxa.

A Súmula TCU 253, o Acórdão 2.622/2013 e a jurisprudência mais recente formam uma sequência coerente: primeiro se avalia se o objeto deveria ser parcelado; depois se identifica se o fornecimento cumpre os critérios; por fim se calcula e justifica uma taxa compatível.

Quando projeto e planilha separam claramente produto, instalação, integração e testes, o BDI deixa de ser um percentual genérico e passa a representar de forma mais fiel a estrutura econômica da contratação.

Quando fornecimentos críticos atravessam projeto, contratação, instalação, integração e aceite, a coerência precisa ser preservada ao longo de todo o ciclo.

A Engenharia do Proprietário mantém a visão independente do contratante sobre interfaces, desempenho, documentação, mudanças e entrega.

Engenharia do Proprietário (Owner’s Engineering)

Referências técnicas

[1] 1. BRASIL. Tribunal de Contas da União. Súmula TCU nº 253. Aprovada pelo Acórdão 624/2010-TCU-Plenário. Disponível em: https://pesquisa.apps.tcu.gov.br/documento/sumula/%2A/NUMERO%253A253%2520/DTRELEVANCIA%2520desc%252C%2520NUMEROINT%2520desc/0/sinonimos%253Dtrue

[2] 2. BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão 2.622/2013-TCU-Plenário. Relator: Ministro-Substituto Marcos Bemquerer Costa. Disponível em: https://pesquisa.apps.tcu.gov.br/doc/acordao-completo/2622/2013/Plen%C3%A1rio

[3] 3. BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão 2.340/2024-TCU-Plenário. Jurisprudência relacionada à Súmula 253. Disponível em: https://pesquisa.apps.tcu.gov.br/

[4] 4. BRASIL. Tribunal de Contas da União. Orientações para elaboração de planilhas orçamentárias de obras públicas. Brasília: TCU, 2014. Disponível em: https://portal.tcu.gov.br/biblioteca-digital/orientacoes-para-elaboracao-de-planilhas-orcamentarias-de-obras-publicas.htm

[5] 5. BRASIL. Presidência da República. Lei nº 14.133, de 1º de abril de 2021. Lei de Licitações e Contratos Administrativos. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14133.htm

[6] 6. BRASIL. Presidência da República. Decreto nº 7.983, de 8 de abril de 2013. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/decreto/d7983.htm

Perguntas frequentes
O que é BDI diferenciado?

É uma taxa de BDI reduzida aplicada a determinados fornecimentos relevantes de materiais e equipamentos quando a estrutura econômica do fornecimento é distinta daquela dos serviços de engenharia e os critérios definidos pelo TCU estão presentes.

Todo equipamento deve ter BDI diferenciado?

Não. O TCU exige análise de parcelamento, natureza específica, mercado fornecedor especializado e materialidade. A jurisprudência recente reforça que os requisitos da Súmula 253 devem ser atendidos simultaneamente.

Qual é o BDI de referência para mero fornecimento no Acórdão 2.622/2013?

Os parâmetros são 11,10% no primeiro quartil, 14,02% na média e 16,80% no terceiro quartil. Eles são referenciais estatísticos e não substituem a composição da taxa.

Fornecimento e instalação podem ficar no mesmo item da planilha?

Para aplicar BDI diferenciado de forma transparente, é recomendável separar o fornecimento dos serviços de montagem, instalação, integração ou aplicação, pois estes podem receber tratamento de BDI distinto.

O que significa percentual significativo na Súmula 253?

O TCU não fixa um percentual universal. A materialidade deve ser avaliada no caso concreto considerando participação no preço global e impacto econômico da diferenciação.

Antes de aplicar BDI diferenciado é preciso avaliar parcelamento?

Sim. A Súmula 253 parte da situação em que a inviabilidade técnico-econômica do parcelamento foi demonstrada. Sob a Lei 14.133, o ETP também deve justificar o parcelamento ou não da contratação.

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