Guia técnico sobre DPS 20, 40, 45 e 60 kA: diferenças entre In, Imax, Iimp, classes, Up, Up/f, Uw, ISCCR e método de dimensionamento.

Confira!

Os valores 20 kA, 40 kA, 45 kA e 60 kA aparecem com destaque em catálogos de DPS, mas não podem ser interpretados como uma escala simples de “proteção fraca” para “proteção forte”. O número em quilampères só faz sentido quando se sabe qual grandeza ele representa, qual forma de onda está associada ao ensaio e qual classe do dispositivo está sendo analisada.

Em um DPS Classe II, o valor pode estar relacionado à corrente nominal de descarga In ou à corrente máxima de descarga Imax, ambas normalmente associadas à forma de onda 8/20 µs. Em um DPS Classe I, a grandeza relevante é Iimp, que envolve não apenas o valor de pico, mas também transferência de carga e energia específica. Em um DPS Classe III, o parâmetro de ensaio é Uoc, associado ao gerador de onda combinada.

Por isso, comparar um DPS “20 kA” com outro “40 kA” sem ler a ficha técnica pode significar comparar grandezas diferentes. E mesmo quando ambos informam In ou Imax, o dispositivo de maior corrente não necessariamente oferecerá menor tensão residual, melhor coordenação ou maior adequação à instalação.

O dimensionamento deve responder a duas perguntas independentes: quanta corrente de surto o DPS precisa suportar no ponto em que será instalado? e qual tensão efetiva deve permanecer nos terminais dos equipamentos protegidos? A primeira leva a Iimp, In e Imax; a segunda leva a Up, Up/f e Uw.

O que significa kA em um DPS?

Quilampère é unidade de corrente, mas um DPS pode declarar diferentes correntes em kA. A leitura correta exige identificar a sigla ao lado do valor.

MarcaçãoSignificadoEnsaio / contextoPode ser comparada diretamente?
Incorrente nominal de descargaClasse II, onda 8/20 µsapenas com outro In sob a mesma referência
Imaxcorrente máxima de descargaClasse II, onda 8/20 µsapenas com outro Imax e mesma condição
Iimpcorrente de impulsoClasse I, associada a pico, carga e energia específicanão deve ser equiparada diretamente a In ou Imax
ITotalcorrente total de descargaDPS multipolardepende da arquitetura multipolar e dos modos simultâneos
ISCCRcorrente de curto-circuito nominal do conjuntosegurança em caso de falha do DPSnão é corrente de surto

O primeiro erro a evitar, portanto, é usar apenas o número em kA. Um produto pode destacar “40 kA” como Imax, enquanto outro destaca “20 kA” como In. Dependendo da família, os dois podem possuir desempenho muito próximo ou funções distintas.

Para a visão geral do dispositivo, consulte DPS: o que é, para que serve, classes, dimensionamento e instalação.

In: corrente nominal de descarga do DPS Classe II

A ABNT NBR IEC 61643-11 define In como o valor de pico de uma corrente que passa pelo DPS com forma de onda 8/20 µs. É a grandeza central dos ensaios de Classe II.

A palavra “nominal” não deve ser confundida com corrente nominal de carga do circuito. In não é a corrente que alimenta a instalação. É uma corrente transitória de surto empregada para caracterizar o DPS.

Por que a forma 8/20 µs importa

A forma de onda define como a corrente cresce e decai no tempo. Uma corrente de 20 kA 8/20 µs possui conteúdo energético e solicitação muito diferentes de uma corrente de 20 kA associada a um impulso mais longo.

Dessa forma, o número de pico sozinho não descreve o esforço sobre o DPS.

O que o In informa ao projetista

In ajuda a avaliar a capacidade do dispositivo frente a surtos repetitivos e participa da determinação de desempenho da Classe II. A seleção precisa estar relacionada à solicitação esperada no ponto.

O valor não define sozinho:

  • Uc;
  • Up;
  • Imax;
  • ISCCR;
  • proteção de retaguarda;
  • coordenação com outro DPS;
  • vida útil efetiva;
  • adequação ao esquema TN, TT ou IT.

Imax: corrente máxima de descarga

A ABNT NBR IEC 61643-11 define Imax como o valor de pico de uma corrente 8/20 µs que passa pelo DPS, com amplitude especificada pelo fabricante. A norma estabelece que Imax é maior ou igual a In.

Esse ponto explica uma grande parte das dúvidas de mercado.

Um DPS pode ser apresentado comercialmente como “40 kA”, mas sua ficha técnica informar, por exemplo:

  • In = 20 kA;
  • Imax = 40 kA.

Outro pode ser anunciado como “20 kA” porque o material comercial destaca o In.

Sem ler a ficha, a comparação é incompleta.

Iimp: por que a Classe I não deve ser comparada diretamente com 20 ou 40 kA de Classe II

Iimp é a corrente de impulso utilizada para os ensaios Classe I. A definição incorpora:

  • valor de pico;
  • transferência de carga Q;
  • energia específica W/R;
  • duração do evento.

A ABNT NBR 5419-4:2026 mostra valores preferenciais de Iimp associados a diferentes valores de carga e energia específica. Por exemplo, elevar Iimp aumenta fortemente a energia específica envolvida.

Isso significa que um DPS Classe I com Iimp = 12,5 kA não é “mais fraco” que um Classe II com Imax = 40 kA apenas porque 12,5 é numericamente menor que 40. São regimes diferentes.

A distinção entre as classes é aprofundada em DPS Classe 1, Classe 2 e Classe 3.

20 kA, 40 kA, 45 kA e 60 kA: por que esses valores aparecem tanto?

Os fabricantes organizam famílias em capacidades normalizadas ou comercialmente convenientes. É comum encontrar produtos Classe II com In ou Imax em faixas como 10, 20, 40, 45, 60 kA ou superiores.

Esses valores não constituem, por si mesmos, uma sequência normativa obrigatória para todas as instalações.

A pergunta correta é: qual é a corrente esperada no ponto e qual parâmetro do produto representa aquela capacidade?

DPS 20 kA

Pode ser adequado em determinados quadros internos, circuitos terminais ou aplicações em que a solicitação 8/20 prevista seja compatível. Também pode aparecer como In de um dispositivo cujo Imax é maior.

Não deve ser considerado automaticamente “residencial” ou “fraco”.

DPS 40 kA

É uma faixa muito comum em produtos Classe II. Pode representar In ou Imax dependendo da família.

Em quadros de distribuição, 40 kA pode oferecer margem de capacidade e vida útil, mas não substitui a verificação de Up, Uc, ISCCR e coordenação.

DPS 45 kA

O valor de 45 kA aparece em diversas linhas comerciais. Tecnicamente, deve ser tratado exatamente como os demais: identifique se é In ou Imax, a classe, a forma de onda, o Up e as condições de ensaio.

Não existe uma regra normativa geral que torne 45 kA superior a 40 kA para toda instalação.

DPS 60 kA

Um valor maior de corrente pode aumentar a capacidade energética ou a margem frente a eventos, mas o ganho só tem sentido se a instalação puder efetivamente solicitar essa capacidade e se os demais parâmetros forem adequados.

Superdimensionar corrente sem melhorar Up/f, conexão, aterramento ou proteção de sinal pode ter pouco benefício técnico.

Um DPS de maior kA protege melhor?

Não necessariamente.

A proteção final depende de dois eixos:

1. capacidade energética, relacionada à corrente e ao regime de ensaio; 2. limitação de tensão, relacionada a Up e ao Up/f efetivo na instalação.

Imagine dois DPS Classe II:

  • DPS A: In = 20 kA, Imax = 40 kA, Up = 1,2 kV;
  • DPS B: In = 40 kA, Imax = 60 kA, Up = 1,8 kV.

Se a solicitação esperada for menor que 20 kA e a carga possuir baixa suportabilidade, o DPS A pode oferecer melhor proteção de tensão, desde que os demais critérios sejam satisfeitos.

O exemplo não serve para escolher produto sem projeto; serve para mostrar por que “mais kA” não é sinônimo automático de “melhor”.

Up: o parâmetro que não pode desaparecer da comparação

Up é o nível de tensão de proteção declarado pelo fabricante.

Durante a atuação, o DPS não reduz a tensão a zero. Ele limita a sobretensão a um nível residual. O equipamento protegido precisa suportar esse valor com margem adequada.

A NBR 5419-4:2026 amplia esse conceito para Up/f, nível efetivo de proteção no ramal.

Para DPS limitadores de tensão, uma forma simplificada é:

Up/f = Up + ΔU

onde ΔU representa a queda associada aos condutores de conexão, terminais e elementos do ramo.

Um DPS de 60 kA instalado com cabos longos pode proporcionar Up/f pior que um DPS de menor corrente instalado corretamente.

Uw: a suportabilidade do equipamento

Uw é a tensão suportável de impulso do equipamento. O objetivo é manter Up/f abaixo de Uw, observando as margens aplicáveis.

A NBR 5419-4:2026 apresenta condições específicas:

  • Up/f ≤ Uw quando a distância entre DPS e equipamento é desprezível;
  • Up/f ≤ 0,8 Uw para circuitos não maiores que 10 m;
  • Up/f ≤ 0,5 Uw para até 10 m quando a falha do sistema interno é crítica;
  • para distâncias superiores a 10 m, podem ser necessários DPS adicionais, DPS de duas portas, blindagem ou melhoria do roteamento.

Portanto, a escolha entre 20, 40 ou 60 kA não responde à pergunta sobre a tensão efetiva que chegará à carga.

Como a NBR 5410 trata In e Iimp

A edição consultada da ABNT NBR 5410:2004, versão corrigida 2008, estabelece critérios mínimos de corrente conforme a finalidade do DPS.

Para proteção contra sobretensões atmosféricas transmitidas pela linha externa e surtos de manobra, a norma estabelece In mínimo por modo de proteção e apresenta condições particulares para o DPS entre neutro e PE em determinados esquemas.

Quando a proteção se destina a correntes associadas a descargas atmosféricas diretas sobre a edificação ou próximas, a norma orienta a determinação de Iimp e traz valores mínimos para situações em que a corrente não puder ser determinada.

Esses valores são mínimos normativos de referência, e não justificativa para escolher sempre o menor produto que atende ao número.

A NBR 5419-4:2026 complementa o raciocínio com análise da distribuição de corrente conforme o Nível de Proteção e a arquitetura da estrutura.

Corrente da descarga atmosférica não chega inteira a um único DPS

Em uma descarga direta, a corrente se distribui entre diversos caminhos:

  • subsistema de aterramento;
  • condutores de proteção;
  • PEN ou PE;
  • linhas de energia;
  • linhas de sinal;
  • tubulações metálicas;
  • interligações com outras estruturas.

A NBR 5419-4:2026 mostra que a parcela que atravessa um DPS depende fortemente dessa divisão.

No exemplo do Anexo D, para NP I e sem cálculo específico, é apresentada uma aproximação em que parte da corrente é dissipada pelo aterramento e parte retorna pelas linhas. Em outro exemplo, a existência de três linhas metálicas reduz a parcela de corrente atribuída à alimentação elétrica.

A lição de projeto é direta: Iimp deve representar a parcela esperada no ponto, não a corrente total da descarga atmosférica.

Como dimensionar a corrente do DPS: sequência de engenharia

1. Defina a classe necessária

Antes de escolher 20, 40 ou 60 kA, determine se a solicitação deve ser tratada como Classe I, II ou III.

  • corrente direta S1/S3: avaliar Classe I;
  • surtos induzidos S2/S4 e manobras: avaliar Classe II;
  • estágio complementar próximo à carga: avaliar Classe III.

2. Determine qual grandeza precisa ser especificada

Para Classe I, a grandeza central é Iimp.

Para Classe II, In é a grandeza nominal de ensaio e Imax pode ser utilizada como característica adicional.

Para Classe III, Uoc participa da caracterização.

3. Estime ou calcule a solicitação no ponto

Considere:

  • Nível de Proteção contra Descargas Atmosféricas;
  • fonte de dano;
  • posição do DPS;
  • número de linhas metálicas;
  • esquema de aterramento;
  • interligação entre estruturas;
  • divisão de corrente;
  • experiência de campo e dados de projeto.

Está dimensionando DPS para uma instalação com SPDA, múltiplos quadros ou cargas críticas?

O valor em kA deve ser definido a partir da solicitação esperada no ponto, e não apenas pela faixa comercial disponível. O Projeto de Medidas de Proteção contra Surtos (MPS) consolida corrente, classe, Uc, Up, Up/f, aterramento e coordenação em uma única arquitetura.

4. Adote margem coerente

Uma capacidade acima da corrente esperada pode aumentar a robustez e, em muitos casos, a vida útil do DPS.

Mas a margem não deve transformar a especificação em uma competição pelo maior kA.

5. Verifique Up e Up/f

Não aceite aumento de capacidade energética às custas de pior limitação de tensão sem análise.

6. Verifique Uc e TOV

Um DPS com grande corrente de descarga pode falhar ou degradar se Uc e comportamento TOV forem incompatíveis com a rede.

7. Verifique ISCCR e proteção de retaguarda

Corrente de surto e corrente de curto-circuito são fenômenos diferentes.

A interface com disjuntor ou fusível está detalhada em DPS e Disjuntor: proteção de retaguarda, dimensionamento e instalação.

O quadro possui corrente de curto-circuito elevada ou seletividade crítica?

Nesse cenário, o “kA do DPS” não pode ser analisado isoladamente. É necessário compatibilizar ISCCR, proteção de retaguarda, capacidade de interrupção e coordenação do sistema. Veja o Estudo de Curto-Circuito, Seletividade e Coordenação de Proteções.

8. Verifique coordenação com estágios a jusante

Um DPS de entrada com grande capacidade não elimina a necessidade de coordenação com DPS internos.

In e Imax não definem a vida útil sozinhos

A vida útil de um DPS depende da energia acumulada dos eventos, do número de atuações, da temperatura, das sobretensões temporárias, da qualidade do produto, do estado das conexões e da solicitação real.

Em termos gerais, maior capacidade energética pode oferecer maior margem para eventos abaixo do limite. Mas não existe uma conversão universal do tipo “40 kA dura duas vezes mais que 20 kA”.

A degradação é um fenômeno associado ao conjunto de solicitações e à tecnologia interna.

DPS 20 kA em instalação residencial: é suficiente?

Não existe resposta universal baseada apenas no uso residencial.

É necessário verificar:

  • entrada aérea ou subterrânea;
  • região e exposição;
  • existência de SPDA;
  • posição do quadro;
  • esquema de aterramento;
  • distância até cargas sensíveis;
  • classes de DPS utilizadas;
  • Up;
  • Uc;
  • coordenação.

Um DPS com In = 20 kA pode ser adequado em uma aplicação e insuficiente em outra.

DPS 40 kA em quadro industrial: é suficiente?

Também não existe resposta automática.

Em um QGBT industrial, além da corrente de surto, a corrente de curto-circuito disponível pode ser elevada. Isso exige verificar ISCCR, proteção de retaguarda e capacidade de interrupção do disjuntor/fusível.

Além disso, a presença de SPDA ou linhas externas pode exigir Classe I, caso em que um “40 kA Classe II” não substitui a avaliação de Iimp.

Para instalações existentes, a Inspeção, Diagnóstico e Adequação de DPS e MPS permite verificar o dispositivo dentro das condições reais do quadro.

Há DPS instalado, mas ninguém sabe se 20, 40 ou 60 kA realmente é adequado?

Em instalações existentes, o diagnóstico deve conferir a grandeza declarada, a classe, o estado do dispositivo, Uc, Up, ISCCR, retaguarda, aterramento e coordenação. Conheça a Inspeção, Diagnóstico e Adequação de DPS e MPS.

DPS 45 kA é melhor que 40 kA?

A diferença de 5 kA pode ser tecnicamente pouco relevante se os parâmetros principais forem outros.

Antes de concluir, compare:

  • a sigla associada ao valor;
  • classe;
  • In;
  • Imax;
  • Iimp quando aplicável;
  • Up;
  • Uc;
  • ISCCR;
  • TOV;
  • coordenação;
  • indicação de estado;
  • proteção de retaguarda.

Se um DPS “45 kA” possuir Up pior, Uc inadequada ou menor ISCCR, ele não é automaticamente superior a um “40 kA”.

DPS 60 kA é superdimensionado?

Pode ser ou não.

Um valor maior pode ser justificável quando:

  • a solicitação esperada é elevada;
  • existe alta frequência de surtos;
  • a criticidade exige maior margem;
  • o custo incremental é pequeno frente à disponibilidade requerida;
  • a família mantém Up, Uc e demais parâmetros adequados.

Pode ser tecnicamente desnecessário quando a solicitação é muito menor e nenhum outro benefício é obtido.

Superdimensionamento deve ser uma decisão consciente, não um substituto para cálculo.

A corrente do DPS e o esquema TN, TT ou IT

O esquema de aterramento influencia os modos de proteção e a divisão das tensões.

A NBR 5410 estabelece diferentes conexões entre fase, neutro, PE e PEN conforme o esquema. Em algumas configurações, o DPS N-PE pode estar sujeito a correntes combinadas de múltiplas fases, o que altera a corrente requerida nesse modo.

Por isso, um conjunto multipolar precisa ser analisado por modo e, quando aplicável, por ITotal.

DPS multipolar e ITotal

A ABNT NBR IEC 61643-11 define ITotal como a corrente que circula pelos condutores PE ou PEN de um DPS multipolar durante o ensaio de corrente total de descarga.

Esse parâmetro é especialmente relevante em DPS Classe I usados na equipotencialização de descargas atmosféricas, pois vários modos de proteção podem conduzir simultaneamente.

Em um sistema trifásico, olhar apenas o valor por polo pode não representar a solicitação total do conjunto.

Imax maior e Up menor: qual priorizar?

A resposta depende do projeto.

Se a capacidade energética já é suficiente para a corrente esperada, reduzir Up pode ser mais importante para proteger cargas sensíveis.

Se o DPS está próximo do limite energético, aumentar capacidade pode ser prioritário.

A seleção deve procurar uma solução que satisfaça simultaneamente:

  • capacidade de corrente;
  • limitação de tensão;
  • tensão permanente;
  • TOV;
  • curto-circuito;
  • coordenação.

Não é necessário escolher entre corrente e tensão quando o produto correto pode atender aos dois requisitos.

Como o comprimento dos cabos muda o resultado

A capacidade em kA permanece a mesma no catálogo, mas a tensão efetiva na carga pode aumentar devido à indutância dos condutores de conexão.

A NBR 5410 recomenda conexões curtas e retilíneas e, nos arranjos aplicáveis, prefere comprimento total de aproximadamente 0,5 m ou menos.

A NBR 5419-4:2026 apresenta como exemplo a ordem de grandeza de 0,1 kV por kA por metro na ligação de entrada. Assim, 10 kA em 1 m podem adicionar cerca de 1 kV ao nível efetivo.

Isso mostra por que trocar um DPS 20 kA por 60 kA sem corrigir um ramal longo pode não resolver a vulnerabilidade.

Exemplo 1: dois DPS Classe II anunciados como 40 kA

Considere dois produtos:

Produto A

  • In = 20 kA;
  • Imax = 40 kA;
  • Up = 1,2 kV;
  • Uc = 275 V.

Produto B

  • In = 40 kA;
  • Imax = 40 kA;
  • Up = 1,8 kV;
  • Uc = 275 V.

Os dois podem ser chamados comercialmente de “40 kA”, mas não são equivalentes.

O B possui maior In; o A possui menor Up. A decisão depende da corrente esperada, da carga e da coordenação.

Exemplo 2: Classe I 12,5 kA versus Classe II 40 kA

Comparar numericamente 12,5 e 40 é inadequado.

O primeiro valor pode representar Iimp, com requisito de carga e energia específica muito maior. O segundo pode representar Imax 8/20 µs.

A pergunta correta é qual classe e qual energia o ponto exige.

Exemplo 3: QGBT com alta corrente de curto-circuito

Um DPS Classe II de 40 kA pode possuir excelente capacidade frente a surto, mas seu conjunto DPS + desligador precisa suportar a corrente de curto-circuito presumida no barramento.

Se o ISCCR for inferior à corrente disponível, a solução é inadequada independentemente do valor de Imax.

Esse é um dos motivos pelos quais Projeto de Medidas de Proteção contra Surtos deve dialogar com estudos de curto-circuito e coordenação de proteções em instalações industriais.

O que pedir em uma ficha técnica

Ao especificar ou comparar DPS, procure pelo menos:

CampoPor que importa
classe de ensaiodefine o regime do dispositivo
IimpClasse I e corrente impulsiva
InClasse II e corrente nominal 8/20
Imaxcapacidade máxima 8/20 declarada
UocClasse III
Uctensão máxima contínua
Uplimitação de tensão
ISCCRsegurança frente ao curto-circuito
TOVcomportamento sob sobretensão temporária
modos de proteçãoonde o dispositivo atua
desligadorcomportamento de falha
indicação de estadomanutenção
coordenaçãocompatibilidade com outros estágios

Sem esses dados, “DPS 40 kA” é uma especificação incompleta.

Erros comuns ao escolher o kA

Escolher pelo maior número do catálogo

Pode gerar custo maior sem melhorar a proteção real.

Confundir In e Imax

Dois produtos anunciados com o mesmo kA podem possuir correntes nominais diferentes.

Comparar Iimp e Imax

São grandezas de regimes distintos.

Ignorar Up

Um DPS capaz de conduzir muita corrente pode limitar a tensão em nível inadequado para a carga.

Ignorar Uc

Um DPS de 60 kA com Uc incorreta continua sendo inadequado.

Ignorar o curto-circuito

ISCCR e a proteção de retaguarda precisam ser compatíveis com o barramento.

Escolher kA por tipo de edificação

“20 kA residencial” e “40 kA industrial” são simplificações sem base suficiente.

Não coordenar os estágios

O maior DPS na entrada não garante que o equipamento distante esteja protegido.

Não considerar energia e sinal

A carga pode receber surto por outra interface metálica.

Relação entre 20/40/60 kA e projeto de MPS

A seleção por corrente deixa de ser uma decisão simples quando existem:

  • SPDA;
  • sistemas críticos;
  • vários quadros;
  • longas distâncias;
  • linhas externas;
  • múltiplas estruturas;
  • telecomunicações e automação;
  • elevado curto-circuito;
  • necessidade de continuidade;
  • histórico de falhas.

Nessas situações, o kA precisa ser calculado ou justificado dentro da arquitetura de MPS.

O Projeto de MPS transforma essa análise em diagramas, especificações, memória de critérios, coordenação e requisitos de aquisição.

Como auditar um DPS existente de 20, 40 ou 60 kA

Em uma instalação existente, a inspeção deve verificar:

  • qual grandeza o valor representa;
  • classe;
  • posição;
  • fonte de dano;
  • Uc;
  • Up;
  • ISCCR;
  • proteção de retaguarda;
  • estado do módulo;
  • comprimento dos condutores;
  • coordenação;
  • alterações posteriores no quadro;
  • mudança de transformador;
  • novos sistemas conectados.

Trocar um DPS apenas porque “o atual é 20 kA e o novo é 40 kA” não é diagnóstico.

A rota apropriada é a Inspeção, Diagnóstico e Adequação de DPS e MPS.

Síntese: qual DPS escolher entre 20, 40, 45 ou 60 kA?

Não existe uma resposta universal baseada no maior número.

A sequência correta é:

1. identificar a classe; 2. identificar se o valor é In, Imax ou Iimp; 3. determinar a solicitação esperada no ponto; 4. verificar Up e Up/f frente a Uw; 5. verificar Uc e TOV; 6. verificar ISCCR e proteção de retaguarda; 7. coordenar com outros DPS; 8. documentar a seleção.

Se 20 kA já excede a solicitação com margem adequada e oferece melhor Up, um produto de 60 kA pode não trazer ganho relevante. Se a corrente prevista supera 20 kA, o DPS de 20 kA é inadequado mesmo que tenha excelente Up.

O número em kA é uma peça da especificação. O dimensionamento correto surge quando corrente, tensão, energia, instalação e coordenação são analisadas como um único sistema.

Referências técnicas

[1] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR IEC 61643-11:2021, versão corrigida 2022 — Dispositivos de proteção contra surtos de baixa tensão — Parte 11. Disponível em: Catálogo ABNT.

[2] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 5419-4:2026 — Proteção contra descargas atmosféricas — Parte 4. Disponível em: Catálogo ABNT.

[3] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 5410:2004, versão corrigida 2008 — Instalações elétricas de baixa tensão. Disponível em: Catálogo ABNT.

[4] INTERNATIONAL ELECTROTECHNICAL COMMISSION. IEC 61643-11:2011 — Low-voltage surge protective devices — Part 11. Disponível em: IEC Webstore.

Perguntas frequentes
O que significa 20 kA em um DPS?

Depende da ficha técnica. O valor pode representar In ou Imax em um DPS Classe II, por exemplo. É necessário identificar a sigla e a forma de onda associada antes de interpretar a capacidade.

DPS 40 kA é melhor que 20 kA?

Não necessariamente. Se ambos atenderem à corrente esperada, parâmetros como Up, Uc, ISCCR, TOV, coordenação e instalação podem ser mais determinantes para a proteção final.

Qual a diferença entre In e Imax?

In é a corrente nominal de descarga usada nos ensaios Classe II. Imax é a corrente máxima de descarga 8/20 declarada pelo fabricante e é maior ou igual a In.

Iimp é igual a Imax?

Não. Iimp é a corrente de impulso associada aos ensaios Classe I e envolve pico, transferência de carga e energia específica. Imax é uma corrente máxima 8/20 associada à Classe II.

DPS 45 kA é melhor que 40 kA?

A diferença numérica não permite concluir isso. É preciso comparar qual grandeza está sendo informada, além de classe, Up, Uc, ISCCR, TOV e coordenação.

DPS 60 kA pode ser usado em qualquer instalação?

Pode ser tecnicamente aceitável em muitas aplicações, mas o valor maior não compensa Uc incorreta, Up elevado, falta de coordenação ou incompatibilidade com curto-circuito.

Qual kA usar em residência?

Não há um valor único definido apenas pelo uso residencial. Entrada, SPDA, exposição, esquema de aterramento, classe, Up, Uc e coordenação precisam ser considerados.

Qual kA usar em indústria?

Também não existe valor universal. Instalações industriais podem exigir maior capacidade, mas a seleção deve considerar fonte de dano, corrente esperada, SPDA, curto-circuito e criticidade.

O kA do DPS define o disjuntor de retaguarda?

Não. In, Imax e Iimp são correntes de surto. O disjuntor ou fusível de retaguarda é selecionado pela corrente de curto-circuito, ISCCR e pelas instruções do fabricante.

Mais kA aumenta a vida útil do DPS?

Maior capacidade pode oferecer margem e reduzir a solicitação relativa por evento, mas a vida útil depende também de número e energia dos surtos, TOV, temperatura, tecnologia e condições de instalação.

Como saber se 20 kA é suficiente?

É necessário estimar ou calcular a corrente esperada no ponto, identificar a classe e verificar os demais parâmetros de proteção. O número isolado não é suficiente.

Posso substituir um DPS 20 kA por 40 kA diretamente?

Somente após verificar equivalência de classe, Uc, Up, modos de proteção, ISCCR, proteção de retaguarda e coordenação. Mesma tensão e maior kA não garantem equivalência.

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