Guia técnico aprofundado sobre DPS Classe 1, Classe 2 e Classe 3: Iimp, In, Uoc, aplicações, SPDA, fontes S1-S4, Up/f, Uw, coordenação e critérios de seleção.

Confira!

O DPS Classe 1, Classe 2 e Classe 3 não é definido apenas pelo ponto do quadro em que será instalado. A classificação está vinculada aos ensaios aos quais o dispositivo foi submetido, às grandezas que caracterizam esses ensaios e ao tipo de solicitação que o DPS deve suportar dentro da arquitetura de proteção contra surtos.

Na ABNT NBR IEC 61643-11, os ensaios de Classe I são caracterizados pela corrente de impulso Iimp; os de Classe II, pela corrente nominal de descarga In; e os de Classe III, pela tensão de circuito aberto Uoc do gerador de onda combinada. A consequência prática é importante: comparar as classes apenas como “forte, médio e fino” simplifica excessivamente o problema e pode levar à seleção errada.

A aplicação correta depende da origem dos surtos, da presença de SPDA, da parcela de corrente esperada no ponto, da tensão máxima de operação contínua Uc, do nível de proteção Up, da tensão suportável Uw do equipamento, do nível efetivo Up/f, da coordenação entre estágios e das condições de curto-circuito. A classe é uma parte da especificação, não a especificação inteira.

Em instalações industriais, edifícios corporativos, data centers, automação, telecomunicações e demais ambientes com sistemas eletrônicos sensíveis, o objetivo não é simplesmente distribuir classes pelos quadros. O objetivo é criar uma cadeia de proteção capaz de conduzir a energia esperada e reduzir a sobretensão até níveis compatíveis com os equipamentos protegidos.

O que significa Classe 1, Classe 2 e Classe 3 em um DPS?

A classificação deve ser lida como uma classificação de ensaio. Ela indica quais formas de solicitação foram utilizadas para verificar o comportamento do DPS e quais grandezas são empregadas para caracterizar seu desempenho.

ClasseGrandeza principalForma de solicitaçãoO que a classe demonstra
Classe IIimpcorrente impulsiva com requisitos de pico, carga e energia específicacapacidade de suportar solicitações associadas a parcelas de corrente de descarga atmosférica
Classe IIIncorrente de impulso 8/20 µsdesempenho diante de surtos de duração mais curta, típicos de surtos induzidos e transitórios conduzidos
Classe IIIUocgerador de onda combinada 1,2/50 µs e 8/20 µsdesempenho como estágio complementar, normalmente em condições de menor energia no ponto protegido

A própria introdução da ABNT NBR IEC 61643-11 diferencia os três grupos. Os ensaios de Classe I buscam simular correntes parciais de descargas atmosféricas conduzidas. Os ensaios de Classe II e III utilizam impulsos de menor duração.

Isso explica por que a equivalência comercial “Classe 1 = entrada, Classe 2 = quadro, Classe 3 = tomada” é apenas uma aproximação didática. A posição pode coincidir com essa sequência em muitas instalações, mas a seleção real depende da fonte de dano, da distribuição de corrente e da coordenação da MPS.

Para uma visão geral do dispositivo antes de aprofundar as classes, consulte DPS: o que é, para que serve, classes, dimensionamento e instalação.

Classe de ensaio não é sinônimo de nível de proteção

Outro erro frequente é interpretar Classe I, II e III como se a classe determinasse diretamente quanto menor será a tensão que chega ao equipamento. Essa leitura mistura capacidade energética com limitação de tensão.

O parâmetro diretamente relacionado à limitação é o Up, nível de tensão de proteção declarado pelo fabricante. O desempenho real no circuito, entretanto, deve considerar o Up/f, que incorpora também a queda de tensão nos condutores e elementos do ramal do DPS.

Um DPS Classe I pode ser capaz de suportar grande energia e apresentar Up superior ao desejável para uma carga eletrônica sensível. Um DPS Classe II ou III instalado a jusante pode então ser necessário para reduzir o nível efetivo de tensão. A lógica correta é coordenar energia suportada + tensão limitada + posição + conexão.

DPS Classe 1: quando a corrente impulsiva Iimp é determinante

O DPS Classe 1, também identificado no mercado como T1 ou Tipo 1, é ensaiado para uma solicitação representada por Iimp. A grandeza não é apenas um pico em quilampères. A definição envolve valor de pico, transferência de carga Q e energia específica W/R durante um tempo especificado.

Essa diferença é essencial para não comparar Iimp diretamente com In ou Imax como se todos fossem apenas “kA de DPS”. Uma corrente impulsiva associada a descargas atmosféricas diretas possui conteúdo energético diferente de uma corrente 8/20 µs de mesma amplitude de pico.

Relação entre Classe I e descargas atmosféricas diretas

A ABNT NBR 5419-4:2026 estabelece, no Anexo C, que quando a estrutura necessita de SPDA ou quando outras fontes de corrente impulsiva são identificadas na instalação, devem ser utilizados DPS ensaiados na Classe I nos pontos correspondentes.

A lógica deriva das fontes de dano:

  • S1: descarga atmosférica direta na estrutura;
  • S3: descarga atmosférica direta em linha conectada à estrutura.

Nesses cenários, parte da corrente da descarga pode alcançar as linhas de energia e sinal. O DPS na fronteira precisa ser selecionado para a parcela de corrente que efetivamente pode atravessá-lo.

Portanto, a frase “se tem para-raios, usa Classe 1” não está completamente errada, mas é insuficiente. A engenharia precisa saber onde a corrente entra, como ela se divide e qual Iimp é requerida naquele modo de proteção.

Há SPDA, múltiplas entradas metálicas ou equipamentos críticos na instalação?

Nesses casos, a seleção das classes deve fazer parte de uma arquitetura de proteção contra surtos, com definição de fronteiras, correntes esperadas, Up, Up/f, aterramento e coordenação. Veja o serviço de Projeto de Medidas de Proteção contra Surtos (MPS).

Iimp não deve ser escolhido apenas por tabela de produto

A NBR 5419-4:2026 mostra que a corrente esperada em um DPS depende de fatores como:

  • Nível de Proteção contra Descargas Atmosféricas;
  • ponto de instalação do DPS;
  • quantidade de linhas metálicas conectadas à estrutura;
  • distribuição da corrente entre aterramento e serviços metálicos;
  • esquema de aterramento;
  • impedância dos caminhos;
  • interligação com outras estruturas;
  • forma de onda e carga transportada.

O Anexo D apresenta, inclusive, exemplos em que a parcela de corrente em cada condutor varia fortemente conforme o número de serviços metálicos disponíveis para dividir a descarga. Isso demonstra por que “usar 12,5 kA porque é comum no mercado” não substitui a análise do sistema.

10/350 µs e a leitura correta da Classe I

É comum associar automaticamente Classe I à forma de onda 10/350 µs. Na prática de proteção contra descargas atmosféricas, essa forma de onda é uma referência importante para representar correntes de maior duração e conteúdo energético. Entretanto, a ABNT NBR IEC 61643-11 define Iimp por pico, carga e energia específica, e não apenas pelo nome de uma forma de onda.

A informação decisiva é verificar os valores declarados e o regime de ensaio do produto, não apenas procurar a marcação “10/350” no catálogo.

Onde o DPS Classe 1 costuma ser instalado?

A primeira oportunidade de desviar uma parcela de corrente impulsiva normalmente está próxima ao ponto de entrada da linha na estrutura e à equipotencialização principal. Por isso, o DPS Classe I frequentemente aparece:

  • no ponto de entrada da alimentação;
  • no QGBT próximo à entrada;
  • na fronteira entre ZPR externa e interna;
  • em painéis que recebem linhas expostas a correntes diretas;
  • em entradas metálicas entre estruturas, conforme a análise da MPS.

A NBR 5410 determina critérios específicos de localização dos DPS no ponto de entrada ou quadro principal, enquanto a NBR 5419-4 amplia essa lógica para ZPR, MPS e sistemas internos.

Não é correto concluir, porém, que todo DPS instalado no QGBT precisa ser Classe I. Se a fonte de dano relevante for apenas indução ou manobra e não houver corrente impulsiva direta prevista naquele ponto, um DPS Classe II pode ser suficiente.

DPS Classe 2: o papel de In e da onda 8/20 µs

O DPS Classe 2 ou T2 é caracterizado pela corrente nominal de descarga In, cuja forma de onda é 8/20 µs. Ele é amplamente utilizado em quadros de distribuição e em estágios internos de proteção contra surtos induzidos ou conduzidos.

A NBR 5419-4:2026 estabelece que, para proteção apenas contra efeitos de tensão induzida ou sobretensões por chaveamento, devem ser instalados DPS ensaiados na Classe II.

As fontes de dano mais diretamente associadas são:

  • S2: descarga atmosférica próxima à estrutura;
  • S4: descarga atmosférica próxima às linhas conectadas.

Nesses casos, o DPS não está necessariamente conduzindo a mesma parcela de corrente associada a um impacto direto, mas precisa suportar os surtos induzidos esperados.

O que In realmente significa

In é o valor de pico da corrente 8/20 µs utilizada nos ensaios de Classe II. O valor é importante porque participa da verificação de desempenho repetitivo e da determinação da tensão residual sob condições normalizadas.

Entretanto, In não deve ser confundido com:

  • Imax, corrente máxima de descarga 8/20 declarada pelo fabricante;
  • Iimp, corrente impulsiva da Classe I;
  • ISCCR, capacidade relacionada à corrente de curto-circuito da rede;
  • corrente nominal de um disjuntor de retaguarda.

Essa distinção é aprofundada em DPS 20 kA, 40 kA, 45 kA ou 60 kA.

Onde o DPS Classe 2 é aplicado?

A Classe II é extremamente comum em quadros gerais quando não há corrente direta exigindo Classe I, quadros de distribuição secundários, painéis industriais, quadros de automação, alimentação de salas técnicas, circuitos de equipamentos sensíveis e estágios a jusante de DPS Classe I.

Mas a localização não é suficiente. Um Classe II precisa ser avaliado quanto a Uc, Up, In, Imax, ISCCR, TOV, modo de proteção, coordenação e distância até a carga.

Um DPS Classe II de 40 kA pode ser excelente em uma instalação e inadequado em outra. A corrente de descarga maior pode apenas aumentar a capacidade energética ou a vida útil esperada; não garante que o Up seja adequado ao equipamento.

DPS Classe 3: proteção complementar e onda combinada

O DPS Classe 3 ou T3 é ensaiado utilizando gerador de onda combinada. O parâmetro característico é Uoc, tensão em circuito aberto do gerador, associada a uma forma de onda de tensão 1,2/50 µs e a uma corrente 8/20 µs em curto-circuito.

Essa classe é normalmente empregada como estágio complementar próximo a equipamentos sensíveis, quando a proteção a montante não é suficiente para garantir o nível requerido nos terminais da carga.

Classe III não substitui os estágios anteriores

Um DPS Classe III não foi concebido para receber indiscriminadamente a mesma energia que um dispositivo de entrada. Se a instalação está exposta a correntes mais severas, a energia precisa ser reduzida pelos estágios anteriores antes de alcançar o dispositivo de proteção fina.

Por isso, a Classe III deve ser analisada dentro de um sistema coordenado de DPS.

Quando um DPS adicional próximo ao equipamento é necessário

A NBR 5419-4:2026 estabelece critérios baseados em Up/f, Uw e distância.

Quando o comprimento entre o DPS e o equipamento é desprezível, uma condição básica é Up/f ≤ Uw. Para trechos de até 10 m, a norma introduz margens mais conservadoras, como Up/f ≤ 0,8 Uw; quando a falha do sistema é crítica, a condição pode chegar a Up/f ≤ 0,5 Uw.

Para distâncias superiores a 10 m, podem ser necessárias medidas adicionais, como novo DPS próximo ao equipamento, DPS de duas portas, cabeamento blindado, roteamento conjunto de condutores vivos e PE e redução da área do laço.

Isso fornece a justificativa técnica para um terceiro estágio de proteção. Não é a classe isoladamente que determina a necessidade; é o nível de proteção efetivo que chega à carga.

O equipamento crítico está distante do quadro protegido?

Distância, roteamento e queda indutiva podem elevar o Up/f mesmo quando o DPS foi corretamente selecionado em catálogo. A engenharia de MPS verifica a necessidade de estágios adicionais, blindagem, coordenação e proteção próxima à carga.

Classe 1, 2 e 3 podem existir no mesmo sistema?

Sim. Um sistema coordenado pode utilizar diferentes classes em sequência, desde que exista compatibilidade energética e de tensão entre os dispositivos.

Um arranjo conceitual pode ser:

1. Classe I na entrada para conduzir parcela de corrente impulsiva; 2. Classe II no quadro intermediário para reduzir surtos residuais; 3. Classe III próximo à carga quando a suportabilidade do equipamento exige estágio adicional.

Essa sequência, porém, não é uma receita universal. Em uma instalação sem corrente impulsiva direta, o primeiro estágio pode ser Classe II. Em outra, um DPS combinado T1+T2 pode cumprir mais de uma função. Em equipamentos com proteção incorporada, a coordenação precisa considerar o DPS interno.

O artigo Coordenação de DPS: cascata, energia, Up/f e proteção de sistemas trata especificamente dessa interface.

DPS combinado T1+T2 e T2+T3

O mercado oferece DPS classificados para mais de uma classe de ensaio. Um dispositivo T1+T2, por exemplo, pode ter desempenho declarado tanto para Iimp quanto para In.

Isso não significa que ele elimina automaticamente a necessidade de todos os outros estágios. A decisão depende de Up e Up/f, distância até os equipamentos, capacidade energética requerida, existência de cargas críticas, coordenação com DPS a jusante e linhas de sinal conectadas aos mesmos equipamentos.

Um T1+T2 pode ser excelente na entrada e ainda exigir um T2 ou T3 próximo a uma carga distante e sensível.

Como a classe se relaciona com Uc

Uc é a tensão máxima eficaz que pode ser aplicada continuamente ao modo de proteção do DPS. A classe não define Uc.

É possível ter DPS Classe I, II ou III com diferentes tensões máximas de operação contínua. A escolha precisa considerar tensão nominal da rede, modo de conexão, esquema TN, TT ou IT, tolerância da alimentação, sobretensões temporárias e posição fase-neutro, fase-PE, neutro-PE ou fase-fase.

Por isso, escolher “Classe II 275 V” sem verificar a rede pode ser tão inadequado quanto escolher a classe errada.

Veja DPS 175 V ou 275 V: diferença, Uc, tensão da rede e como escolher para a análise específica de tensão.

Como a classe se relaciona com Up e Uw

Up representa o nível de tensão de proteção declarado. Uw representa a tensão suportável de impulso do equipamento.

O objetivo é que a sobretensão efetiva que chega aos terminais permaneça abaixo da suportabilidade da carga. Entretanto, o nível real é afetado por queda indutiva nos condutores do DPS, comprimento do ramal, dispositivos de retaguarda, conexões, propagação da onda, indução no circuito e distância até o equipamento.

É por isso que a NBR 5419-4 utiliza o conceito Up/f. Um sistema de classes perfeitamente “ordenado” pode falhar se os DPS forem instalados com condutores longos ou roteamento inadequado.

Como a classe se relaciona com o SPDA

O SPDA externo trata da interceptação, condução e dispersão da corrente de descargas diretas. A proteção dos sistemas elétricos e eletrônicos internos é tratada pelas MPS.

Quando a análise indica corrente direta circulando pelas linhas, DPS Classe I são usados na fronteira pertinente. Mas o SPDA não torna automaticamente todos os quadros internos pontos de Classe I.

A corrente se divide, a energia é reduzida e a arquitetura interna passa a exigir coordenação com Classes II e III conforme a necessidade.

Por isso, Projeto de Medidas de Proteção contra Surtos (MPS) deve ser integrado ao Projeto de SPDA quando os dois sistemas coexistem.

Como selecionar a classe de DPS: método de engenharia

A seleção pode ser estruturada em uma sequência lógica.

Caracterize a instalação

Levante tensão nominal, esquema de aterramento, origem da alimentação, ponto de entrada, quadros e distâncias, linhas externas, SPDA, equipamentos sensíveis, linhas de sinal e corrente de curto-circuito presumida.

Identifique as fontes de surto

Diferencie descargas diretas na estrutura, descargas diretas nas linhas, descargas próximas, surtos induzidos e sobretensões de manobra.

Se correntes diretas S1/S3 alcançam o ponto, a Classe I entra na análise. Se a solicitação for predominantemente S2/S4 ou manobra, Classe II pode ser suficiente.

Determine a parcela de corrente esperada

Para Classe I, estabeleça Iimp. Para Classe II, determine In adequado. A corrente não deve ser escolhida apenas pelo maior valor comercial disponível.

Defina Uc e comportamento TOV

A classe correta com Uc inadequada continua sendo uma especificação errada. Verifique a tensão permanente por modo de proteção e as sobretensões temporárias possíveis.

Verifique Up e Up/f

Compare o nível efetivo de proteção com Uw. Considere a instalação física, não apenas a ficha técnica.

Determine a necessidade de estágios adicionais

Se a distância, a criticidade ou a suportabilidade da carga exigirem proteção adicional, avalie Classe II ou III a jusante.

Faça a coordenação energética

A NBR 5419-4 recomenda que DPS em sequência tenham suas energias coordenadas conforme os princípios da IEC 61643-12 ou IEC 61643-22, usando as informações fornecidas pelos fabricantes.

Verifique curto-circuito e proteção de retaguarda

A classe não informa a segurança frente a falha em curto-circuito. Verifique ISCCR, desligadores, disjuntor/fusível e corrente presumida.

A interface é aprofundada em DPS e Disjuntor: proteção de retaguarda, dimensionamento e instalação.

Exemplo conceitual: edifício com SPDA e cargas eletrônicas

Considere uma edificação com SPDA, QGBT na entrada, quadros de andar e equipamentos de TI a dezenas de metros.

No QGBT, a engenharia identifica possibilidade de parcela de corrente direta. O estágio de entrada precisa ser compatível com Classe I e Iimp calculada ou definida conforme as premissas normativas.

Nos quadros de andar, a energia disponível já é menor, mas surtos residuais e induzidos continuam presentes. DPS Classe II podem ser utilizados, desde que coordenados com o primeiro estágio.

Na alimentação de uma sala técnica distante, o Up/f no terminal da carga é avaliado. Se o nível não atender à Uw dos equipamentos, um estágio adicional próximo à carga pode ser necessário, eventualmente Classe III.

O raciocínio correto é: ameaça → corrente → tensão residual → distância → suportabilidade → coordenação. As classes aparecem como consequência desse processo.

Exemplo conceitual: instalação sem SPDA externo

Uma edificação pode não necessitar de SPDA externo e, ainda assim, precisar de proteção contra surtos.

Se a análise indicar que não há correntes diretas S1/S3 envolvidas no ponto de entrada, mas existem surtos induzidos e de manobra, um DPS Classe II pode ser o primeiro estágio.

Isso demonstra que “Classe I sempre na entrada” não é regra universal.

Exemplo conceitual: equipamento crítico a mais de 10 m do quadro protegido

Suponha que um DPS Classe II esteja instalado no quadro e apresente Up compatível com a carga. O equipamento, porém, está a 25 m de distância.

A propagação do surto, a indução e a geometria do circuito podem elevar a sobretensão no terminal da carga. A NBR 5419-4 prevê medidas adicionais para distâncias superiores a 10 m.

Nesse caso, a engenharia pode avaliar DPS adicional próximo ao equipamento, Classe III ou Classe II adicional conforme a energia disponível, DPS de duas portas, blindagem e alteração do roteamento.

A necessidade nasce do desempenho efetivo, não de uma regra decorativa de classes.

Classe I ou Classe II no quadro geral?

A resposta depende da fonte de dano e da corrente esperada.

A pergunta técnica é: há parcela de corrente direta de descarga atmosférica que pode circular por este ponto?

Se sim, a Classe I deve ser considerada. Se não, e a solicitação for induzida ou de manobra, Classe II pode ser suficiente.

Também devem ser verificados existência de linha aérea, SPDA, estrutura e aterramento, serviços metálicos conectados, análise de risco, distribuição de corrente, localização do BEP e esquema de conexão.

Classe II ou Classe III perto da carga?

A escolha depende de quanto de energia ainda pode chegar ao ponto e qual nível efetivo de tensão precisa ser alcançado.

Um DPS Classe III não é automaticamente “melhor” para equipamentos eletrônicos. Se a energia disponível for superior à sua capacidade, ele precisa ser precedido por estágios adequados.

Em muitos casos, um Classe II de baixo Up corretamente coordenado pode ser empregado próximo à carga. Em outros, Classe III é a solução apropriada. A documentação do fabricante e a coordenação devem ser verificadas.

Erros comuns ao escolher a classe

Escolher a classe apenas pela posição do quadro

A posição é consequência da arquitetura, não o critério único.

Considerar Classe I mais protetora que Classe II

Classe I indica regime de ensaio energético diferente. Um Up menor em outro dispositivo pode ser mais importante para a carga.

Comparar Iimp com In

São grandezas associadas a ensaios diferentes.

Instalar Classe III diretamente na entrada

Pode submeter o dispositivo a energia acima do regime para o qual foi concebido.

Usar Classe II em ponto sujeito a corrente direta sem verificar Iimp

Pode resultar em subdimensionamento energético.

Ignorar Uc e TOV

A classe pode estar correta e a tensão máxima de operação contínua, errada.

Ignorar Up/f

O catálogo pode indicar bom Up, mas a ligação física elevar a tensão efetiva.

Misturar marcas e famílias sem dados de coordenação

A coordenação entre DPS deve ser comprovada por informações técnicas, não presumida.

Ignorar proteção de sinal

Um equipamento conectado a energia e telecomunicações pode ser danificado por diferença de potencial entre suas portas mesmo com boa proteção na alimentação.

DPS multipolar e classe de ensaio

Um DPS multipolar possui mais de um modo de proteção ou combinação de dispositivos interconectados. Em aplicações multipolares, é importante verificar também a corrente total de descarga ITotal quando declarada.

A NBR IEC 61643-11 destaca a relevância de ITotal especialmente para DPS Classe I usados em equipotencialização relacionada a descargas atmosféricas, pois múltiplos modos podem conduzir simultaneamente.

Isso é particularmente importante em sistemas trifásicos com neutro, onde a simples leitura do valor por polo pode não representar toda a solicitação do conjunto.

Classe e esquemas TN, TT e IT

A classe não define a conexão. O esquema de aterramento determina quais modos devem ser protegidos e quais tensões aparecem entre os terminais.

Na NBR 5410, DPS adicionais em TN-S, TT com neutro e IT com neutro podem ser configurados, conforme o esquema, entre fases e PE e entre N-PE, ou entre fases e neutro e entre neutro e PE. Em TN-C e circuitos sem neutro, a configuração muda.

Portanto, um “DPS Classe II 275 V” não é uma solução completa sem definir onde seus polos serão conectados.

O papel do comprimento dos condutores

A NBR 5410 determina que os condutores de conexão do DPS sejam mantidos tão curtos e retilíneos quanto possível, preferencialmente com comprimento total não superior a aproximadamente 0,5 m nos arranjos aplicáveis.

A NBR 5419-4 explica o motivo: a queda indutiva ΔU se soma ao Up para formar Up/f em DPS limitadores. Como referência, a norma apresenta exemplo em que 1 m de ligação conduzindo 10 kA pode acrescentar aproximadamente 1 kV.

Assim, uma seleção correta de classe pode ser inutilizada por uma montagem física ruim.

Quando a seleção deve virar um projeto de MPS

A necessidade deixa de ser apenas especificação de componente quando existem SPDA, múltiplas ZPR, linhas de sinal, várias estruturas interligadas, equipamentos críticos, distâncias relevantes, múltiplos quadros, dúvida sobre divisão de corrente, necessidade de blindagem e roteamento, diferentes esquemas de aterramento ou exigência de continuidade operacional.

Nessas situações, a solução deve ser desenvolvida como Projeto de Medidas de Proteção contra Surtos (MPS).

Para instalações existentes, a etapa anterior pode ser a Inspeção, Diagnóstico e Adequação de DPS e MPS, levantando dispositivos, parâmetros, conexões, estado, coordenação e lacunas antes do projeto.

A instalação já existe e não há certeza sobre classes, coordenação ou estado dos DPS?

Antes de substituir componentes por equivalência de catálogo, é mais seguro levantar a condição instalada, conferir Uc, Up, correntes, proteção de retaguarda, conexões e integração com SPDA e aterramento. Conheça a Inspeção, Diagnóstico e Adequação de DPS e MPS.

Critérios de aceite em uma especificação por classe

Uma especificação técnica não deve dizer apenas “DPS Classe I” ou “DPS Classe II”. Deve registrar, conforme a aplicação: classe ou classes de ensaio, Iimp, In, Imax quando utilizado, Uoc para Classe III, Uc, Up, modos de proteção, ISCCR, desligador e proteção de retaguarda, esquema de aterramento, indicação de estado, coordenação com outros DPS, condutores e detalhes de conexão, requisitos ambientais e documentação do fabricante.

Isso torna a compra verificável e reduz o risco de substituir um dispositivo por outro aparentemente equivalente apenas porque “tem a mesma classe e o mesmo kA”.

Síntese técnica: qual classe de DPS usar?

A resposta pode ser resumida por uma lógica, não por uma tabela de receitas:

  • Classe I: quando o ponto pode receber parcela de corrente direta de descarga atmosférica e a especificação precisa ser baseada em Iimp;
  • Classe II: quando a proteção é dirigida principalmente a surtos induzidos e transitórios conduzidos, com desempenho caracterizado por In 8/20 µs;
  • Classe III: quando é necessário estágio complementar próximo à carga, caracterizado por onda combinada e Uoc.

A classe deve ser compatibilizada com Uc, Up, Up/f, Uw, corrente de curto-circuito, esquema de aterramento, distância até a carga e coordenação entre todos os estágios.

É essa leitura integrada que transforma a escolha de “Classe 1, 2 ou 3” em uma decisão de engenharia de proteção contra surtos.

Referências técnicas

[1] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR IEC 61643-11:2021, versão corrigida 2022 — Dispositivos de proteção contra surtos de baixa tensão — Parte 11: requisitos e métodos de ensaio. Disponível em: Catálogo ABNT.

[2] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 5419-4:2026 — Proteção contra descargas atmosféricas — Parte 4: Sistemas elétricos e eletrônicos internos à estrutura. Disponível em: Catálogo ABNT.

[3] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 5410:2004, versão corrigida 2008 — Instalações elétricas de baixa tensão. Disponível em: Catálogo ABNT.

[4] INTERNATIONAL ELECTROTECHNICAL COMMISSION. IEC 61643-11:2011 — Low-voltage surge protective devices — Part 11. Disponível em: IEC Webstore.

Perguntas frequentes
Qual a diferença entre DPS Classe 1, Classe 2 e Classe 3?

A diferença principal está no regime de ensaio. Classe I é caracterizada por Iimp e solicitações associadas a parcelas de corrente de descarga atmosférica; Classe II por In com onda 8/20 µs; Classe III por Uoc e gerador de onda combinada. A classe não deve ser escolhida apenas pela posição do quadro.

DPS Classe 1 é sempre obrigatório quando existe SPDA?

Quando correntes diretas de descarga atmosférica podem atingir o ponto de instalação, a Classe I deve ser considerada. A seleção exata depende da arquitetura, da análise de risco, das linhas conectadas e da parcela de corrente esperada.

DPS Classe 2 pode ser usado no quadro geral?

Sim. Se naquele ponto não houver corrente impulsiva direta exigindo Classe I e a proteção for destinada a surtos induzidos ou de manobra, um DPS Classe II pode ser adequado, desde que os demais parâmetros também sejam compatíveis.

DPS Classe 3 pode ser instalado sozinho?

Somente quando a energia disponível no ponto for compatível com seu regime. Em instalações expostas a surtos mais severos, Classe III normalmente funciona como estágio complementar coordenado com DPS a montante.

Tipo 1, Tipo 2 e Tipo 3 são iguais a Classe 1, Classe 2 e Classe 3?

No mercado os termos T1/T2/T3 ou Tipo 1/2/3 são usados para identificar produtos ensaiados segundo as Classes I/II/III. O importante é verificar a norma do produto, as grandezas declaradas e a aplicação.

O que é Iimp em um DPS Classe 1?

Iimp é a corrente de impulso usada para caracterizar o ensaio Classe I. A grandeza envolve pico de corrente, transferência de carga e energia específica, não apenas um valor genérico em kA.

O que é In em um DPS Classe 2?

In é a corrente nominal de descarga, com forma de onda 8/20 µs, utilizada nos ensaios Classe II.

O que é Uoc em um DPS Classe 3?

Uoc é a tensão de circuito aberto do gerador de onda combinada utilizado nos ensaios Classe III.

Classe mais alta significa melhor proteção?

Não. A classe indica o regime de ensaio e a capacidade frente a determinadas solicitações. O nível de tensão de proteção Up, o Up/f, a Uc, a coordenação e a instalação física também são determinantes.

Posso misturar DPS de classes e fabricantes diferentes?

É possível utilizar diferentes classes, mas a coordenação energética deve ser comprovada. Quando se misturam famílias ou fabricantes, é necessário dispor de dados técnicos suficientes para demonstrar a coordenação.

Quando devo usar DPS Classe 1 e Classe 2 juntos?

Quando o estágio de entrada precisa conduzir corrente impulsiva e os estágios internos precisam reduzir surtos residuais até níveis adequados às cargas. A necessidade depende do projeto e da coordenação.

Qual a relação entre Classe do DPS e Uc de 175 V ou 275 V?

São critérios independentes. A classe caracteriza o ensaio; Uc é a tensão máxima eficaz de operação contínua do modo de proteção. Um DPS pode ter a classe correta e Uc inadequada para a rede.

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