Entenda a relação entre DPS e disjuntor: proteção de retaguarda, curto-circuito, ISCCR, fusível, corrente nominal, capacidade de interrupção, seletividade e critérios da NBR 5410.

Confira!

A expressão “DPS disjuntor” aparece com frequência porque os dois dispositivos costumam estar instalados no mesmo quadro e, em muitos casos, trabalham de forma coordenada. Tecnicamente, porém, DPS e disjuntor não são a mesma coisa. O DPS — Dispositivo de Proteção contra Surtos — limita sobretensões transitórias e escoa correntes de surto; o disjuntor é um dispositivo de proteção contra sobrecorrentes, destinado principalmente a interromper sobrecargas e curtos-circuitos dentro de suas características nominais.

A relação entre ambos surge porque um DPS pode sofrer degradação ou falha interna e evoluir para uma condição de curto-circuito. Nessa situação, precisa existir um meio de desconexão capaz de eliminar a corrente de falta com segurança. Esse meio pode estar incorporado ao próprio DPS, pode ser um dispositivo externo instalado especificamente em sua conexão ou, em determinadas configurações, pode ser a própria proteção contra sobrecorrentes do circuito ao qual o DPS está conectado.

Por isso, não existe uma regra universal do tipo “todo DPS deve usar disjuntor de X amperes”. A seleção depende da corrente de curto-circuito presumida no ponto, da corrente nominal máxima do dispositivo de proteção indicada pelo fabricante do DPS, do arranjo de conexão, dos condutores, da seletividade e da estratégia de continuidade de serviço. Valores como 20 kA ou 40 kA impressos no DPS também não correspondem à corrente nominal do disjuntor e não podem ser usados diretamente para escolher sua proteção de retaguarda.

Compreender essa diferença evita dois erros comuns: instalar um DPS sem proteção adequada contra sua própria falha ou, no extremo oposto, selecionar um disjuntor por uma regra genérica que não corresponde aos ensaios, à corrente de curto-circuito disponível nem às instruções do fabricante.

DPS e disjuntor são a mesma coisa?

Não. Embora ambos participem da proteção da instalação elétrica, eles atuam sobre fenômenos diferentes e possuem grandezas nominais distintas.

DispositivoFunção principalFenômeno tratadoGrandezas típicas de especificação
DPSLimitar sobretensões e escoar corrente de surtoDescargas atmosféricas, surtos induzidos e sobretensões transitórias de manobraUc, Up, In, Iimp, Imax, ISCCR, TOV
DisjuntorInterromper sobrecorrentesSobrecarga e curto-circuitoIn, curva ou unidade de disparo, Icn/Icu/Ics, tensão nominal

O DPS normalmente permanece conectado à instalação aguardando um evento transitório. Quando a tensão entre seus terminais cresce acima das condições previstas, seus componentes não lineares mudam de comportamento e passam a conduzir parte da corrente de surto. Em seguida, o dispositivo retorna ao estado de alta impedância, desde que o evento esteja dentro de sua capacidade e não tenha ocorrido degradação irreversível.

O disjuntor, por sua vez, monitora a corrente do circuito. Dependendo de sua tecnologia e curva de atuação, abre o circuito quando identifica sobrecarga ou uma corrente de curto-circuito que ultrapassa seus limites de atuação.

Essa distinção é importante porque uma corrente de surto de dezenas de quilampères, com duração de microssegundos, não deve ser confundida com uma corrente de curto-circuito de frequência industrial que precisa ser interrompida pelo dispositivo de proteção contra sobrecorrentes.

O guia principal sobre DPS detalha funcionamento, classes, Uc, Up, In, Iimp e os demais parâmetros do dispositivo. Aqui, o foco é exclusivamente sua interface com disjuntores, fusíveis e proteção de retaguarda.

Por que um DPS pode precisar de proteção contra sobrecorrentes?

A proteção existe por causa do modo de falha possível do DPS. Um dispositivo submetido a degradação progressiva, sobretensão temporária inadequada, esforço térmico ou evento acima da sua capacidade pode perder suas características normais e criar um caminho de baixa impedância permanente.

A ABNT NBR 5410 trata explicitamente da possibilidade de falha interna do DPS em curto-circuito. Nessa condição, deve existir um dispositivo de proteção contra sobrecorrentes capaz de eliminar o curto. A norma diferencia alternativas de posicionamento desse dispositivo e mostra que a escolha interfere diretamente na continuidade de serviço e na continuidade da própria proteção contra surtos.

A ABNT NBR IEC 61643-11:2021 complementa essa lógica pelo lado do produto. Ela exige que o DPS disponha de desligadores internos, externos ou ambos — com exceções específicas — e que seu comportamento sob corrente de curto-circuito seja seguro. O fabricante deve declarar as condições em que o dispositivo foi ensaiado e as características dos desligadores associados.

Isso significa que o disjuntor ou fusível associado ao DPS não é um componente escolhido apenas por conveniência de montagem. Ele integra a condição de segurança do conjunto.

Desligador interno não significa necessariamente proteção completa do circuito

Muitos DPS possuem mecanismos internos de desconexão térmica ou outros dispositivos de segurança. Eles podem retirar de serviço um componente degradado e acionar o indicador de estado do módulo.

Entretanto, a existência desse desligador não elimina automaticamente a necessidade de verificar a corrente de curto-circuito presumida e as instruções do fabricante. A ABNT NBR IEC 61643-11 ensaia o DPS considerando sua arquitetura, seus desligadores e, quando aplicável, a proteção externa especificada.

Por isso, é incorreto concluir que um DPS “com fusível interno” ou “com desconector térmico” pode ser instalado em qualquer ponto da rede independentemente da corrente disponível.

DPS precisa sempre de um disjuntor dedicado?

Não necessariamente. A NBR 5410 admite diferentes formas de prover a proteção contra sobrecorrentes associada à falha do DPS.

Uma possibilidade é instalar um dispositivo de proteção dedicado na própria derivação do DPS. Esse arranjo isola apenas o ramo onde o DPS está conectado quando ocorre uma falha, preservando a alimentação do restante da instalação. A desvantagem é que a instalação pode continuar energizada sem proteção contra novos surtos até que o DPS seja substituído.

Outra possibilidade é utilizar a proteção do próprio circuito ao qual o DPS está conectado. Nesse caso, uma falha do DPS pode provocar a atuação da proteção geral daquele circuito e interromper sua alimentação. A disponibilidade é menor, mas a instalação não permanece operando indefinidamente com um DPS defeituoso conectado.

Há ainda arquiteturas de maior disponibilidade que utilizam redundância e proteção individualizada. A NBR 5410 apresenta esse raciocínio ao discutir alternativas que priorizam continuidade de serviço, continuidade da proteção ou ambas.

A escolha depende da criticidade do sistema. Em um pequeno quadro de distribuição, uma solução pode ser suficiente; em data centers, processos industriais, centros de controle, telecomunicações ou instalações de missão crítica, a indisponibilidade causada por uma falha de DPS precisa ser tratada como requisito de engenharia.

O que é proteção de retaguarda do DPS?

Proteção de retaguarda é o dispositivo de proteção contra sobrecorrentes utilizado para eliminar uma corrente de curto-circuito decorrente de uma falha do DPS quando essa função não é integralmente atendida por sua própria arquitetura.

Na prática, o termo pode designar um fusível ou disjuntor externo instalado em série com a derivação do DPS. Ele não atua sobre o surto da mesma forma que o DPS; sua função é interromper a corrente de frequência industrial que pode permanecer circulando depois que o dispositivo de surto falha.

Essa distinção temporal é decisiva. A corrente transitória que caracteriza In, Imax ou Iimp possui forma de onda e duração completamente diferentes da corrente de curto-circuito que o disjuntor ou fusível deverá interromper.

Por isso, a especificação precisa verificar duas camadas de proteção:

1. desempenho do DPS diante dos surtos previstos, por meio de Uc, Up, In, Iimp e demais parâmetros; 2. desempenho seguro diante de uma falha do DPS, considerando corrente de curto-circuito presumida, ISCCR, desligadores e dispositivo de proteção contra sobrecorrentes.

Como dimensionar o disjuntor de proteção do DPS?

O processo não começa pelo valor de In ou Imax do DPS. A sequência correta parte das condições elétricas do ponto de instalação e da documentação do produto.

1. Determine a corrente de curto-circuito presumida no ponto

O primeiro dado é a corrente que poderia circular caso ocorresse um curto-circuito no local onde o DPS está instalado. Esse valor depende da fonte, transformador, impedâncias dos condutores, topologia da rede e distância até o ponto da falta.

Em instalações industriais, QGBT e quadros próximos a transformadores, essa corrente pode ser muito superior à encontrada em circuitos terminais. A proteção escolhida precisa possuir capacidade de interrupção compatível com essa condição.

Quando o valor não é conhecido, o estudo de curto-circuito e coordenação de proteções fornece a corrente presumida nos barramentos e pontos relevantes da instalação.

2. Verifique a corrente de curto-circuito nominal do conjunto DPS + proteção

A ABNT NBR IEC 61643-11 utiliza a corrente de curto-circuito nominal do DPS em conjunto com os desligadores especificados. Na prática, a ficha técnica deve informar a condição de ensaio ou a proteção máxima/necessária para que o conjunto alcance determinada suportabilidade.

Não basta verificar apenas a capacidade de interrupção do disjuntor. É necessário confirmar se o DPS foi ensaiado para operar com aquele dispositivo de proteção ou dentro das condições declaradas pelo fabricante.

3. Respeite a proteção máxima indicada pelo fabricante

A NBR 5410 determina que o dispositivo destinado a eliminar o curto decorrente da falha do DPS tenha corrente nominal inferior ou, no máximo, igual à indicada pelo fabricante do DPS.

Esse ponto elimina uma prática perigosa: escolher um disjuntor de corrente muito elevada apenas para evitar disparos. Se a corrente nominal ultrapassar o limite considerado na coordenação do DPS, a energia passante durante uma falha pode superar a capacidade do conjunto.

4. Verifique a capacidade de interrupção do disjuntor ou fusível

Além da corrente nominal em ampères, o dispositivo de proteção precisa suportar e interromper a corrente de curto-circuito presumida no ponto.

Para disjuntores, entram grandezas como Icn, Icu e Ics, conforme o tipo e a norma aplicável. O artigo sobre capacidade de interrupção de disjuntores aprofunda essas diferenças.

5. Verifique os condutores da derivação do DPS

A corrente de curto-circuito também solicita os condutores entre o barramento, a proteção de retaguarda e o DPS. A seção e o comprimento precisam ser compatíveis com a corrente máxima possível e com o tempo de atuação da proteção.

Ao mesmo tempo, os condutores do DPS devem ser mantidos tão curtos e retilíneos quanto possível para não aumentar a tensão residual durante o surto. Portanto, o projeto precisa satisfazer simultaneamente requisitos de suportabilidade térmica ao curto-circuito e de baixa indutância para o desempenho contra surtos.

6. Verifique a seletividade e a continuidade de serviço

O dispositivo dedicado ao DPS não deve ser analisado isoladamente. Sua atuação precisa ser coordenada com o disjuntor geral e com as demais proteções da instalação.

Em caso de falha do DPS, é desejável saber previamente qual dispositivo deverá abrir e qual parte da instalação ficará desenergizada. Essa análise é especialmente relevante quando a continuidade operacional faz parte dos requisitos do empreendimento.

DPS 20 kA ou 40 kA: qual disjuntor usar?

Não existe uma conversão direta entre os valores em quilampères do DPS e a corrente nominal do disjuntor.

Um DPS marcado como 20 kA, 40 kA ou 45 kA pode estar informando In ou Imax, dependendo do produto. Um DPS Classe I pode ainda destacar Iimp. Esses valores caracterizam o desempenho diante de correntes de surto e não correspondem ao valor em ampères do disjuntor de retaguarda.

Compare as grandezas:

Exemplo de marcaçãoUnidadeO que representaServe para escolher diretamente o disjuntor?
In = 20 kAkA, onda 8/20 µsCorrente nominal de descarga do DPSNão
Imax = 40 kAkA, onda 8/20 µsCorrente máxima de descarga declaradaNão
Iimp = 12,5 kAkA, ensaio Classe ICorrente de impulsoNão
Disjuntor 32 AACorrente nominal do dispositivo de proteção
Icu = 25 kAkACapacidade última de interrupção do disjuntorDeve ser comparada à corrente de curto-circuito presumida, não ao In do DPS

Assim, um DPS de 40 kA pode utilizar proteção de retaguarda de diferentes correntes nominais dependendo do fabricante, da família do dispositivo e da corrente de curto-circuito disponível. A ficha técnica e a coordenação do sistema são determinantes.

Corrente nominal do disjuntor e capacidade de interrupção são coisas diferentes

Outra fonte de erro é olhar somente para a corrente nominal do disjuntor. Um dispositivo de 32 A, 50 A ou 63 A define sua condição de operação e atuação para sobrecorrentes, mas isso não informa sozinho qual curto-circuito ele consegue interromper com segurança.

Dois disjuntores de 32 A podem possuir capacidades de interrupção muito diferentes. Em um quadro com corrente presumida de curto-circuito elevada, a corrente nominal pode estar correta e a capacidade de interrupção ser insuficiente.

Por isso, o dimensionamento da proteção de retaguarda do DPS envolve pelo menos três verificações independentes:

  • a corrente nominal máxima permitida pelo fabricante do DPS;
  • a capacidade de interrupção do dispositivo de proteção frente ao curto-circuito presumido;
  • a seletividade com as proteções a montante e a jusante.

O método de dimensionamento de disjuntores em baixa tensão detalha a seleção do disjuntor sob a ótica do circuito elétrico.

O disjuntor do DPS deve ficar antes ou depois do DPS?

Para um DPS de uma porta conectado em derivação, o dispositivo de proteção de retaguarda fica em série com a derivação que alimenta o DPS. Isso significa que a corrente destinada ao DPS atravessa o disjuntor ou fusível dedicado antes de chegar ao dispositivo de proteção contra surtos.

A expressão “antes ou depois” pode gerar confusão porque o DPS não funciona como um equipamento de carga convencional instalado em série com o alimentador principal. Em aplicações usuais, ele é conectado entre condutores ativos e a referência de proteção — por exemplo, fase-PE, fase-neutro ou neutro-PE, conforme o esquema previsto.

O que precisa ser definido no projeto é:

  • onde está o ponto de derivação do DPS;
  • qual dispositivo protege essa derivação;
  • qual é o caminho de corrente de surto;
  • qual é a referência de equipotencialização;
  • como minimizar o comprimento total das conexões.

Uma montagem eletricamente correta, mas com condutores longos entre barramento, proteção de retaguarda e DPS, pode elevar significativamente a tensão efetiva aplicada aos equipamentos durante o surto.

Disjuntor dedicado ou fusível: qual é melhor para o DPS?

Não existe uma solução universal. Tanto disjuntores quanto fusíveis podem ser empregados quando previstos pelo fabricante e compatíveis com a instalação.

O fusível possui elevada capacidade de interrupção e comportamento energético bem caracterizado, sendo frequentemente utilizado em aplicações com correntes de curto-circuito elevadas. Em contrapartida, sua atuação exige substituição.

O disjuntor permite rearme e pode facilitar manutenção e seccionamento do ramo do DPS. Entretanto, sua seleção precisa considerar curva de atuação, capacidade de interrupção, coordenação com a proteção a montante e compatibilidade com o DPS.

A decisão deve partir da documentação técnica do fabricante e da filosofia de proteção da instalação, não de preferência genérica pelo tipo de dispositivo.

O que acontece quando a proteção de retaguarda atua?

Quando um disjuntor ou fusível dedicado ao DPS abre devido a uma falha interna, o restante do quadro pode permanecer energizado. Essa continuidade é vantajosa para a operação, mas cria uma nova condição de risco: a instalação pode continuar funcionando sem a proteção contra surtos daquele estágio.

Por isso, o DPS precisa possuir indicação de estado e o projeto deve permitir que a perda de proteção seja identificada e tratada. Em sistemas críticos, contatos de sinalização remota podem ser integrados ao sistema de supervisão ou automação.

Se, em vez disso, a proteção geral do circuito for utilizada para eliminar a falha do DPS, a consequência pode ser o desligamento de todo o alimentador. A proteção contra surtos deixa de ser o único sistema afetado; a continuidade de serviço também é interrompida.

A escolha entre essas filosofias deve ser coerente com a criticidade do empreendimento e com sua matriz de riscos.

Como a seletividade interfere na proteção do DPS?

Se houver disjuntor dedicado ao DPS e outro dispositivo a montante, ambos ficam eletricamente em série para a corrente de falta do ramo. A seletividade busca garantir que a proteção mais próxima da falha atue primeiro, preservando o restante da instalação.

Sem coordenação adequada, uma falha de um único DPS pode provocar a abertura do disjuntor geral mesmo quando existe proteção dedicada no ramo. Em instalações com requisitos de continuidade, esse comportamento pode transformar uma falha localizada em indisponibilidade ampla.

A análise envolve curvas tempo-corrente, energia passante, características dos dispositivos e corrente presumida de curto-circuito. O conteúdo sobre seletividade de disjuntores e o artigo sobre coordenação de DPS tratam os dois lados dessa interface.

Qual a relação entre DPS, disjuntor e DR?

DPS, disjuntor e dispositivo diferencial-residual atuam sobre fenômenos diferentes:

  • o DPS limita sobretensões transitórias;
  • o disjuntor protege contra sobrecorrentes;
  • o DR atua sobre corrente diferencial-residual para proteção contra choques e outras aplicações previstas em projeto.

A NBR 5410 admite DPS a montante ou a jusante de dispositivos DR sob condições específicas. Quando o DPS fica a jusante, a imunidade do DR às correntes de surto precisa ser considerada; em determinadas configurações TT, a conexão do DPS a montante também exige cuidados próprios.

Portanto, a sequência física no quadro não deve ser definida por frases simplificadas como “primeiro DPS, depois DR e depois disjuntor”. O arranjo depende do esquema TN, TT ou IT, da arquitetura do quadro e da função de cada dispositivo.

O artigo sobre DR, IDR e DDR detalha essa proteção.

O que é ISCCR e por que essa grandeza importa?

A ABNT NBR IEC 61643-11 estabelece ensaios de comportamento do DPS sob correntes de curto-circuito e considera a corrente de curto-circuito nominal do conjunto nas condições declaradas pelo fabricante.

Na literatura técnica e nas fichas de produto, essa característica pode aparecer associada à sigla ISCCR — short-circuit current rating. O conceito representa a capacidade do DPS, considerado com os desligadores especificados, de permanecer seguro quando submetido à corrente presumida correspondente.

Esse parâmetro não deve ser confundido com In ou Imax. Um DPS pode suportar elevadas correntes de surto e, ainda assim, exigir um dispositivo de proteção específico para apresentar determinada classificação de curto-circuito.

Em QGBT e quadros próximos à fonte, essa verificação é particularmente relevante porque a corrente de falta disponível pode alcançar dezenas de quilampères.

Exemplos de decisão em diferentes instalações

Os exemplos a seguir são conceituais. Não substituem o cálculo nem a documentação do fabricante.

Quadro de distribuição com baixa corrente de curto-circuito

Em um quadro distante do transformador, a impedância dos alimentadores pode reduzir significativamente a corrente presumida. Um DPS Classe II pode ser instalado com proteção dedicada conforme a corrente máxima indicada pelo fabricante, desde que a capacidade de interrupção do disjuntor permaneça superior à corrente de falta calculada.

O fato de o DPS ser “40 kA” não define se o disjuntor deverá ser 20 A, 32 A, 50 A ou outro valor.

QGBT próximo a transformador

Em um QGBT com elevada corrente de curto-circuito, o mesmo modelo de DPS pode exigir proteção externa específica ou não ser adequado à condição disponível. A verificação da ISCCR e da capacidade de interrupção do dispositivo de retaguarda passa a ser crítica.

Nessa situação, substituir um fusível especificado pelo fabricante por um disjuntor de mesma corrente nominal sem verificar os ensaios e a coordenação pode alterar completamente o desempenho do conjunto.

Instalação de missão crítica

Quando a continuidade é requisito do empreendimento, pode ser preferível uma proteção dedicada ao ramo do DPS para evitar desligamento do quadro inteiro. A contrapartida é a necessidade de supervisão da condição do DPS e resposta rápida caso a proteção seja perdida.

O projeto pode ainda prever redundância ou arquitetura de vários estágios, conforme o risco e a criticidade.

Como inspecionar a proteção de retaguarda de um DPS existente?

Uma inspeção técnica não deve verificar apenas se existe um disjuntor ao lado do DPS. É necessário confirmar se o conjunto continua compatível com a instalação atual.

A verificação deve incluir:

  • identificação do modelo e características do DPS;
  • corrente nominal e capacidade de interrupção do disjuntor ou fusível associado;
  • instruções atuais do fabricante para proteção máxima e coordenação;
  • corrente de curto-circuito presumida no ponto;
  • estado e indicação do DPS;
  • aperto e integridade das conexões;
  • seção e comprimento dos condutores;
  • seletividade com dispositivos a montante;
  • alterações posteriores no transformador, alimentadores ou QGBT;
  • compatibilidade com o esquema de aterramento e com os dispositivos DR.

Uma alteração aparentemente distante do DPS pode invalidar sua proteção. A troca de transformador por unidade de maior potência, redução da impedância da fonte ou substituição do disjuntor geral pode aumentar a corrente de curto-circuito presumida e exigir nova verificação.

Quando a documentação não representa a condição real, uma inspeção das instalações elétricas pode anteceder o diagnóstico e o projeto de adequação.

Erros comuns na combinação entre DPS e disjuntor

Os erros mais recorrentes resultam da comparação de grandezas que não representam a mesma coisa ou da aplicação de regras universais a produtos diferentes.

1. Escolher o disjuntor pela corrente em kA impressa no DPS. In, Imax e Iimp não são corrente nominal do disjuntor. 2. Ignorar a proteção máxima indicada pelo fabricante. Um disjuntor superdimensionado pode deixar de proteger o conjunto na condição considerada no ensaio. 3. Verificar a corrente nominal e esquecer a capacidade de interrupção. Um disjuntor de 32 A pode ser inadequado a um barramento com corrente de curto-circuito superior à sua capacidade. 4. Considerar apenas o disjuntor e ignorar a ISCCR do DPS. A segurança depende do conjunto. 5. Substituir fusível por disjuntor apenas pela equivalência em ampères. A energia passante e a coordenação podem ser diferentes. 6. Instalar proteção dedicada sem avaliar seletividade. Uma falha localizada pode continuar derrubando a proteção geral. 7. Alongar as conexões para acomodar o disjuntor. A proteção contra curto melhora, mas a proteção contra surto pode piorar por causa da indutância adicional. 8. Não prever indicação de DPS desconectado. A instalação continua operando aparentemente normal, porém sem proteção contra surtos. 9. Alterar a instalação sem recalcular a corrente de curto-circuito. A proteção originalmente correta pode deixar de ser suficiente. 10. Aplicar diagrama genérico sem verificar TN, TT ou IT. A conexão e as sobretensões temporárias dependem do esquema de aterramento.

Quando o problema deve ser tratado como projeto de engenharia?

Em instalações novas, a proteção contra surtos deve fazer parte do projeto elétrico desde a definição da arquitetura dos quadros. O projeto precisa registrar DPS, modos de conexão, proteção de retaguarda, corrente de curto-circuito considerada, condutores, coordenação e requisitos de inspeção.

Em instalações existentes, a simples troca do DPS por modelo “mais forte” pode não resolver o problema. Quando há falhas recorrentes, ausência de documentação, ampliações, troca de transformador, alteração do SPDA ou modificações nos quadros, o diagnóstico deve considerar o sistema completo.

O Projeto Elétrico de Baixa Tensão consolida diagramas, especificações e critérios de proteção. Quando a corrente de falta é relevante para a seleção, o Estudo de Curto-Circuito, Seletividade e Coordenação de Proteções fornece a base quantitativa para validar disjuntores, fusíveis, painéis e a proteção de retaguarda dos DPS.

O aceite final deve confirmar que os dispositivos instalados correspondem ao projeto e às fichas técnicas utilizadas na coordenação. Em sistemas industriais ou críticos, o comissionamento das instalações elétricas permite verificar identificação, configuração, documentação e condições de operação antes da entrega.

A pergunta correta, portanto, não é “qual disjuntor usar para um DPS de 40 kA?”. A pergunta de engenharia é: qual dispositivo de proteção contra sobrecorrentes mantém o DPS seguro diante da corrente de curto-circuito disponível, respeitando a condição ensaiada pelo fabricante e a filosofia de continuidade da instalação?

Referências técnicas

[1] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 5410:2004 — Instalações elétricas de baixa tensão. Disponível em: ABNT Catálogo.

[2] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR IEC 61643-11:2021 — Dispositivos de proteção contra surtos de baixa tensão — Parte 11. Disponível em: ABNT Catálogo.

[3] INTERNATIONAL ELECTROTECHNICAL COMMISSION. IEC 61643-11:2011 — Low-voltage surge protective devices — Part 11: Surge protective devices connected to low-voltage power systems — Requirements and test methods. Disponível em: IEC Webstore.

Perguntas frequentes
DPS precisa de disjuntor?

O DPS precisa de um meio adequado de desconexão e proteção contra a corrente de curto-circuito que pode surgir em caso de falha. Esse meio pode ser interno, externo ou uma combinação, conforme o produto e a instalação. Quando houver disjuntor ou fusível externo, sua seleção deve seguir a documentação do fabricante e a corrente de curto-circuito presumida.

DPS e disjuntor são a mesma coisa?

Não. O DPS limita sobretensões transitórias e escoa correntes de surto. O disjuntor protege principalmente contra sobrecargas e curtos-circuitos. Eles podem trabalhar de forma coordenada, mas possuem funções e grandezas de especificação diferentes.

Qual disjuntor usar para DPS de 20 kA ou 40 kA?

Não existe conversão direta entre os kA do DPS e a corrente nominal do disjuntor. Os 20 kA ou 40 kA podem representar In ou Imax do DPS. O disjuntor deve respeitar a corrente máxima indicada pelo fabricante do DPS, possuir capacidade de interrupção adequada à corrente de curto-circuito presumida e estar coordenado com as demais proteções.

O disjuntor do DPS deve ficar antes ou depois dele?

Em DPS de uma porta conectado em derivação, a proteção de retaguarda fica em série com o ramo que alimenta o DPS. O ponto relevante é projetar a derivação, o caminho da corrente de surto e o comprimento das conexões; o DPS normalmente não é instalado em série com o alimentador principal.

Posso usar o disjuntor geral para proteger o DPS?

Em determinadas configurações, a proteção do próprio circuito pode eliminar a corrente decorrente da falha do DPS. A consequência pode ser o desligamento de todo o circuito. A NBR 5410 também admite proteção dedicada ao ramo do DPS, que tende a preservar a continuidade da alimentação, desde que o conjunto seja corretamente coordenado.

É melhor usar fusível ou disjuntor para proteger o DPS?

Ambos podem ser aplicáveis quando previstos pelo fabricante. Fusíveis oferecem elevada capacidade de interrupção e comportamento energético conhecido; disjuntores permitem rearme e podem facilitar o seccionamento. A escolha deve considerar a documentação do DPS, corrente de curto-circuito, seletividade e filosofia de manutenção.

O que é proteção de retaguarda do DPS?

É a proteção contra sobrecorrentes destinada a interromper a corrente de frequência industrial que pode circular quando um DPS falha em curto-circuito. Pode ser realizada por fusível ou disjuntor externo, conforme a arquitetura do produto e as instruções do fabricante.

O que é ISCCR do DPS?

ISCCR é a classificação relacionada à corrente de curto-circuito suportável pelo conjunto DPS e desligadores especificados. Ela deve ser compatível com a corrente de curto-circuito presumida no ponto de instalação e não deve ser confundida com In, Imax ou Iimp.

A corrente nominal do disjuntor é igual ao kA do DPS?

Não. A corrente nominal do disjuntor é expressa em ampères e define sua condição de operação. Os valores em kA do DPS normalmente representam correntes de surto como In, Imax ou Iimp. Já os kA de Icu, Ics ou Icn de um disjuntor representam capacidade de interrupção de curto-circuito.

O que acontece se o disjuntor dedicado ao DPS atuar?

O ramo do DPS pode ser desconectado enquanto o restante da instalação permanece energizado. Isso preserva continuidade de serviço, mas pode deixar a instalação sem aquele estágio de proteção contra surtos. Por isso, a indicação de estado e a manutenção rápida são importantes.

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