Entenda as diferenças entre DPS monofásico, bifásico e bipolar, como a alimentação e o esquema de aterramento definem a ligação e por que a especificação deve fazer parte do projeto elétrico e do MPS.
Confira!
Os termos DPS monofásico, DPS bifásico e DPS bipolar aparecem com frequência em catálogos, lojas e pesquisas na internet, mas não devem ser usados como substitutos de uma análise do sistema elétrico. O que define a forma correta de proteção é a arquitetura real da alimentação: quantos condutores ativos chegam ao quadro, se há neutro, qual é a tensão entre fases e entre fase e neutro, como o PE ou PEN é estabelecido, qual é o esquema de aterramento e quais modos de proteção precisam ser implementados.
Por isso, saber que uma instalação é “127/220 V” ou “220 V” não basta para escolher automaticamente um conjunto de DPS. A mesma tensão nominal pode aparecer em arranjos diferentes, com neutro presente ou ausente e com esquemas TN, TT ou IT distintos. O DPS precisa ser selecionado para os modos de proteção efetivamente presentes e para a tensão aplicada a cada um deles.
DPS monofásico não significa necessariamente um único módulo
Uma alimentação monofásica pode envolver fase e neutro, fase e fase ou outras configurações conforme o sistema de distribuição. Em uma instalação fase-neutro, por exemplo, o projeto precisa avaliar a proteção entre fase e neutro, fase e PE e neutro e PE conforme o esquema de conexão aplicável. Isso pode resultar em mais de um elemento de proteção mesmo que a carga seja chamada comercialmente de “monofásica”.
A quantidade de módulos no trilho DIN, portanto, não define sozinha o tipo de sistema. O conjunto deve ser lido pelos seus modos de proteção, pela topologia interna e pelas características elétricas declaradas pelo fabricante.
A ABNT NBR IEC 61643-11 define o modo de proteção como o caminho de corrente entre os bornes que contém os componentes de proteção, por exemplo entre fases, fase-terra, fase-neutro ou neutro-terra. Essa definição é mais útil para projeto do que simplesmente contar polos.
DPS bifásico e DPS bipolar não são sinônimos perfeitos
“Bifásico” normalmente descreve a forma de alimentação da instalação ou da carga. “Bipolar”, por outro lado, costuma descrever uma característica construtiva ou a quantidade de polos/módulos de um dispositivo. Um conjunto bipolar pode ser utilizado em determinadas alimentações, mas isso não significa que qualquer DPS de dois polos seja automaticamente adequado para qualquer rede dita bifásica.
O projeto deve responder, antes da escolha do produto:
- a alimentação é fase-fase, fase-neutro ou duas fases com neutro disponível?
- qual é a tensão entre os condutores que serão protegidos?
- existe PE separado desde a origem ou há PEN em parte da instalação?
- qual é o esquema TN, TT ou IT?
- o DPS será instalado na origem, em quadro secundário ou próximo à carga?
- existe SPDA externo?
- é necessária proteção Classe I, II ou III naquele ponto?
- qual Uc deve ser aplicada em cada modo de proteção?
- qual corrente de surto é esperada naquele ponto?
Sem essas informações, “DPS bipolar 275 V 40 kA” é apenas uma descrição parcial do componente, não uma especificação de engenharia.
Como a alimentação 127/220 V interfere na seleção
Em sistemas em que existe 127 V entre fase e neutro e 220 V entre fases, o valor de tensão que interessa para a seleção do DPS depende de onde o dispositivo é conectado. Um modo fase-neutro enxerga uma tensão diferente de um modo fase-fase. O mesmo raciocínio se aplica à relação entre neutro e PE em determinadas configurações.
É justamente por isso que a escolha de Uc não deve ser feita por regra de bolso. A ABNT NBR 5410 apresenta requisitos mínimos de Uc em função da tensão fase-neutro Uo, da tensão entre fases U e do esquema de aterramento. O artigo DPS 175 V ou 275 V: Uc, tensão da rede e TOV aprofunda essa seleção.
Um DPS com Uc inadequada pode operar fora da condição prevista, sofrer maior solicitação por sobretensões temporárias ou oferecer nível de proteção diferente do necessário. Em instalações onde há histórico de queima de DPS, perda de neutro ou variação anormal da rede, a análise de TOV deixa de ser detalhe e passa a ser parte do diagnóstico.
O esquema TN, TT ou IT muda a forma de ligação
A NBR 5410 diferencia as conexões possíveis em função do esquema de aterramento. Em TN-S, TT com neutro e IT com neutro, existem opções de conexão que envolvem fase-PE e neutro-PE ou fase-neutro e neutro-PE. Em circuitos sem neutro, a estratégia é outra. Em TN-C, o PEN precisa ser considerado adequadamente.
Por isso, instalar o mesmo arranjo em todos os quadros de uma empresa apenas porque todos operam em 220 V é uma prática tecnicamente frágil. Em instalações existentes, é comum encontrar transições TN-C-S, quadros com separação de neutro e PE feita em pontos diferentes, reformas antigas e alimentações auxiliares que não seguem exatamente o desenho original.
O artigo Esquemas de Aterramento Elétrico: TN, TT e IT deve ser usado como referência complementar. Quando a condição de campo não é clara, o correto é levantar a instalação antes de definir o MPS.
A forma de ligação começa pelo sistema de aterramento. Se neutro, PE, PEN ou o ponto de separação não estão corretamente identificados, não é tecnicamente seguro escolher o arranjo do DPS apenas pela tensão indicada no quadro.
Onde instalar DPS em uma instalação monofásica ou bifásica
A lógica de localização é a mesma que governa instalações maiores: a proteção começa na origem e é refinada conforme a distribuição interna e a criticidade das cargas. A NBR 5410 direciona a instalação do DPS para o ponto de entrada da linha ou quadro principal quando o objetivo é limitar sobretensões trazidas pela alimentação externa e manobras.
DPS adicionais podem ser necessários em quadros secundários ou próximos a cargas sensíveis. Mas esses dispositivos precisam ser coordenados com os de montante e jusante. A instalação não deve ser decidida pela disponibilidade de espaço no quadro.
Em uma residência simples, um único estágio bem dimensionado pode atender determinada necessidade. Em um edifício comercial, indústria, hospital, Data Center ou instalação com equipamentos eletrônicos distribuídos, a arquitetura pode exigir múltiplos estágios, proteção de linhas de sinal e critérios mais rigorosos para Up/f e Uw.
DPS Classe 1, Classe 2 ou Classe 3 em redes monofásicas e bifásicas
A classe de ensaio não é determinada pelo fato de a rede ser monofásica ou bifásica. Ela depende do tipo de solicitação de surto esperado e da posição do dispositivo na arquitetura de proteção.
A ABNT NBR 5419-4:2026 indica que, quando a estrutura necessita de SPDA ou existem fontes de corrente impulsiva associadas a descargas atmosféricas diretas, devem ser considerados DPS ensaiados na Classe I. Para proteção contra efeitos induzidos e sobretensões de chaveamento, DPS Classe II podem ser apropriados. Próximo a equipamentos, podem existir funções adicionais de limitação com Classe II ou III conforme o projeto.
O aprofundamento está em DPS Classe 1, Classe 2 e Classe 3.
Quantos kA precisa ter um DPS monofásico ou bifásico
A resposta não nasce da quantidade de fases. A ABNT NBR IEC 61643-11 diferencia In, Imax e Iimp, e a NBR 5419-4 relaciona a seleção à corrente esperada no ponto da instalação e à fonte de dano considerada.
Em outras palavras, dois sistemas 220 V aparentemente semelhantes podem exigir DPS com capacidades diferentes porque possuem alimentações, SPDA, transformadores, comprimentos de linha e exposições distintas.
Também não é correto concluir que “60 kA é sempre melhor que 20 kA”. Um DPS pode ter elevada capacidade de corrente e ainda apresentar Up, Uc, TOV ou coordenação inadequados para a carga. O artigo DPS 20 kA, 40 kA, 45 kA ou 60 kA detalha esse ponto.
O DPS precisa proteger todos os condutores ativos?
O projeto precisa identificar os modos de surto relevantes e as referências de equipotencialização. Não se trata simplesmente de colocar “um DPS em cada fio”. Em um conjunto multipolar, vários modos de proteção podem atuar simultaneamente, e a ABNT NBR IEC 61643-11 inclusive define a corrente total de descarga ITotal para determinadas avaliações de DPS multipolares.
Em redes com neutro, o comportamento do caminho N-PE merece atenção especial. Em algumas configurações, esse modo pode ser submetido à soma de parcelas provenientes dos demais condutores. O dimensionamento não deve ser inferido apenas do valor usado nos módulos de fase.
DPS monofásico no padrão de entrada e no quadro interno
A existência de um DPS no padrão ou medição não elimina automaticamente a necessidade de análise interna. A distância até o quadro principal, o caminho de equipotencialização, a existência de BEP e a proteção dos equipamentos influenciam o resultado.
A NBR 5419-4 considera o comprimento entre o DPS e o equipamento protegido. Para distâncias não desprezíveis, fenômenos de propagação, oscilação e indução podem elevar a tensão nos terminais da carga. Em determinadas condições, acima de 10 m pode ser necessária proteção adicional próxima ao equipamento ou outra estratégia de mitigação.
Essa é uma das razões pelas quais a proteção em cascata precisa ser projetada. A instalação de um DPS na entrada não autoriza concluir que todos os equipamentos internos estão automaticamente protegidos.
A ligação física deve minimizar a tensão adicional nos condutores
A NBR 5410 exige ligações curtas e retilíneas e recomenda, na configuração de referência, comprimento total preferencialmente não superior a cerca de 0,5 m. A NBR 5419-4 explica o motivo com o conceito de Up/f.
Para um DPS limitador, a tensão de proteção efetiva pode ser representada por Up/f = Up + ΔU. O ΔU surge principalmente da indutância das ligações e cresce com a corrente e o comprimento. Assim, uma instalação ruim pode anular parte do benefício obtido pela seleção de um DPS de baixo Up.
Em quadros pequenos, isso exige organização física. Em quadros industriais, pode exigir revisão do layout, posição do DPS, barramentos, fusíveis de retaguarda e rota do condutor PE.
Proteção de retaguarda também precisa ser dimensionada
O DPS pode falhar em curto-circuito. A NBR 5410 exige que exista proteção capaz de eliminar essa condição e trata de diferentes arranjos de proteção contra sobrecorrentes. A ABNT NBR IEC 61643-11 define ISCCR, que relaciona o DPS e seu desligador à corrente presumida de curto-circuito da rede.
Isso significa que não basta escolher um disjuntor “do mesmo valor” em todos os quadros. O ponto de instalação pode ter corrente de curto-circuito muito diferente de outro ponto da mesma edificação.
O artigo DPS e Disjuntor: proteção de retaguarda, dimensionamento e instalação deve ser usado para aprofundar essa interface.
DPS e DR em circuitos monofásicos e bifásicos
A presença de DR é comum em instalações de baixa tensão e frequentemente gera dúvidas sobre a posição do DPS. A NBR 5410 admite DPS a montante ou a jusante em condições específicas e exige atenção especial ao esquema TT.
A escolha deve considerar não apenas “quem vem primeiro”, mas o modo de conexão, a imunidade do DR a surtos e o comportamento de uma eventual falha do DPS. Em sistemas com muitos DRs a jusante, a coordenação precisa ser pensada desde o quadro de origem.
DPS monofásico e bifásico em instalações com SPDA
A presença de SPDA externo altera a solicitação esperada na instalação interna. Parte da corrente de descarga pode entrar na instalação por caminhos metálicos, e a NBR 5419-4 trata da distribuição dessa corrente e da necessidade de equipotencialização e DPS coordenados.
Uma edificação com captores, descidas e aterramento não deve receber DPS apenas com base na tensão da rede. O projeto de SPDA, a análise de risco, o nível de proteção e as interfaces de entrada precisam ser analisados em conjunto.
O conteúdo NBR 5419-4: SPDA interno, DPS e proteção de sistemas explica essa integração.
O que muda em uma adequação de instalação existente
Em instalação nova, o projetista pode definir desde o início esquemas, barramentos, posição dos DPS e coordenação. Em instalações existentes, a primeira dificuldade é descobrir a condição real.
É comum existir divergência entre o unifilar e o campo. Quadros podem ter sido ampliados, circuitos transferidos, geradores e UPS incorporados, sistemas fotovoltaicos adicionados e barras de neutro ou PE modificadas. A nomenclatura “monofásico” ou “bifásico” pode esconder uma infraestrutura mais complexa do que parece.
Adequação brownfield exige levantamento antes da especificação. Diagramas desatualizados, reformas e alimentações auxiliares podem alterar completamente os modos de proteção necessários.
Por isso, uma adequação profissional pode começar por Levantamento Cadastral de Engenharia, Inspeção de Instalações Elétricas ou Inspeção, Diagnóstico e Adequação de DPS e MPS.
O que precisa ser conhecido antes de especificar o DPS
Antes de selecionar o produto, a engenharia deveria consolidar uma ficha mínima de cada ponto de instalação:
- origem e tipo de alimentação;
- tensão fase-neutro e fase-fase;
- presença e função do neutro;
- esquema TN, TT ou IT;
- existência de PE ou PEN e ponto de separação;
- posição do BEP;
- presença de SPDA;
- classe de ensaio requerida;
- modos de proteção;
- Uc e TOV;
- Up requerido em relação ao Uw das cargas;
- In, Imax, Iimp ou Uoc conforme o estágio;
- corrente de curto-circuito presumida;
- retaguarda recomendada pelo fabricante;
- distância até o equipamento protegido;
- DPS existentes a montante e jusante;
- presença de DR;
- linhas de sinal associadas às cargas críticas.
Essa lista demonstra por que a resposta comercial “use dois DPS porque é bifásico” é insuficiente.
Projeto de DPS precisa conversar com o projeto elétrico
A proteção contra surtos utiliza informações que pertencem ao projeto elétrico: alimentação, diagramas, quadros, curtos-circuitos, aterramento, proteção contra choques e distribuição. Também utiliza informações do SPDA e das MPS.
Por isso, em instalações mais complexas, a solução pode exigir Projeto Elétrico de Baixa Tensão, Projeto de Aterramento, Projeto de SPDA e Projeto de MPS, conforme a condição encontrada.
Não significa que todo quadro simples exigirá todos esses serviços separadamente. Significa que a especificação do DPS precisa estar ancorada em uma visão técnica completa da instalação.
DPS é parte da engenharia elétrica da instalação. Quando a demanda envolve alimentação, quadros, aterramento, curto-circuito, SPDA e coordenação, o projeto precisa consolidar essas interfaces antes da execução.
Responsabilidade técnica e execução
A instalação de DPS implica intervenção em quadro elétrico, alteração de condutores, dispositivos de proteção e caminhos de equipotencialização. Em ambiente profissional, essa atividade deve ser executada dentro de um escopo técnico definido, com procedimentos de segurança, documentação e responsabilidade compatíveis.
O objetivo deste artigo é explicar como a engenharia interpreta os arranjos monofásicos e bifásicos, e não incentivar intervenção improvisada em quadros energizados.
Mapa de decisão: alimentação real, neutro e modos de proteção
Para selecionar DPS em instalações chamadas de “monofásicas” ou “bifásicas”, o primeiro passo é abandonar o rótulo comercial e representar eletricamente a alimentação. A ABNT NBR IEC 61643-11 define o modo de proteção como o caminho de corrente entre os bornes do DPS: entre fases, fase-terra, fase-neutro ou neutro-terra. É esse caminho que precisa ser compatível com a tensão aplicada e com o esquema de aterramento.
| Situação a verificar | Implicação de projeto |
|---|---|
| Fase + neutro | O projeto precisa definir proteção nos modos fase-N, fase-PE e/ou N-PE conforme TN, TT ou IT e o esquema adotado. |
| Duas fases sem neutro | Não existe caminho N-PE; a tensão entre fases e os modos fase-PE precisam ser analisados diretamente. |
| Duas fases + neutro disponível | Há mais combinações possíveis e o neutro não pode ser ignorado na definição dos modos de proteção. |
| TN-C com PEN | A lógica de conexão difere de TN-S porque PE e neutro ainda estão combinados em PEN naquele trecho. |
| TT ou TN-S | Neutro e PE possuem funções distintas e a conexão N-PE do DPS deve seguir o arranjo aplicável. |
| IT | A tensão permanente para terra e o comportamento em condição de falta exigem atenção específica na seleção de Uc. |
Dois quadros marcados “220 V” podem, portanto, exigir arquiteturas diferentes. Um pode ser alimentado fase-fase sem neutro; outro pode possuir fase e neutro; um terceiro pode fazer parte de um sistema com PEN a montante e separação posterior. A identificação correta depende do diagrama, da origem da alimentação e da condição real de campo.
Uc precisa ser verificada para cada modo de proteção
A NBR 5410 estabelece valores mínimos de Uc em função do esquema de aterramento e do par de condutores entre os quais o DPS é conectado. Isso significa que a pergunta “qual DPS usar em 220 V?” é incompleta. É necessário perguntar 220 V entre quais condutores? e qual tensão permanece aplicada ao modo de proteção em condição normal e em condições previsíveis de sobretensão temporária?
Na tabela normativa, Uo representa a tensão fase-neutro e U a tensão entre fases. Dependendo de TT, TN-C, TN-S ou IT, a tensão mínima admissível para Uc pode ser expressa em função de Uo, de U ou de múltiplos desses valores. A mesma placa de identificação do quadro não é suficiente para concluir qual Uc deve ser utilizada.
Além disso, a ABNT NBR IEC 61643-11 define Uc como a tensão eficaz máxima que pode permanecer aplicada ao modo de proteção do DPS. Se Uc for escolhida abaixo do esforço permanente ou das condições temporárias esperadas, o DPS pode sofrer solicitação contínua indevida. Se for escolhida excessivamente alta, pode-se perder margem de proteção. O artigo DPS 175 V ou 275 V aprofunda essa relação entre Uc, TOV e topologia da rede.
O modo N–PE merece análise própria
Em determinados esquemas de conexão com neutro, o caminho neutro-PE possui função específica na proteção. A NBR 5410 estabelece critérios próprios de corrente para esse modo e distingue redes monofásicas e trifásicas. Isso mostra que o componente N-PE não deve ser tratado como “mais um cartucho igual aos outros” sem verificar a função que ele desempenha no conjunto.
Para proteção contra sobretensões transmitidas pela linha e sobretensões de manobra, a norma estabelece mínimos específicos de In para o DPS entre N e PE quando utilizado no esquema correspondente. Para situações associadas a descargas atmosféricas diretas, a seleção passa para Iimp e para a parcela de corrente esperada. Esses valores normativos são referências mínimas; o projeto deve calcular ou justificar o esforço esperado no ponto de instalação e confrontá-lo com os dados do fabricante.
Esse cuidado é especialmente importante quando o usuário tenta converter uma solução “monofásica” em “bifásica” simplesmente adicionando um módulo. A arquitetura interna, o modo N-PE, a coordenação e a tensão aplicada podem ser diferentes.
DPS multipolar e ITotal em conjuntos com mais de um modo de proteção
A ABNT NBR IEC 61643-11 introduz um parâmetro importante para conjuntos multipolares: ITotal, a corrente total de descarga que circula pelo PE ou PEN quando diversos modos de proteção conduzem simultaneamente. Esse parâmetro é particularmente relevante quando um conjunto unitário possui vários caminhos de proteção convergindo para a mesma referência de equipotencialização.
Em um projeto, portanto, não basta verificar individualmente “quantos kA cada polo suporta”. Deve-se avaliar a capacidade do conjunto, as conexões comuns, o caminho PE/PEN, a barra de equipotencialização e a simultaneidade de condução. Essa análise evita uma leitura simplista em que a quantidade de módulos é usada como sinônimo de capacidade total.
O esquema TN ou TT também interfere no esforço sobre o DPS
O Anexo D da ABNT NBR 5419-4:2026 mostra que a distribuição da corrente da descarga atmosférica é influenciada pelas práticas de aterramento das linhas elétricas que entram na estrutura. A norma observa que, em um esquema TN com neutro multiaterrado, pode existir caminho mais direto e de menor impedância para determinadas correntes quando comparado a um esquema TT.
Isso não significa que um esquema seja universalmente “melhor” para DPS. Significa que o esquema de aterramento altera a física da distribuição de corrente e precisa entrar na modelagem da proteção. O artigo sobre esquemas de aterramento TN, TT e IT deve ser lido em conjunto com a especificação do DPS.
Coordenação com DPS já existente dentro do equipamento
Outro ponto frequentemente ignorado é que inversores, UPS, fontes, equipamentos de automação, eletrodomésticos e sistemas eletrônicos podem possuir proteção interna contra surtos. A NBR 5419-4:2026 alerta que a existência de DPS dentro do equipamento influencia a coordenação dos DPS externos e precisa ser considerada.
Um DPS instalado no quadro não pode ser selecionado apenas para “proteger o circuito”; ele precisa reduzir a solicitação nos terminais do equipamento sem criar uma coordenação energética inadequada com o dispositivo interno. Distância, Up/f, energia residual e características de desacoplamento passam a fazer parte da análise.
Esse é um dos motivos pelos quais equipamentos sensíveis localizados a mais de 10 m do estágio de proteção de montante podem exigir uma segunda análise. A NBR 5419-4 admite DPS adicional próximo ao equipamento, DPS de duas portas ou medidas de roteamento/blindagem quando a distância e o comportamento do circuito tornam a proteção de montante insuficiente.
O projeto precisa documentar a arquitetura, não apenas o código do produto
Uma especificação tecnicamente rastreável deve mostrar, para cada quadro e estágio, a origem da alimentação, tensão fase-neutro e fase-fase, esquema TN/TT/IT, presença de PEN, modos de proteção, Uc, Up, In/Iimp, ISCCR, dispositivo de retaguarda, seção e comprimento das conexões, localização física e relação com DPS a montante e a jusante.
Em instalações existentes, esse pacote também deve registrar divergências entre diagramas e campo, quadros adicionados, derivações, alimentações auxiliares e alterações de aterramento. Isso cria base para projeto, contratação, fiscalização, comissionamento e manutenção futura — e transforma a adequação de DPS em um serviço de engenharia documentado, não em substituição de componentes.
DPS monofásico e bifásico: a escolha correta nasce do sistema, não do rótulo
A conclusão mais importante é que monofásico, bifásico e bipolar são apenas parte da descrição. O DPS correto depende de alimentação, neutro, PE/PEN, TN/TT/IT, Uc, TOV, Up, corrente de surto, curto-circuito, proteção de retaguarda, SPDA e coordenação em cascata.
Em instalações existentes, o caminho mais seguro é primeiro entender a condição construída e só então definir a adequação. Em instalações novas, os DPS devem nascer integrados ao projeto elétrico e ao MPS.
A engenharia não consiste em descobrir quantos módulos cabem no quadro. Consiste em definir quais modos de proteção são necessários, qual solicitação existe em cada ponto e como todo o sistema funcionará de forma coordenada.
Referências técnicas
Perguntas frequentes
A diferença principal está na arquitetura da alimentação e nos condutores ativos presentes. O projeto deve avaliar tensão fase-neutro e fase-fase, presença de neutro, PE/PEN, esquema de aterramento e modos de proteção; não basta contar módulos.
Não necessariamente. Bifásico descreve normalmente a alimentação, enquanto bipolar costuma descrever quantidade de polos ou construção do dispositivo. A compatibilidade depende dos modos de proteção e características elétricas.
Não há resposta única baseada apenas na tensão nominal. É necessário saber onde o DPS será conectado, qual tensão aparece naquele modo de proteção, qual é o esquema TN/TT/IT, a Uc necessária, a classe, a corrente de surto e a coordenação com os demais dispositivos.
A quantidade de módulos depende dos modos de proteção e da topologia escolhida. A quantidade total de estágios na instalação depende ainda da origem, quadros, distâncias, SPDA e cargas sensíveis.
A proteção precisa de referência de equipotencialização coerente com o modo de proteção. PE, PEN, BEP e sistema de aterramento precisam estar corretamente definidos; DPS não corrige sozinho falhas de aterramento.
Em instalações profissionais, a escolha deve estar integrada ao projeto elétrico ou ao projeto de MPS, especialmente quando há SPDA, múltiplos quadros, cargas críticas, proteção em cascata ou instalações existentes sem documentação confiável.
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